E Murça puxa pelos galões Todo o sector do vinho reconhece que a procura de…

A temer pelo futuro?
Com a ajuda da IA, não com medo dela
Anda tudo mais ou menos em pânico com o que nos reserva o futuro a muito curto prazo, à conta da velocidade a que correm as notícias dos avanços da IA. A verdade é que, no que diz respeito à fileira do vinho, os benefícios podem ser muito mais positivos do que se imagina. Já há muito tempo que o uso de drones se tem revelado uma ferramenta de grande valia, apoiando os produtores em momentos-chave: sobre a maturação das uvas, sobre o mapeamento das parcelas, sobre a pulverização das vinhas. Já há quem fale do uso da IA na vindima, analisando tudo e substituindo até a prova dos bagos.
Para já, é a vindima mecânica e os avanços que as máquinas de vindimar têm tido, que mais interessa aos produtores: libertar mão-de-obra, vindimar durante 24 h (se for caso disso), conseguir fazer chegar as uvas à adega com um espaço de tempo muito reduzido, tudo factores que podem ajudar à qualidade final do vinho. Entre falta de mão-de-obra, gritos do Chega contra os imigrantes e baixo valor das jornas, é provável que mesmo nas zonas mais inóspitas e nas parcelas mais íngremes, não demore muito até que se vulgarize a vindima mecânica. E voltando à IA, estamos tranquilos que ela não regista as nossas memórias vínicas, não regista emoções passadas e presentes. Vamos com calma que nem tudo está perdido.
2. Como sempre acontece em todos os concursos, os produtores premiados ficam todos contentes, o concurso é óptimo, tudo gente séria; os que não tiveram medalha alguma são em geral mais radicais: aquela gente não sabe provar, o concurso é uma vergonha, estão todos vendidos! Com alguma lucidez de análise, percebemos facilmente que nesta dualidade ninguém tem razão. Os provadores são pessoas, a classificação não é dada por IA; os gostos mudam de mesa para mesa e a comparação entre amostras do mesmo flight leva a que, por vezes, vinhos de entrada de gama se destaquem enquanto na mesa ao lado, vinhos de gama média inseridos num flight de alto nível, possam não ter qualquer medalha. Por alguma razão os produtores continuam a concorrer, os resultados podem ser importantes para o negócio e as contas pagam-se com vendas, não com ilusões dos “vinhos da família” ou brincadeiras da “pouca intervenção”. Em geral os vinhos portugueses tiveram um óptimo desempenho com muitas medalhas e, ainda que possa parecer óbvio que se tenha uma Medalha de Grande Ouro por o vinho ter acima de 92 pontos em 100, não é claro que isso possa acontecer num painel de 5 pessoas. No caso do meu júri, em 3 dias de prova, teremos dado não mais que 4 medalhas de Grande Ouro. No concurso de espumantes que decorreu em paralelo com o de brancos e tintos, Portugal concorreu com 51 amostras e arrecadou 20 medalhas, 7 de ouro e 13 de prata, com destaque para a Bairrada. Todos os resultados podem ser consultados em https://results.concoursmondial.com/pt/resultados.
3. No assunto vinho, há sempre alguém à procura da mais recente originalidade, ganhando assim mais projecção das redes sociais. Registe esta: como fazer um pairing entre marijuana e vinho? Pois é, eles andem aí…
4. O jornal New York Times noticia que em Bordéus se bebe cada vez menos…vinhos de Bordéus! Mais foco na Borgonha e em vinhos alternativos parece ser a tendência. Foram muitos anos de exageros e a factura chega agora. Voltaremos ao tema.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Espumante Murganheira vintage 2016
Região: Távora-Varosa
Produtor: Caves da Murganheira
Casta: Pinot Noir
Enologia: Marta Lourenço
PVP: €38
Este é, há vários anos, um dos grandes espumantes portugueses, mostrando a perfeita aptidão da casta para originar vinhos de alta qualidade. A relação qualidade/preço é excelente.
Dica: está a mostrar-se em grande forma, com espuma delicada, aroma muito delicado; tem tudo o que se pede a um bom espumante. E com óptimo preço.
Bela Luz branco 2025
Região: Douro
Produtor: engarrafado por Rocim
Castas: vinhas velhas com castas misturadas
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €29
Tem origem no Cima Corgo, numa parcela com 4,95 ha. Fermentação em cimento e talhas de barro, onde também estagia por 7 meses.
Dica: frescura citrina no aroma, complementada pelo lado mais terroso do barro molhado. Resulta muito bem, com clara vocação gastronómica.
Costa Boal Homenagem rosé 2024
Região: Douro
Produtor: Costa Boal Family Estates
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €37
Fermentação e estágio do vinho em barrica por 6 meses.
Dica: salmonado na cor, aroma de bom recorte com notas de framboesa e morango, tudo muito suave. Requintado e elegante, ganhará com bons copos e pratos de marisco por perto.
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