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As discussões querem-se eternas

E a idade também conta?

Quando me comecei a interessar pelo assunto vinhos e o ir a provas passou a ser tarefa quase permanente, existiam algumas ideias-feitas sobre a qualidade, a originalidade e a longevidade dos vinhos. No que dizia respeito, por exemplo, aos vinhos do Alentejo, falava-se à boca cheia que os vinhos da planície eram todos para beber novos, que não tinham argumentos para enfrentar a cave. Não seria verdade mas era argumento aceite por muitos, e também pelos produtores de outras regiões, como Bairrada e Dão, naturalmente preocupados em vender os próprios vinhos.

Visto à distância, posso aceitar que havia alguma justificação: no caso dos brancos, as uvas eram colhidas ao mesmo tempo que as tintas e geravam vinhos algo pesados e com falta de frescura; e os tintos, muito marcados pela casta Castelão (então conhecida como Periquita) e Moreto, além, claro da Trincadeira e do Aragonez, eram vinhos que pareciam nascer cansados, a que faltava, dizemos agora, alguma vibração e tensão. Mas a verdade é que o povo gostava e o Alentejo passou a ser sinónimo de “grandes pomadões”, termo que identificava os vinhos de referência. Passados todos estes anos, mais de 40, a verdade é que ainda há quem se refira ao Alentejo num tom menos simpático. Neste grupo incluo muito produtor do Douro que acha (maldito verbo…) que, mesmo bom, só no Douro e, talvez com boa vontade, um ou outro vinhito do Dão ou da Bairrada. O resto…é paisagem.

Como todo o mundo é composto de mudança, ela chegou ao sul com nova indumentária: novas castas, novas adegas, novos produtores, novas técnicas. E, hélas, os vinhos ganharam longevidade. Seguindo o método de discurso do candidato Marques Mendes, pergunto: será que foi tudo feito de novo? E respondo: não foi, e ainda bem! Porquê? Porque conseguimos manter as talhas, porque conseguimos valorizar o património vitícola, conservando os velhos vinhedos onde pontificam castas de que já ninguém fala, muitas delas sem validade individual mas que, em conjunto com outras, induzem um carácter na zona A, que na zona B não é possível. E foi assim que chegámos hoje a um patamar de qualidade, variedade e identidade que obriga, mesmo os mais incrédulos, a aceitar a enorme valia, nomeadamente dos tintos alentejanos. Relembro a excelência da nova edição do Garrafeira dos Sócios tinto 2021 da Coop. Reguengos (abaixo dos €30) ou, ainda mais recente, o novo Cartuxa Reserva 2019 (€50), para mim o melhor de sempre, um tinto fabuloso e com a particularidade de ser feito em quantidade apreciável (75 000 garrafas).

A discussão será sempre deste teor: pode um tinto feito nestas quantidades, comparar-se com outro de 1500 garrafas? Pode sim, ainda que seja uma batalha desigual. O produtor das 1500 em caso algum desdenharia vender 75 000 garrafas a €50 cada. O consumidor bebe e avalia vinhos, não se preocupa com a folha Excel. É verdade também que o produtor que tem uma pequena parcela que produz pouco (ou quase nada), e elas existem na serra de S. Mamede, por exemplo, só tem a ganhar se vender o seu vinho como representante daquela localização específica, daquelas castas e não outras, daquelas barricas e da filosofia que presidiu à feitura do vinho. Discussões à volta do vinho? Pois com certeza, essa é a sua virtude: congrega os melhores e carrega muita história em cada garrafa. Mas exige-se que os preconceitos e ideias-feitas sejam deixadas à porta. É que, em prova cega, muita certeza cai por terra.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Abegoaria dos Frades branco 2024
Região: Alentejo – Granja-Amareleja
Produtor: Abegoaria Wines
Casta: Arinto
Enologia: António Braga
PVP: €8,99
As vinhas estão em Mourão, recebendo a influência da proximidade da barragem do Alqueva. O mosto fermenta em inox e aí permanece em estágio, em contacto com as borras, por cerca de seis meses. Tem apenas 12% álcool.
Dica: Muito boa fruta citrina, com estrutura e alguma complexidade, resulta muito gastronómico e polido; será bom companheiro da mesa.

Ravasqueira Reserva da Família tinto 2023
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Ravasqueira Vinhos
Casta: Touriga Nacional
Enologia: equipa dirigida por David Baverstock
PVP: €14
Uvas bio; estágio 6 meses em barrica. A propriedade fica na zona de Arraiolos e dispõe de enoturismo e uma exposição de atrelados digna de ser visitada. 3500 garrafas pr4oduzidas.
Dica: perfil apontando para pouca extracção e maceração, tornando o vinho muito fácil de gostar desde já, com boa fruta e madeira bem integrada.

Vinha do Norte Matriz tinto 2020
Região: Douro
Produtor: Lobo de Vasconcelos Wines
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz
Enologia: Manuel Lobo
PVP: €38
Este Matriz é editado nos anos em que não se faz Vinha do Norte, que é o topo de gama (€70 a edição de 2019). Produção de 8200 garrafas. Tem 14,5% álcool.
Dica: muito equilíbrio de conjunto, com boa definição de fruta, envolvente, macio e de muito bom porte na boca. Um prazer à mesa.

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