A crise já chegou à Califórnia Eu cresci, no capítulo dos vinhos, com alguns mitos…

Damos cartas nos generosos
E temos muito para oferecer
Decorreu em Thuir (sudoeste da França, perto dos Pirenéus) a sessão dos vinhos fortificados do Concurso Mundial de Bruxelas (CMB). Ali foram provados 417 vinhos de 30 países, fortificados e vinhos doces naturais. A diferença da nomenclatura tem a ver com o facto da doçura ser natural (Colheitas Tardias, por exemplo) ou resultar de mostos com aguardente adicionada a meio da fermentação, resultando daí um vinho doce, como é o caso do Vinho do Porto, Madeira, Moscatel e Carcavelos.
Uma prova deste tipo é especialmente cansativa para o palato, porque a doçura não deixa “limpar” a boca entre cada amostra. A solução é beber muita água entre provas e não avaliar demasiados vinhos em cada sessão. E ainda assim, é preciso “calo” e prática. Portugal apresentou 102 vinhos a concurso (contra 53 em 2025) e portou-se bem, a ver pelo número de medalhas conquistadas. E para aqueles que acham que estas medalhas em concurso são “favas contadas”, é bom que se saiba que há uma percentagem máxima de medalhas em relação ao número global de amostras a concurso e, se tivemos muitas, é porque os vinhos eram mesmo bons. Repare-se: arrecadámos 62 medalhas (no ano anterior tinham sido “apenas” 27), 4 das 9 Grande Medalha de Ouro atribuídas, mais 30 ouro e 28 prata, além do troféu Fortified Wine Revelation. Este prémio (um de dois) foi atribuído a um novo projecto do Douro, a LR Wines & Experiences, empresa fundada em 2008 por Ivone Varandas e Luís Rodrigues e que tem a base na quinta Lugar do Rio. Outras regiões onde tradicionalmente se produzem licorosos também foram contempladas, como o Roussillon (sudoeste francês, sobretudo na zona de Rivesaltes, famosa pelo moscatel), e também Hungria, Grécia, Áustria e Roménia. A próxima edição do CMB (2027) terá lugar no Douro, onde se desenrolará o concurso habitual de brancos e tintos, e também a sessão dos fortificados.
Os prémios são óptimos e podem ser um incentivo ao negócio numa época em que o consumo de generosos tende a baixar para níveis preocupantes. Mas todos temos de fazer algo para que estes vinhos não entrem em fase de agonia. Mesmo em regiões que já estiveram praticamente mortas (como Carcavelos) e que em boa hora renasceram, há hoje um stock acumulado muito significativo porque… não se consegue vender. As empresas clássicas de Vinho do Porto estão, como se viu na edição de 2024, a declarar Vintage em quantidade que é metade ou menos do que já foi. Mas não tenhamos ilusões: também nós, consumidores, temos a obrigação de puxar por este tipo de vinho, tal como deveriam ter os “restauradores” que muitas vezes têm enormes quantidade de vinho do Porto no restaurante mas nenhum empregado é capaz de sugerir um generoso ao cliente. Eu, que frequento restaurantes com alguma regularidade, posso dizer que uma mão chega para as vezes em que me foi sugerido um Porto (por exemplo, mas poderia falar de qualquer outro generoso). Ah e tal, o cliente não gosta…, dizem. Não é verdade, e há sempre a hipótese de dizer ao cliente que se não gostar não paga. Mas há que aliciá-lo, há que lhe fazer compreender o pairing entre a sobremesa que pediu e o generoso que se propõe. Dá algum trabalho mas é para isso que existem sommeliers. E, em casa, não se pergunta, serve-se um generoso no final e todos gostam. E há sempre o frisson de se adivinhar o que se está a beber, o que faz da prova um enorme jogo de prazer.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Quinta do Monte d’Oiro Cabernet Franc tinto 2023
Região: Reg. Lisboa
Produtor: José Bento dos Santos
Casta: Cabernet Franc
Enologia: Grégory Viennois e (à data) Graça Gonçalves
PVP: €50
É a primeira edição deste vinho. Uvas com origem em pequena parcela de 0,24 ha. Fermentação em inox e estágio de 18 meses em barrica. Apenas se produziram 900 garrafas.
Dica: muito discreto nos aromas de vegetal verde mas muito bem conseguido no palato, com finura de fruta, excelente acidez e ambiente mineral. Muito bem!
Petrichor Curtimenta 2025
Região: Alentejo
Produtor: João Portugal Ramos
Castas: Arinto e Verdelho
Enologia: equipa da João Portugal Ramos
PVP: €32,99
É a 2ª edição deste vinho de parcela, em solos de xisto. Fermenta com as películas e fica em maceração pós-fermentativa por 7 meses. 1700 garrafas produzidas.
Dica: Dourado na cor, aroma maduro de pêssego, resina e notas minerais de pedra molhada. Cheio de personalidade no palato, é branco para pratos com substância. A descobrir.
Trishna tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Terrateam
Castas: misturadas em vinhas velhas com predominância de Tinta Amarela
Enologia: Pedro Sequeira
PVP: €68
Vinhas localizadas nas margens do rio Tanha. Pisa a pé, com engaço, em balseiros. Estágio em barrica usada. Foram feitas 1440 garrafas.
Dica: um Douro da nova vaga, álcool moderado, madeira muito discreta, fruta mais exuberante, ambiente fresco e boa leveza de conjunto. A beber desde já.
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