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Castanhas que já salvaram vidas

E o vinho que lhe chegamos

Ao aproximar do S. Martinho, dia 11 Novembro, é já uma tradição falar de castanhas e vinho. Dizia o ditado que “no S. Martinho, vai à adega e prova o teu vinho”. Atendendo a que “nos tempos do antigamente” as vindimas eram muito mais tardias do que são hoje e que, habitualmente, se estendiam por Outubro; atendendo a que ninguém usava leveduras especiais e as que vinham com as uvas eram, não raras vezes, muito preguiçosas, o mais provável é que em 11 de Novembro o vinho ainda estivesse a meio da “cozedura”, nome popular que se dava à fermentação. Ainda assim dava para perceber se se iria ter um “pomadão” ou apenas um “vinheco”. Dúvidas… No barril ao lado do tonel, já estaria fermentado, ou quase pronto, o vinho baptizado com água, a tal água-pé. O conceito era, na realidade bem antigo e remontava à Idade Média: aconselhava-se o consumo de vinho porque era mais saudável do que a água, mas acrescentava-se água (de fonte mais segura, imaginamos) para diminuir o teor de álcool. Pensando que o consumo diário poderia ir de 2 a 4 litros, era conveniente o baptismo e, assim, a água-pé era o que mais habitualmente se consumia. E água boa não estava ao alcance de todos; é bom recordar que os lisboetas só passaram a ter água canalizada a partir de 1857. Significa que até meados do séc. XIX se mantinha a ideia da vantagem do vinho sobre a água… A capital estava rodeada de vinhas e, desde o séc. XIII, há alusões de vinhas em Xabregas, Chelas, Alvalade, Lumiar, Carnide ou Campolide e, em Arroios, as referências remontam ao séc. XII. O vinho esteve sempre por perto.

Já a castanha conheceu a sua época gloriosa até à chegada da batata, a partir do séc. XVI. Como sabemos, a “entrada” da batata foi a medo, que o pessoal do campo não lhe atribuía virtudes e, só em inícios do séc. XIX, em definitivo a batata suplantou a castanha na alimentação quotidiana. Mais localizada nas zonas do interior e norte do país, a castanha teve múltiplos usos culinários, em verde, seca, pilada e em farinha, neste caso usada para fazer pão misturada com centeio. Era um pão pesado e nada valorizado mas, em épocas de penúria e de escassez de trigo, conseguiu evitar males maiores. Dizia-se que pela cor do pão se conseguia fazer uma distinção social: pão alvo (trigo) para os senhores, pão de mistura e mais rústico para os outros. Nos livros de receitas das aldeias de xisto lá aparecem receitas de sopas de castanhas, em versão tão simples como: castanhas piladas, cozem em água com sal. Ponto, não há mais acrescentos. Modernamente fiz um upgrade e cozi as castanhas em caldo de galinha velha e depois de feito creme, juntei uns cantarelos previamente salteados e uma lasca de foie gras. Também não ficou mal…

Para a versão actual das castanhas, assadas na brasa ou cozidas, há uma múltipla escolha de vinhos mas os rosés têm todo o cabimento e são bem mais interessantes do que a água-pé. Têm mais grau que a dita mas, in memoriam, até se pode baptizar um pouco o rosé. Não aconselho, tal como se apresenta e normalmente com graduações moderadas, o rosé não requer baptismos. Já os franceses, como sabemos, esperam pela 3ª quinta feira de Novembro para abrir o Beaujolais Nouveau, um vinho leve e fresco que se bebe aos copázios. É a água-pé da Gália, exportada para todo o mundo, como se de grande vinho se tratasse. Não é o caso, mas o fenómeno dá que pensar. Há outros vinhos mais interessantes em Beaujolais mas esses já são de outro campeonato.

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Tapada do Chaves branco 2024

Região: Alentejo Portalegre

Produtor: Tapada do Chaves

Castas: Arinto, Antão Vaz, Fernão Pires entre outras

Enologia: equipa dirigida por Pedro Baptista

PVP: €28

A Fundação Eugénio de Almeida é a actual proprietária da quinta. Além deste existe um outro branco feito exclusivamente com uvas das vinhas velhas, plantadas no início do séc. XX.

Dica: aromas maduros, citrinos, austero no perfil mas muito sincero, sem rodriguinhos. A acidez excelente traz-nos também um ambiente mineral muito atractivo. Intensamente gastronómico mas há que evitar longas guardas.

 

São Luiz Winemaker’s Collection rosé 2025

Região: Douro

Produtor: Kopke Group

Casta: Tinto Cão

Enologia: Ricardo Macedo

PVP: €22

Esta é a 7ª edição deste rosé, limitada a 8350 garrafas, das quais 350 magnuns. O vinho, após a fermentação, estagiou sobre borras a fim de adquirir mais complexidade.

Dica: alaranjado na cor, mostra-se muito bem no aroma, com fruta e um perfil mais sério do que muitos outros rosados.  Beber jovem e bem fresco.

 

Veias do Dão Grande Reserva branco 2024

Região: Dão

Produtor: Veias do Dão

Casta: Encruzado

Enologia: João Oliveira

PVP: €27

Vinhas no coração da região do Dão, em terrenos graníticos de planalto. O vinho estagiou em barricas de carvalho. A empresa dispõe também de um rosé e tinto. Deste branco fizeram-se 1000 garrafas.

Dica: combinação bem conseguida de fruta branca, madura, com alguns fumados de madeira. Acidez excelente, como é normal na região. Será um sucesso à mesa.

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