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A natureza está a colaborar? Péssimas notícias…

Vindima à porta, uvas sem comprador

O mundo agrícola está virado do avesso. Aquilo que outrora era considerado uma benção divina – uma vindima generosa e com uvas sãs – transformou-se no pior pesadelo para o lavrador que, num mundo inundado de vinho e com stocks exageradamente altos, não vai conseguir encontrar comprador para as suas uvas. A Natureza fez o seu papel: colocou água com abundância no solo durante o Inverno e ninguém se poderia queixar de seca; permitiu uma Primavera amena, sem geadas ou grande acidentes climáticos e um Estio com pouco chuva, o que fez secar a erva e diminuiu a pressão de doenças fúngicas. Ao aproximar da vindima, o que temos: uvas sãs, vinhas com um aspecto espectacular e perspectiva de uma colheita farta, superior à do ano passado, falando-se em 20% a mais no Alentejo, Acores e Madeira com boas perspectivas, Tejo e Lisboa acompanham esta tendência, o Dão a sugerir que haverá uvas excelentes e os Verdes a preverem também um aumento.

Voltando à primeira frase deste texto, a bênção realmente divina seria, pura e simplesmente, não haver uvas para vindimar ou a quantidade ser tão baixa que permitisse escoar os stocks. Como a Natureza se rege por regras próprias, o que vai acontecer este ano prefigura uma situação de catástrofe, nomeadamente no Douro, onde a relação secular entre a produção e comércio está em vias de se quebrar para sempre. A produção de Porto é calculada anualmente e, para tal, é elaborado um Comunicado de Vindima que este ano aponta para a produção de 76 000 pipas (de 550 litros) de Vinho do Porto. Ora, com uma produção que se prevê alta, com stocks muito significativos em casa e com a baixa do consumo do Vinho do Porto (drama que se vem agravando ano após ano), o que vai acontecer é que muito lavrador não vai encontrar comprador para as suas uvas, mesmo nos compradores (sobretudo empresas) que há décadas lhe asseguravam essa compra. Deste modo vai haver uma maior disponibilidade de uvas para DOC Douro e isso, imagina-se, vai fazer baixar ainda mais o preço das uvas. O drama social que se avizinha é tremendo e vai ter reflexos em toda a região.

Sabemos que o enoturismo tem sido rentável e um apoio forte para as empresas e quintas, é muito giro ter turistas que desembocam na região, nice country, beautiful landscape, good wine, mas cabe às instituições e, mais genericamente ao Estado, deixar de assobiar para o lado e adiar sine die a resolução dos problemas da região, desde as taxas (mais pesadas para o Porto do que para o DOC Douro), os incentivos ao crédito, a promoção interna e externa e pondo de lado essa ideia peregrina do uso obrigatório da aguardente duriense para beneficiar os mostos. A legislação básica que molda todo o sistema do Vinho do Porto vem do Estado Novo, uma época em que a maioria da população estava ligada à terra e as empresas não tinham vinhas próprias e dependiam, quase a 100% das compras à lavoura. Esse mundo acabou, mas a legislação não e, em cada ano que passa e em cada vindima, é mais uma cavadela no enterro da região. Hoje os grandes grupos têm quintas próprias e um stock acumulado que não encontra escoamento. E onde é que está a mão-de-obra que a orografia duriense exige? E onde está a facilidade em contratar sazonalmente trabalhadores (tema transversal a todas as regiões) que, inevitavelmente têm de vir de fora, ainda que o partido Chega queira mandar embora os que cá estão?

Olhando para o cartaz deste partido que, com a cara do chefe, anuncia Salvar Portugal, estaria na altura de saber como salva o Douro. Começar por arrancar vinha e oferecer incentivos para isso, poderia ser um começo. Património da Unesco? Nice country, beautiful river… A lengalenga do costume.

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

 

Valle Pradinhos rosé 2025

Região: Trás-os-Montes

Produtor: Maria Antónia Mascarenhas

Castas:  Touriga Nacional e Tinta Roriz

Enologia: Rui Cunha

PVP: €9,50

Vinhas em Macedo de Cavaleiros. Este é um rosé que tem mantido uma enorme consistência de qualidade ano após ano. Premiado com Ouro no Concurso de Bruxelas de 2026.

Dica: salmonado na cor, muito expressivo no aroma, com fruta vermelha muito atractiva. Muito prazer na boca, uma rosé polivalente, desde a esplanada até à mesa.

 

Espumante Aliança Particular Vinha da Rigodeira Brut Nature 2022

Região: Bairrada

Produtor: Aliança Vinhos de Portugal

Castas:  Chardonnay, Pinot Noir e Baga em field blend

Enologia: Francisco Antunes

PVP: €17

O vinho teve 36 meses de estágio em cave. Esta quinta, que inclui várias parcelas muito, muito velhas, foi adquirida pelas Caves Aliança em 2003.

Dica: o vinho não tem açúcar residual (Brut Nature), tem muito boas notas de fruta branca, boa mousse e acidez moderada. Um verdadeiro todo-o-terreno.

 

Concrete Wine Arinto Curtimenta branco 2024

Região: Douro

Produtor: Conceito Vinhos

Casta: Arinto

Enologia: Paulo Amaral/Décio Coutinho

PVP: €20

Vinhas no Douro Superior. Fermentou em depósito de cimento com as películas em contacto com o mosto (curtimenta). Produção: 1300 garrafas.

Dica: dourado na cor, notas terrosas e de barro no aroma, original e atraente. Boa prova de boca, com excelente acidez. Um radical a conhecer.

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