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Branco no tinto

Técnica antiga mas sempre actual

 Não lhe pedi licença, mas acho que a Ana Sofia Fonseca não ficará zangada por estar aqui a usar um título inspirado no seu podcast na rádio Observador. Tudo começa com a técnica de se fazer um vinho branco a partir de uvas tintas. Só para relembrar os princípios: na grande maioria das uvas tintas, a cor está concentrada na película (a que chamamos casca); a polpa (ou sumo) é muito descorada. Significa isto que, se se separar o sumo das películas, obtemos um mosto quase branco. Quanto ao “quase”, já lá vamos.

Foi por se fazer um vinho branco de uvas tintas que nasceu o nome de Blanc de Noirs (pode surgir grafado sem s no fim), termo muito usado em Champagne. É uma técnica vulgarizada naquela região mesmo desde os começos da história da bebida das bolhas. A tradição impôs duas castas tintas como as principais responsáveis do vinho – Pinot Noir e Pinot Meunier – acrescida, ou não, da branca Chardonnay. A esmagadora maioria dos champanhes são resultado da associação de brancas com tintas. Só para completar a informação, quando se faz um espumante só de Chardonnay, adquire o designativo de Blanc de Blancs. A técnica, entretanto, transitou dos espumantes para os vinhos tranquilos, de que são exemplo os três vinhos que sugiro hoje. Quanto ao “quase” atrás referido, é muito difícil que, mesmo com todos os cuidados na prensagem das uvas tintas, o resultado seja um mosto branco citrino. Usa-se depois um carvão descorante que retém o tal excesso de cor, resultando um mosto límpido que parece branco. O método pode ser usado com qualquer casta, mas as que têm mais compostos aromáticos são as que têm mais cor, o que obriga a mais técnica de adega.  Falamos de castas com Tinta Roriz, Touriga Francesa ou Syrah; as que têm menos cor nas películas, Castelão ou Trincadeira, por exemplo, também têm menos compostos e o resultado seria pouco interessante. É o caso em que as bolhas ajudam (e muito) ao resultado final.

Esta prática tem sido habitual entre nós, quer nos espumantes quer nos vinhos tranquilos. Nos espumantes, por exemplo, criou-se mesmo o conceito de Baga Bairrada e os vinhos apresentam-se ou como brancos ou (provavelmente por não terem usado o carvão) com uma leve tonalidade rosada. Quem quiser apostar em brincadeiras de adega, também pode fazer o contrário, ou seja, fermentar um mostro de uvas brancas – Fernão Pires, por exemplo – em contacto com as películas de uvas tintas, como Touriga Nacional ou Alicante Bouschet. Teremos então um Tinto de Brancas.

Em ambos os casos estamos a falar de curiosidades vínicas, criadas para satisfazer um mercado aberto a novidades ou, mesmo, para escoar parte do mosto que não se quer/consegue vender como tinto. Para o consumidor fica a certeza que se lhe servirem o vinho num copo preto é provável que não adivinhe se a base era um tinto ou um branco. São sempre vinhos com um carácter sazonal, muito vocacionados para as petisqueiras de Verão. Se nos focarmos apenas nas bolhas, os champanhes/espumantes Blanc de Noirs são vinhos muito, mas mesmo muito interessantes. E, sem aprofundarmos o assunto, cremos que o gás faz, neste caso, maravilhas. E a prova é que, na região de Champagne, um vinho tranquilo feito com as mesmas uvas não tem qualquer graça. São os mistérios das bolhas…

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta Nova Blanc de Noir Reserva branco 2025

Região: Douro

Produtor: Quinta Nova de Nossa Senhora do Carmo

Casta: Tinta Roriz

Enologia: António Bastos

PVP: €15,50

A fermentação decorre em inox e termina em barrica usada, onde estagia por 6 meses. Os vinhos da gama Reserva têm agora uma nova presentação mais estilizada.

Dica: Aroma reservado, notas vegetais secas, sem evidência da madeira. Bem na boca, bom equilíbrio ácido, tudo pronto para ser consumido agora.

 

Ravasqueira Vinha das Romãs Blanc de Noirs 2025

Região: Reg. Alentejano

Produtor: Ravasqueira

Castas:  Touriga Francesa e Syrah

Enologia: equipa dirigida por David Baverstock

PVP: €20,90

A propriedade (3000 ha) está na família Mello desde 1943. Este vinho, após a fermentação, estagiou em barricas novas. Com o nome de Vinha das Romãs existe também um tinto feito com as mesmas castas.

Dica: muito boa complexidade a que a barrica deu grande ajuda. Rico e com excelente prova de boca, um belo branco de Verão para peixes nobres.

 

Ervideira Invisível Blanc de Noir 2025

Região: Reg. Alentejano

Produtor: Ervideira

Casta: Aragonez

Enologia: Nelson Rolo

PVP: €14,50

Resulta de uma vindima mecânica nocturna. Após 24h de decantação em câmara fria, o mosto fermenta em inox.

Dica: fruta citrina, harmonioso na boca, sempre com acidez a marcar a prova. Servir bem fresco é a regra.

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