E tudo terá começado aqui Parte desta crónica foi escrita em Yerevan, capital da Arménia,…

Brancos em alta? Pois claro
E Murça puxa pelos galões
Todo o sector do vinho reconhece que a procura de brancos por parte dos consumidores não tem cessado de aumentar. Enquanto há 30 anos se plantavam sobretudo vinhas com castas tintas para responder à procura, hoje muitas dessas vinhas foram reconvertidas para a produção de brancos. Esse fenómeno correu o país de lés a lés e zonas, como o Douro, que nunca foram associadas a brancos, avançaram, nos anos 90 com o plantio de novas vinhas e no uso reconvertido de vinhas que até então se destinavam a tintos, para fazer vinhos brancos DOC Douro. Algumas zonas do país sempre estiveram conotadas com vinhos brancos, como a região dos Vinhos Verdes, ainda que, mesmo aí, a produção de vinho tinto fosse, até aos anos 60, superior à dos brancos.
Foi a partir daí que se assistiu à inversão da tendência: cresceram os brancos e diminuíram (e muito) os tintos. As razões para tal mudança, para além das tendências do gosto que se alteram com o tempo, prendem-se também com a melhoria muito significativa no modus operandi de fazer os vinhos brancos: vindimas mais cedo para preservar a frescura dos vinhos, castas mais adequadas e pensadas para a qualidade em detrimento da quantidade, melhores técnicos e melhor tecnologia de vinha e adega. Portugal beneficia da sua geografia, sendo possível fazer bons vinhos brancos em todo ao território. Com 30 anos de “moderna história dos brancos”, algumas zonas acabaram por se destacar: os Verdes, naturalmente, com as suas castas-estrelas, como Alvarinho, Loureiro e Avesso, o Dão com a super-estrela Encruzado, a Beira Interior com a Síria, a Bairrada com as combinações, em duo, de castas como Bical, Maria Gomes e Cercial, o Tejo com a Fernão Pires e Colares com a Malvasia de Colares. Mais recentemente renasceram os brancos do Açores. Acrescem ainda os duetos vitoriosos de Antão Vaz e Arinto no Alentejo.
A par destas regiões conotadas com castas específicas, algumas outras zonas venceram mas na batalha da proliferação de castas, como o Douro e algumas zonas do Alentejo, como Portalegre. Aí ganharam destaque as vinhas velhas com castas misturadas. No caso do Douro, a região de Murça tem procurado evidenciar a enorme qualidade das uvas brancas que ali se produzem e que levam alguns produtores de renome a procurar ali uvas para os seus melhores vinhos. Nasceu assim o projecto Brancos na Praça, em Murça, patrocinado pela câmara Municipal e que juntou, na 4ª edição agora realizada, um número muito elevado de consumidores que além de provar, participar em provas temáticas de grandes vinhos brancos nacionais e estrangeiros, também compraram e petiscaram as delícias locais. As duas provas, com cerca de 40 consumidores, eram de inscrição prévia obrigatória e esgotaram em 10 minutos, o que mostra bem o quão atractivas eram. Mas havia provas de azeite e provas de pairing entre vinhos e um dos doces locais mais emblemáticos, o toucinho do céu.
Outras zonas do país, como o Tejo, têm promovido acções especificas sobre os vinhos brancos mas são precisas mais e deslocalizadas: há que fazer em Portalegre com os brancos da serra, há que fazer na Vidigueira que desde sempre foi famosa pelos seus brancos. Promover os bons vinhos não é agravar o consumo de que já somos campeões, é criar hábitos de consumo que apontem para menos quantidade mas melhor qualidade. Para que de vez que elimine a frase: vamos decilitrar!
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Pequeno Dilema branco 2023
Região: Douro
Produtor: Symington Family Estates
Castas: Arinto, Viosinho, Códega do Larinho, Rabigato e Alvarinho
Enologia: Charles Symington, Pedro Correia e Daniel Toscano
PVP: €20,50
Combina uvas do vale do Rio Torto com outras de Provesende (vinhas em altitude), fermentadas em inox e barrica. O estágio em barricas de 500 litros prolonga-se por 10 meses.
Dica: excelente trabalho de vinha e adega gerou este branco muito equilibrado, polido, macio e com óptima acidez. Um campeão antecipado.
Poças Fora da Série Tinta Roriz tinto 2018
Região: Douro
Produtor: Poças
Casta: Tinta Roriz
Enologia: André Barbosa
PVP: €28
Fora da Série é uma colecção de vinhos que pode incluir tipos e castas não habituais no portefólio da empresa. São sempre edições limitadas. Esta edição já pode ser difícil de encontrar no mercado.
Dica: está, creio, no melhor momento de prova, agora a dar muito prazer a beber, robusto mas com perfeito equilíbrio entre todas as componentes. Caso tenha em casa, aproveite agora.
Churchill’s Vintage Port 2024
Região: Douro
Produtor: Churchill Graham
Castas: misturadas na vinha
Enologia: Ricardo Nunes
PVP: €90
A base deste vintage está nas vinhas velhas da quinta da Gricha (margem sul do rio) mas também inclui uvas do Douro Superior. Pisa a pé em lagares entre 15 e 23 de Setembro. Além deste, também será editado um Quinta da Gricha Vintage 2024.
Dica: toda a elegância dos 24 está expressa neste aroma, fino, delicado na fruta, resultando especialmente atractivo. Excelente balanço entre taninos, corpo e acidez. Com este esqueleto, será vinho para muitos anos.
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