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Um bastardo que é mais filho pródigo

Da indiferença ao estrelato

Bastardo é nome de casta e, para falar dela, mergulhamos na nossa história vínica mais antiga. Temos de “voar” até ao séc. XVI para encontrar, entre nós, referência escrita a esta variedade. Ela originalmente não deverá ser portuguesa, é a mesma casta que no Jura francês se chama Trousseau e que, ali, continua a ser uva de referência. O Jura é uma região localizada entre a Borgonha e a Suíça, é a pátria de uma das castas mais importantes da Europa, a Savagnin. O protagonismo e importância deve-se à grande quantidade de castas que dela derivam.

Com a Savagnin faz-se, localmente, um vinho mítico – o Vin Jaune – e esse vinho, branco aparentemente oxidado (mas que vive bem 200 anos em garrafa), acompanha na perfeição um queijo do Jura e que é dos mais conceituados da França, o Comté. A ciência da genética da vinha, que agora identifica a paternidade da maioria das castas, concluiu que a Savagnin é pai da Trousseau e terá chegado a Portugal pela “mão” das ordens religiosas. Foi no Douro que ela melhor se deu mas estendeu-se a outras regiões, sempre sem protagonismos, sem se chegar à boca do palco. Hoje está presente em Trás-os-Montes, Dão, Beiras e Setúbal, onde também está a renascer. Na ilha da Madeira foi em tempos usada para o generoso mas, hoje, é residual.

No Douro era utilizada para o Vinho do Porto; é uma casta precoce que, se fosse vindimada só quando as outras estavam maduras, já só se colhiam uvas em passa. Jorge Moreira, enólogo, diz-nos que a vindima é cerca de 2 semanas antes de qualquer outra mas requer atenção redobrada porque, entre madura e sobremadura, podem passar apenas dois dias; “temos de andar em cima dela”, afirma. Muito rica em açúcar, com pouca acidez e pouca cor, era usada em lotes. Foi este factor da pouca cor que afastou os produtores de vinhos tranquilos, ainda que a quinta do Côtto (Douro) tenha editado um varietal de Bastardo nos anos 70, ao lado de um Sousão. Ambos uma originalidade para a época.

Mas, mudam-se os tempos e mudam-se os gostos e, em épocas recentes, o interesse pela casta voltou (qual filho pródigo…) e são já vários os produtores que têm vinho no mercado, com algum pioneirismo para a marca Conceito que ajudou muito ao relançamento da casta. Ser casta precoce não é factor perturbador, uma vez que as vindimas estão hoje mais de um mês antecipadas em relação ao século passado, por exemplo. E ser casta com pouca cor já foi um problema, hoje é uma vantagem. “É uma casta com um aroma muito sedutor que cativa muitos visitantes.

Por isso já a temos plantada em três quintas para podermos aumentar o número de garrafas”, confirma Jorge. Sendo verdade que a cor do vinho não é sinónimo de qualidade, os vinhos menos carregados estão agora a prender a atenção dos consumidores. No caso da Bastardo, a maturação que se exige pode levar a um teor alcoólico um pouco mais elevado. Os três vinhos de hoje vão dos 12 aos 13,5% de álcool. Com muito baixa graduação pode resultar deslavado. Casta a conhecer? Sem hesitação!

Em Setúbal foi famoso o generoso Bastardinho de Azeitão. É, no entanto, um vinho, hoje quase extinto, cujo regresso vai demorar. Na José Maria da Fonseca tudo o que existia em casco foi engarrafado. A recuperação de vinhedos e novos plantios está em marcha mas, pode-se imaginar, só dentro de três ou mais décadas é que voltará a haver disponível o Bastardinho 30 anos, semelhante ao que agora ainda se encontra à venda e que é, diga-se, um generoso de altíssimo nível.

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

 

Conceito tinto 2022

Região: sem D.O.

Produtor: Conceito Vinhos

Casta: Bastardo

Enologia: à época, Rita Ferreira

PVP: entre €15 e 20

Vinhas no Douro Superior, beneficiando de altitude. Em 2024 a empresa editou também um Bastardo vinificado em branco. A originalidade do rótulo destaca-o em qualquer prateleira.

Dica: bonito na cor, atractivo no aroma, vegetal e fruta madura em bom diálogo. Mostra muita saúde e muita boa aptidão gastronómica.

 

Ponte do Fumo tinto 2023

Região: Douro

Produtor: Kranemann Estates

Casta: Bastardo

Enologia: Diogo Lopes

PVP: €35

Apenas se fizeram 876 garrafas. Ligeiro na cor, leve no aroma de fruta vermelha, com muitas notas de esteva e mato, atracção imediata.

Dica: é um tinto aberto, directo e que beneficia com consumo a temperatura mais baixa do que os outros tintos. Pode não justificar mais guarda.

 

Real Companhia Velha Séries tinto 2021

Região: Douro

Produtor: Real Companhia Velha

Casta: Bastardo

Enologia: Jorge Moreira

PVP: €23

A colecção Séries inclui vinhos experimentais, onde têm surgido velhas castas durienses que conhecem assim um renascimento. Produções limitadas, produtos originais. 6586 garrafas produzidas.

Dica: aberto na cor, aromas de morango, de groselha, ao lado de notas vegetais secas. Fresco, leve, muito fino. A empatia é imediata.

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