Uma história com 106 anos A história das caves bairradinas começou em finais do séc…

Ah e tal, a complexidade…
As provas e as manhas
Provar vinhos, ao contrário do que se possa pensar, não é atributo de alguns iluminados. Em boa verdade todos os apreciadores são provadores, e a opinião é sempre válida, independentemente do que se sabe e se estudou sobre a matéria. Rapidamente se aprende que, quando não se gosta de um vinho, há que fazer cara séria e afirmar com ar categórico, “este não tem complexidade!”.
Os consumidores provam de uma maneira, os técnicos de outra. Todos somos comentadores, seja de vinhos, cinema, restaurantes, pintura ou literatura. A prova de vinhos, sendo imediata – deste gosto, daquele não gosto e do outro torço o nariz – acaba, com o tempo e o treino, por ganhar outra dimensão. E a razão é simples: ao provar muito e muitas vezes e ao provar ao lado de quem sobre o assunto sabe mais que nós, vamos alimentando a nossa base de dados mental onde arquivamos a informação. Ajuda muito provar, tanto quanto possível, vinhos de castas diferentes, de várias regiões e mesmo de países diferentes. Aprendemos sobre solos, climas, orientações solares, altitude, métodos de fabrico e estágio dos vinhos, valorizamos as virtudes e descobrimos os defeitos. É provável que cheguemos então à mesma conclusão que Jancis Robinson, a grande influencer no Reino Unido quando afirmou que as razões que fazem um grande vinho são três: localização da vinha, localização da vinha e, por último, localização da vinha!
Ora quando essa localização é excepcional, é quase escandaloso que não se consiga fazer um grande vinho. É então dessa localização excepcional que nascem as uvas que fazem o “grande” vinho. E é nessa altura que falamos de complexidade. Vem isto a propósito de uma garrafa que bebi há uma semana, onde o qualificativo se aplica. O vinho em causa era um Domaine Fèvre Chablis Grand Cru Les Preuses 2021, que comprei no importador (Decante). Em Chablis, ao norte da Borgonha, apenas se fazem vinhos brancos de Chardonnay. A região é grande (um pouco menos de 6000 ha) e lá encontramos parcelas identificadas como Prémier Cru (700 ha) e, para o que nos interessa hoje, sete com a designação Grand Cru e que ocupam cerca de 100 ha numa encosta única: Les Clos (a maior parcela e a mais famosa), Vaudésir, Valmur, Blanchot, Bougros, Les Preuses e Grenouilles.
Ao caminhar no meio das parcelas, posso dizer que é difícil para um leigo perceber a distinção entre elas, sendo que localização de cada uma delas, nomeadamente quando à orientação solar e altitude pode fazer a diferença. Aqui, como em múltiplas zonas da Borgonha (de que Chablis oficialmente ainda faz parte), a nossa primeira escolha deve ter em conta o produtor. Em Chablis duas estelas se destacam: François Raveneau e Vincent Dauvissat, com Fèvre na linha imediata. É assim que, ao provar um vinho destes, conseguimos perceber o que significa a palavra complexidade: aroma de fruta madura mas muito reservada, sem exuberâncias, sem presença de notas de madeira, boca com grande volume mas sem pesar, com acidez que parece escondida mas que conserva o vinho num registo fresco, perfeito balanço entre todas as componentes, grande textura e um final longo, longo, longo.
Isto por norma consegue-se com produções baixas por hectare. Aos apreciadores das bombas de fruta este vinho passa ao lado mas para quem já provou muito e de muitas origens, de repente a respiração sustem-se. Estes são os vinhos para falar e para beber. Exclusivo de Chablis? Claro que não! É preciso ir para fora para ter sensações destas? Também não! O que é preciso mesmo é estar atento para que um branco, quando é mesmo grande, não passe despercebido. Dois pormenores deste Chablis: rolha técnica (basta de tanto sofrer…) e preço moderado, cerca de €60.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Catarina branco 2025
Região: Reg. Pen. Setúbal
Produtor: Bacalhôa Vinhos de Portugal
Castas: Fernão Pires, Chardonnay e Arinto
Enologia: João Ramos
PVP: €6,99
O verdadeiro clássico da região, com 45 anos de fama. Uma fórmula ganhadora, com a Chardonnay a fermentar em madeira. Inicialmente eram 10%, agora são 28%, continuando a Fernão Pires a dominar o lote.
Dica: o sucesso deriva da harmonia e do equilíbrio entre todas as componentes. Um branco polivalente e absolutamente consensual.
Villa Alvor Singular tinto 2024
Região: Reg. Algarve
Produtor: Aveleda
Casta: Negra Mole
Enologia: Diogo Campilho
PVP: €12
Esta casta antiga gera sempre vinhos com pouca cor; tem também uma graduação moderada de 12% álcool. Teve estágio em madeira de 8 meses. Deste vinho fizeram-se 5000 garrafas.
Dica: leve aroma a morango, abundantes notas de vegetal seco. Um vinho jovem e descontraído para ser consumido fresco. Bem atractivo.
Giz Vinhas Velhas branco 2023
Região: Bairrada
Produtor: Luís Gomes
Castas: no lote dominam as variedades Maria Gomes e Bical
Enologia: Luís Gomes
PVP: €25
Vinhas em terrenos calcários. Fermentação do mosto em barricas usadas e posterior estágio na madeira por 10 meses. Produção de 3445 garrafas.
Dica: evidencia um lado mineral, sério, reservado. Excelente equilíbrio na boca, resulta muito atractivo, servido por acidez atrevida.
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