E o vinho que lhe chegamos Ao aproximar do S. Martinho, dia 11 Novembro, é…

O El Dorado que começa a queimar
A crise já chegou à Califórnia
Eu cresci, no capítulo dos vinhos, com alguns mitos que alimentavam os meus sonhos, paisagens californianas idílicas, com vinhas luxuriantes, adegas fabulosas de arquitectura arrojada e tudo gente rica que se deslocava em carrões de fazer inveja. Esta era, nos anos 70 e 80, a imagem da Califórnia, o paraíso da produção de vinho. Sem castas próprias, a costa oeste “importou” as castas francesas, entre brancas e tintas.
Tudo começou com Cabernet Sauvignon, Merlot, Chardonnay e Sauvignon Blanc e, em menor escala, a Pinot Noir. Recordo o enorme impacto que me provocaram tintos como Diamond Creek, Ridge Monte Bello ou Beaulieu Vineyard Georges Latour, daqueles que nos deixavam em sentido. A Califórnia era responsável por 80% de toda a produção vinícola do país, à conta de empresas gigantes, como Kendall-Jackson, Fetzer ou Ernest & Julio Gallo. Esta última, fundada nos anos 30 do séc. XX, no final da Lei Seca, foi o primeiro colosso vinícola do país. Para se ter uma ideia do que chegou a ser este negócio, lembremo-nos que, nos anos 90, a empresa Fetzer produzia, do seu Chardonnay então vendido a $7 dólares/garrafa, a incrível quantidade de 12 milhões de unidades/ano. Mas os ventos mudaram e, não por causa deste Fetzer, em 2025 a produção de branco ultrapassou o tinto. É uma tendência que reflecte algo que se passa por todo o mundo: os consumidores procuram vinhos mais leves, mais frescos, com menos álcool e mais descontraídos. Ganham os brancos. Nada desta conversa afecta os nomes míticos da Califórnia, Cabernets que continuam a ser disputados por milhares de dólares a botelha. Nomes como Screaming Eagle ou Harlan Estate, entre outros menos famosos mas igualmente caros, continuam a sorrir perante a crise. Os maus ventos, e o justificado boicote canadiano aos vinhos americanos, que implicou perdas de 360 milhões de dólares, afectam as empresas dos milhões de garrafas a 7 dólares, não as dos vinhos de nicho.
Segundo a imprensa americana, a crise já levou ao arranque, em 2025, de 15 370 ha de vinhedos e meio milhão de toneladas de uvas ficaram na vinha sem ser vindimadas. E não tenhamos ilusões: em Portugal precisamos mesmo de arrancar vinhas e algumas vinícolas, se fechassem portas, ninguém ia dar por isso. Com a quebra do consumo, pelas variadas razões amplamente conhecidas, e acentuadas no pós-COVID, e os maus resultados financeiros mesmo das grandes empresas, percebe-se que a situação terá, entre nós, tendência a piorar. Se a ideia é beber menos, é provável que o consumidor, quando se decide a beber, opte por escolher um vinho um pouco mais caro. O que é que significa “mais caro”, varia de bolso para bolso mas, para muitos, será comprar um vinho de 7 ou 8 euros, quando, o mais habitual era consumirem vinho a €2 o litro, em bag-in-box.
E não adianta um argumentário muito sofisticado: a fileira do vinho tem de puxar toda para o mesmo lado, os produtores com os distribuidores, os distribuidores com a restauração e garrafeiras, procurando aliciar o consumidor com vinho de boa qualidade a preços que se possam pagar. Em crónica recente falei deste tema e algumas críticas surgiram, em defesa dos preços na restauração; porque há o serviço, porque há os copos especiais, etc. É verdade que o serviço tem de se pagar mas, como me aconteceu há algum tempo, o sommelier que me serviu o vinho era um “eno-chato” que não se calava com pormenores que já iam muito além do que seria razoável. Serviço sim, mas com conta, peso e medida. E vamos lá acordar para a realidade e deixar cair os preços de ourivesaria.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Pintas Character tinto 2024
Região: Douro
Produtor: Wine & Soul
Castas: várias em vinhas velhas
Enologia: equipa Wine & Soul
PVP: €30
Foi feito pela primeira vez em 2005 e, desde então, tem tido edição anual. Vinhas em Vale Mendiz, margem do rio Pinhão. Um dos grandes valores do Douro, aprimorado e com imensa classe. Um orgulho para a região.
Dica: balanço perfeito entre maturação e com acidez muito viva, o que contribui para uma prova de enorme prazer. A este preço é, diga-se, um achado.
LV Reserva branco 2023
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Lobo de Vasconcellos Wines
Castas: Arinto e Verdelho
Enologia: Manuel Lobo
PVP: €29
Vinhas na zona de Évora. A fundação da empresa remonta a 2019 mas a família está secularmente ligada ao vinho (também na zona de Almeirim, quinta do Casal Branco). Aqui gerem cerca de 40 ha de vinhas, com um trabalho muito minucioso de zonagem e análise de solos. Estágio 10 meses em barrica.
Dica: graduação moderada de 12,5%, um branco polido, levemente mineral e de muito boa definição, com acidez perfeita e madeira no ponto. Sem falhas.
Herdade Aldeia de Cima Reserva tinto 2022
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade Aldeia de Cima
Casta: Alicante Bouschet, Aragonez, Trincadeira e Alfrocheiro
Enologia: António Cavalheiro
PVP: €17,50
Vinhas na serra do Mendo (Vidigueira). O estágio decorreu, conforme as castas, em quatro tipos de depósito, do cimento e ânfora de barro até às barricas.
Dica: muito clássico nos aromas da planície, com notas vegetais (musgo) e fruta madura, tudo em bom plano e com elegância. Resulta intensamente gastronómico. Muito bem para o preço.
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