Vindima à porta, uvas sem comprador O mundo agrícola está virado do avesso. Aquilo que…

A novidade, entre receios e surpresas
Vinho a mais dá nisto
Por dever de ofício, tenho sempre muitos vinhos para provar. E quando digo muitos, é mesmo muitos. É verdade que me tornei benemérito e, entre irmãos, amigos, o senhor do talho, o sr. João do peixe, a senhora a quem com meses de antecedência encomendo o galo de Natal e o senhor dos legumes, todos têm direito a garrafas abertas, às quais apenas falta a pequena parte usada para a prova. A ideia de deitar tudo pelo cano faz-me comichão, acho sempre que mais alguém pode beneficiar do vinho.
É claro que se sentisse reticências das pessoas em receber uma garrafa aberta mudaria de atitude mas vejo que, pelo menos para a geração abaixo da minha (as pessoas acima referidas), o vinho ainda tem uma forte carga de celebração e os comentários que me fazem são disso evidentes: um que foi óptimo com o peixe e outro que marchou devidamente acompanhado de uma salada de orelha de porco. A felicidade está assim bem perto e por tão baixo custo.
O número de marcas novas não pára de aumentar mas isso pode ser resultado de um desespero, mais do que um sinal de crescimento do negócio. Quem sempre vendeu uvas e não tem marca própria (situação a que me referi na crónica anterior) pode, quando não encontra comprador para elas, e em acto de aflição, pensar em criar marca própria. A ideia tem, em si, tanto de generosa como de suicida; o mercado está saturado de marcas, os distribuidores já não querem mais clientes, as garrafeiras, na melhor das hipóteses dizem “deixe aí uma garrafa que logo se vê” e os restaurantes só querem ouvir falar em preços baixos de compra, conseguindo assim boas margens. Quadro mais negro seria difícil. Tudo se agrava quando o produtor procura demonstrar que o seu vinho vem de um “terroir único”, a sua vinha é secular e o vinho tem pouca intervenção, um argumentário que cada vez encontra menos ouvintes.
E, ao provar, temos de ter presente que o vinho que desconhecemos totalmente, tanto pode ser uma incrível descoberta a um preço bem interessante (e não estou a referir-me a preços necessariamente baixos), como pode ser um vinho vulgar que o produtor entendeu dever colocar no mercado a preço de ourivesaria, porque são 500 garrafas, porque foi esmagado à mão em noite de lua cheia (!) ou porque esteve a estagiar no fundo do poço. É verdade que há vinhos caros que em prova cega não se portam lá muito bem mas isso só ocorre quando o vinho em causa já teve muito reconhecimento anterior. Acontece com frequência com vinhos tintos da Borgonha, muito abertos de cor e que um consumidor distraído pode ser levado a pensar que qualquer vinho tinto português de 20 ou 25 euros levaria este tinto à certa.
Só temos é de entender que esse vinho tem aquele preço porque a região, a sub-região, a parcela, o nome do produtor e a casta, são factores bastantes para que haja quem se disponha a pagar mais do que deveria (se tal conceito existe) pelo tal tinto. Concluímos assim que, ainda que infelizmente, para o produtor (e estou a pensar no Douro e no Alentejo) que não consiga vender as uvas, a opção pela criação de marca própria pode revelar-se desastrosa.
E, voltando às provas, se me chega um vinho com PVP, digamos, exagerado, a exigência sobe e a atenção aos pormenores aumenta: a pureza da fruta, a qualidade das madeiras, a integração da madeira com o vinho, a presença perfeita da acidez e o final longo e complexo, tudo tem de ser passado a pente fino. Se no final de tudo ainda “ouvimos” o terroir, então temos um grande vinho! A não ser assim, o consumidor está a ser levado à certa.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Vinha do Altar Reserva branco 2025
Região: Douro
Produtor: Wine & Soul
Castas: Viosinho, Gouveio e Arinto
Enologia: Wine & Soul
PVP: €12
Vinha no Cima Corgo, a 600 m, orientação norte. Fermentação em inox e estágio sobre borras finas durante 8 meses. Produção de 6 202 garrafas.
Dica: com as características citadas e a boa acidez, este branco resulta com um balanço perfeito e será excelente parceiro à mesa.
Adega Coop. Ponte da Barca Reserva branco 2025
Região: Vinho Verde
Produtor: Adega Coop. Ponte da Barca
Casta: Alvarinho
Enologia: José Antas Oliveira
PVP: €9
Insere-se na colecção Naperão (rótulo elucidativo). Origem em vinhas com idade média de 15 anos. Fermenta em inox com leveduras seleccionadas.
Dica: tem, com os seus irmãos de Monção-Melgaço, a mesma frescura, a fruta branca de maçã e pêra, a boa prova de boca, com acidez perfeita e corpo a contento. Será sempre uma boa escolha.
DSF Colecção Privada Domingos Soares Franco 2007
Região: Moscatel de Setúbal Superior
Produtor: José Maria da Fonseca
Casta: Moscatel de Setúbal
Enologia: Domingos Soares Franco
PVP: €35
Este Moscatel usa aguardente francesa de Armagnac, o que lhe confere um perfil especial. Dele foram feitas 8000 garrafas. Tem uma graduação de 17% álcool.
Dica: com quase 20 anos, mostra uma saúde invejável, mastigamos passas de uva, sentimos a enorme frescura, riqueza e complexidade do vinho. Notável (e a bom preço).
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