As provas e as manhas Provar vinhos, ao contrário do que se possa pensar, não…

Visita à Cave dos Segredos
Perdido entre 12 000 garrafas
Foi no final de Junho que voltei onde já tinha sido muito feliz, no caso, a cave histórica das Caves Ferreira, em Gaia. Chamei-lhe cave dos segredos porque este espaço, térreo e sombrio, não está em acesso público e, ao que me dizem, nem é suposto vir a estar. O que é que a cave tem? Tem a garrafeira que Dona Antónia Adelaide Ferreira criou, de 1811 até 1896, acrescida, claro, com as novas colheitas que os descendentes continuaram a guardar. Crê-se que o vinho mais antigo terá sido o 1811 (já inexistente) mas ainda lá consta o 1815 e mais 9 edições do séc. XIX. De uns existem ainda centenas, de outros muito poucas garrafas. Luís Sottomayor, enólogo da Ferreira, que nos guiou a visita, acredita que nunca terá havido um cuidado sistemático de guardar um número justo de garrafas, algo que agora acontece. Conta-nos que “reservamos actualmente 500 garrafas de vintage e LBV; no caso dos LBV só depois de 1990, quando começámos a fazê-los sem filtração, ou seja, à maneira clássica”. Do séc. XX são 36 os anos representados e, para já, 11 anos deste século, onde já está incluído o novel vintage 2024. De alguns anos, poucos, há edições em magnum. As outras empresas da Sogrape – Offley e Sandeman – também têm garrafeiras de vinhos velhos nas suas instalações. Todos os vinhos estão em conta-corrente no IVDP.
A regra de ouro é: aqui ninguém mexe, não há cá casamentos, nem baptizados, nem ricaços que venham à Ferreira e se lembrem que querem levar uma garrafa para Miami ou São Paulo. Daqui só sai uma garrafa que seja, com autorização expressa da administração. Não fosse essa a regra e é sabido que hoje estaria vazia! Este é um património único e que tem que ser tratado com desvelo. Como? Substituindo as rolhas de todas (!) as garrafas, em média de 40 em 40 anos. O processo, a que assisti há umas boas décadas, é delicado mas rápido: começa-se pelas edições mais antigas, todas as garrafas colocadas na vertical por 2 dias, escolha de uma das garrafas que apresente o nível mais alto (e esta, sim, é provada no copo pela equipa), abertura de todas, prova olfactiva sem tirar vinho da garrafa, atesto, se necessário, com a garrafa escolhida e nova rolha (da melhor qualidade e escolhida uma a uma), onde vem a indicação da data do vinho e da data do recork; segue-se uma tarefa altamente delicada que é colocar a nova rolha, sem martelar, numa garrafa que, em alguns casos, tem mais de 200 anos. Como se imagina este trabalho é moroso e envolve muita gente (e uma colaboração especial com a empresa Amorim).
Ali, na cave com chão de terra e ambiente de túmulo egípcio, entra-se à luz da vela ou lâmpadas de poucas velas (percebe-se isso pelas fotos) e foi à luz da vela que se procedeu à abertura de uma destas relíquias, no caso, a de 1917, de que restam 531 garrafas. Pela rolha verificou-se que tinha levado uma nova em 2008. Com todo o cuidado, foi feita a decantação do vinho e, no final das contas, o que provámos foi um Porto absolutamente excepcional, delicado, muito perfumado, com uma complexidade incrível. Ficámos na dúvida se foi um prenúncio das aparições de Fátima (quem sabe, coincidentes com a vindima), ou da Revolução Russa, umas poucas semanas mais tarde! O que verdadeiramente nos deixa sem palavras é pensar que, entre lutas liberais e guerra civil no séc. XIX, queda da monarquia, Estado Novo e 25 de Abril, tudo passou mas a garrafeira continuou impassível. Responsabilidade repartida por todas as pessoas que, ao longo da história, tiverem a noção do que é que significa a palavra património.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Quinta do Convento Reserva branco 2021
Região: Douro
Produtor: Kranemann Estates
Castas: lote de cinco castas tradicionais da região
Enologia: Diogo Lopes
PVP: €22,50
Este produtor é o actual proprietário do Convento de S. Pedro das Águias, cujas origens remontam ao séc. XII e à Ordem de Cister.
Dica: fruta citrina no aroma, acidez muito viva e baixa graduação (11%), são elementos muito ao gosto dos consumidores da nova vaga. Melhor para a mesa.
Cartuxa tinto 2022
Região: Alentejo
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida
Casta: Alicante Bouschet, Trincadeira e Aragonez
Enologia: Pedro Baptista
PVP: €21,99
Tem tudo o que se espera de um tinto alentejano, com notas de musgo, leves balsâmicos, casca de árvore e uma fruta vermelha bem apessoada.
Dica: menos extraído do que em anteriores edições, ganha em aptidão gastronómica, muito polivalente à mesa. Os fãs não ficarão desapontados.
Saturno Reserva branco 2024
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Global Wines
Castas: Viognier, Antão Vaz e Arinto
Enologia: Paulo Prior
PVP: €15
O vinho tem origem na herdade do Monte da Cal em Fronteira. A Viognier tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos no Alentejo.
Dica: com a harmonia de conjunto que apresenta, assente em fruta fresca e um corpo macio, apoiado em boa acidez, é vinho de sucesso garantido.
Comments (0)