É sempre bom lembrar Desde o 25 de Abril já foram vários os Presidentes a…

Para uma história do espumante em Portugal
Os espumantes portugueses levantaram voo há quase 130 anos. Numa época – finais do séc. XIX – em que o vinho de Champagne já era a grande bebida de celebração e em que os nomes mais sonantes que hoje conhecemos já “ditavam cartas”. Começaram então em Portugal as primeiras experiências: no Douro, na Bairrada e em Lamego, onde nasceu a Raposeira, hoje a maior empresa produtora.
Texto João Paulo Martins, jornalista
Fotos: Raposeira, Caves S. João e Real Companhia Velha
Se pudéssemos recuar no tempo e fossemos, em Lisboa nos finais do séc. XIX, a uma festa galante no Turf, clube de gente fina que se situava no Chiado (onde já havia telefone…!), e nos servissem uma taça de champanhe, não iríamos ter nenhuma decepção. De facto, à época, aquele vinho já tinha as características que lhe conhecemos hoje, e as grandes inovações no fabrico da “bebida das bolhas” já estavam feitas. No Turf circulavam os rapazes “bem-educados”, que ali podiam jogar bridge, bilhar, praticar esgrima e tomar uma refeição no restaurante. Ainda que em final de festa, a monarquia e a aristocracia marcavam o compasso da vida da capital. Na História de Portugal (vol. VI, pp74), dirigida por José Mattoso, ficamos a saber que: “Maneiras, dinheiro e fidalguia, eis como se definia a alta sociedade. A primeira, ao alcance de todos que pudessem educar-se, criava a primeira divisão entre pessoas respeitáveis e os outros. Dinheiro e fidalguia abriam as portas da “sociedade”. Mas era a fidalguia que finalmente dava o toque de distinção. É importante notar como a velha linguagem da “nobreza” se podia aplicar ainda à alta sociedade do fim do séc. XIX”. Viver à sombra da fidalguia era a obsessão das classes médias. Os fidalgos descobriram Cascais como ponto de fuga do verão da cidade e a burguesia foi atrás, construindo “chalés de gosto suíço, à volta dos velhos palácios”, como se relata no livro Memórias (Colaço e Archer).
Se estas eram as “preocupações” citadinas, no campo a vida era menos risonha e os horizontes terminavam no limite da aldeia: só se conheciam familiares e vizinhos, as rixas entre povoados eram constantes, polícia e exército eram frequentemente chamados para dirimir conflitos. A emigração era fenómeno importante: de 1860 a 1890, saíram 400 000 emigrantes. Em 1890, calculava-se entre 150 a 200 000 emigrantes no Brasil. Em termos agrícolas, a vinha já então estava disseminada por todo o país. Vivia-se o período pós-filoxérico e a produção de vinhos de vários tipos continuava importante e assim se manteve durante a primeira década do séc. XX. Bom exemplo disso é a notícia, saída na revista mensal A Vinha Portugueza de 1906 (tomo XXI, pp 80), em que Cincinnato da Costa nos dá conta daquela que nos diz ser “a maior vinha do mundo”, no Poceirão (zona de Palmela) em que a vinha, propriedade de José Maria dos Santos, se estendia por 4000 hectares “n’uma folha seguida”, algo como 8 km de comprimento por 5 km de largura, o que “alimentou uma população rural de mais de 600 famílias, que a pouco e pouco se foi fixando, e ficou vivendo á custa dos lavores successivos que a vinha exige.” A vindima exigia 300 carros puxados a burros para carrego das uvas e os lagares produziam 800 pipas por dia!
A dimensão deste projecto não esconde a crise a nível internacional que à época se vivia como nos dá conta F. d’Almeida e Brito, Director da mesma revista (pp 170/1): “A crise assoberba todos os paizes productores de vinho. As adegas permanecem cheias, o mercado de vinhos sem animação, os preços não se levantam, apesar das aparências da futura colheita”; e mais adiante uma referência intemporal (dizemos nós) sobre as organizações e a qualidade dos vinhos: “Nas reuniões das sociedades de agricultura, nos comicios da lavoura, falla-se muito, chora-se muito, dizem-se coisas bonitas e coisas feias, fazem-se grandes discursos mas…ninguem aponta meios práticos, ninguém dirige aos poderes publicos pedidos capazes de aliviar a crise.” Dramática, mesmo, a referência à qualidade: “Em Portugal não se sabe fazer vinho. Visita-se uma adega, e é raríssimo o tonel perfeitamente são; no fim d’um anno ainda o vinho se conserva bom, mas depois vai-se depreciando e acaba por nada valer. Em fim, o lavrador portuguez não sabe nada de vinificação, e o governo nada o auxilia para se instruir.” Também a forma como o vinho era guardado não ajudava à qualidade. O uso de cubas de alvenaria para guardar vinhos feitos, tem, segundo o autor, mais defeitos que virtudes, “porque o vinho recebe gosto estranho, proveniente dos saes de cal, das pedras, do gesso e do cimento que reveste aquelas depositos. Para evitar este perigo recomenda-se lavar o interior dos depositos com agua acidulada com acido sulfurico a 10%, com acido tartarico em solução concentrada, e correr toda a parte interna com uma solução de silicato de potassa”, lê-se no nº de 1905 da mesma revista. Ainda que o texto diga respeito ao Ribatejo, é de crer que o problema não estaria circunscrito àquela região, mas seria mal extensível a todo o país.
Entretanto, o início da produção de espumantes em Portugal está intimamente relacionado com a fama que em finais do séc. XIX o champanhe tinha adquirido. Sobressai assim, num mundo (português) tecnologicamente atrasado, a produção de espumantes, com técnicos e castas vindas de França, beneficiando do saber entretanto acumulado. Mas…de onde veio tanta fama do champanhe?
O início da produção de espumantes em Portugal está intimamente relacionado com a fama que em finais do séc. XIX o champanhe tinha adquirido. E nessa última década as grandes inovações no fabrico desse tipo de vinho já estavam feitas.
Tudo começou em Champagne. Porquê?
A razão mais frequente que se usa para responder a esta questão tem a ver com o clima. Em Champagne o clima é frio, os invernos são rigorosos e, nessas condições, as fermentações do mosto estavam muitas vezes incompletas e, quando os vinhos eram engarrafados lá iam também as leveduras sobreviventes. Após o inverno frio, as leveduras renasciam na Primavera e completavam a fermentação na garrafa, gerando algum gás carbónico. Essa refermentação natural nas garrafas fez com que os vinhos da região tivessem sempre alguma efervescência. Crê-se que terá sido assim durante 200 anos. A história da França está também muito conectada com a região de Champagne, uma vez que foi na catedral de Reims (o coração da região) que durante 600 anos – de Louis VIII a Charles X – foram coroados os reis franceses. Havia assim, historicamente, uma tradição de oferecer o vinho da região para os momentos de celebração e o vinho local tornou-se bebida de reis e princesas.
Seguindo aqui as informações de Pedro Guedes (Fizziologia – Quântica Editora, 2021), o primeiro documento que refere um vinho efervescente na região de Champagne data de 1718 onde se lê que desde há duas décadas se dava o crescimento do consumo daquele vinho efervescente. Poderemos, assim, situar na última década de séc. XVII as experiências com este tipo de vinho, onde surge e figura de Dom Pérignon. Curiosamente a preocupação deste monge era retirar a efervescência e não alimentá-la. Deve-se a ele e ao frade Pierre, seu colaborador, a criação de um branco de uvas tintas, feito com Pinot Noir (conseguido pelo controle da prensagem das uvas) e a ideia da assemblage, ou seja, a junção de vinhos de parcelas e anos diferentes para fazer o blend. Hoje é uma técnica vulgarizada mas elevada a arte em algumas casas, como a Krug, que, na 173ª edição do seu Grand Cuvée recentemente lançado, usou 150 lotes de vinhos de 13 colheitas diferentes. A técnica da produção de vinhos brancos a partir de uvas tintas continua em uso em todo o mundo onde se produzem espumantes.
Houve experiências anteriores, como os vinhos feitos na abadia de Saint-Hilaire (Limoux-Languedoc), ainda no séc. XVI, em que os vinhos eram engarrafados antes da fermentação alcoólica estar acabada; por essa razão, ao terminar já dentro da garrafa gerava alguma efervescência, que é uma consequência natural da fermentação (qualquer que ela seja). É esse modelo – pétillant naturel (Método Ancestral ou Pet Nat) – que actualmente é seguido por alguns produtores.
A partir de 1728, o rei Luis XV, acabou com a exigência de circulação de vinho exclusivamente em barrica e, assim, as garrafas puderam am viajar sem restrições. Vidro mais resistente e vedantes mais estanques ajudaram muito a que as garrafas não só viajassem bem como também não rebentassem em cave. Se se busca uma data fundadora para o champanhe então é, sem dúvida, 1728.
No ano seguinte surge a Ruinart, a mais antiga casa registada. Em 1743 nasceu a Möet que em 1833 passou a ser Möet & Chandon. O negócio não mais parou e no séc. XIX fundaram-se muitas casas ainda hoje conhecidas e famosas. O novo vinho das bolhas andou nas campanhas de Napoleão e os russos tornaram-se grandes apreciadores e, por via disso e a seguir à Inglaterra, os maiores importadores, na 1ª metade do séc. XIX. Louis Roederer (alsaciano) tornou-se o fornecedor dos Czars e a sua cuvée Cristal, criada em 1870, ficou famosa até hoje.
Pode afirmar-se que a produção em Portugal teve três núcleos: o Douro, com as primeiras experiências da empresa Real Vinícola, na Bairrada onde de desenvolveu o trabalho pioneiro de José Maria Tavares da Silva, e na zona de Lamego, onde surgiu em 1898 a empresa Valle, Filho & Genros – Caves da Raposeira, fundada por José Teixeira Rebello Junior. A família Valle Teixeira continuou ligada à empresa até 1980, quando foi vendida à empresa Seagram (que, entre outras, era proprietária da casa de Vinho do Porto Sandeman e dos destilados Maceira). Foi neste período que se fez o registo mundial da marca Raposeira. No final do século XX, houve um desmembramento da Seagram: a Sandeman foi adquirida pela Sogrape, a Raposeira por Orlando Lourenço e a Macieira vendida a uma empresa espanhola.
Quando nasceu a Raposeira, quase tudo estava inventado. Ou não?
Nos últimos anos do séc. XIX, o champanhe vivia uma época de grande sucesso a nível mundial. Os vinhos tornaram-se um elemento de celebração, característica que mantiveram até à actualidade. E é bom recordar que, nessa altura, o vinho já se assemelhava (e muito) ao que conhecemos hoje. De facto, ao longo do séc. XIX foram introduzidas inovações que desenharam o perfil da bebida. Foi em 1818 que Veuve Clicquot criou as pupitres – estantes de madeira onde as garrafas são introduzidas pelo gargalo – para se poder fazer a remuage (removimento das mesmas) e, assim, empurrar as borras para o topo da garrafa.
Em 1836 foi inventado por um farmacêutico, o medidor de açúcar do mosto, o que permitiu calcular com exactidão a quantidade de açúcar a introduzir para, juntamente com as leveduras, induzir a libertação de gás sem que garrafa explodisse por excesso de pressão, um dos problemas com que as empresas se deparavam. Pasteur, entretanto, descobriu e estudou o papel das leveduras em todo o processo. A forma de fazer o dégorgement e a dosagem do licor de expedição completaram as inovações técnicas. É este licor que se acrescenta na garrafa para completar a pequena quantidade de vinho que sai aquando do dégorgement. Isso vai determinar o grau de doçura: de Bruto Natural (o mais seco) até Doce. Até meados do séc. XIX, o champanhe tinha elevado teor de açúcar. A partir de 1860 algumas casas começaram a fazer vinhos Dry, respondendo assim ao mercado, sobretudo, inglês, que pedia vinhos mais secos. Mas Brut, na actual acepção da palavra, só nasceu em 1874 quando Madame Pommery lançou a grande novidade, um champanhe Bruto. Isso levou a bebida para outros momentos de consumo que não apenas as sobremesas, como até então, e o vinho das bolhas passou a fazer parte da refeição, quer como aperitivo, quer com entradas e peixes, por exemplo.
Com estas inovações o champanhe teve um enorme sucesso e expansão, desde 1840 até ao final de século, quando se criaram as firmas com nomes que chegaram até hoje, desde a Krug, Bollinger ou Roederer, entre muitas outras. A Raposeira nasce neste período.
No séc. XX, duas inovações, que chegaram até aos nossos dias, completaram a forma de produzir champanhe ou espumante: a remuage feita por métodos mecânicos, em giropaletes, processo que elimina a imensa mão-de-obra que o trabalho feito manualmente requeria; e o dégorgement automático sem intervenção humana.
Ainda que as principais inovações tenham sido, como vimos, no séc. XIX, durante o séc. XX houve avanços científicos que ajudaram ao apuro da técnica de produção. O saber sobre o assunto é um work in progress que entra pelo sé. XXI. Por exemplo, ainda não há conclusões definitivas sobre o uso da carica ou de uma rolha com grampo para conservar a garrafa fechada durante o estágio, atendendo à permeabilidade (entrada de oxigénio) de um e outro vedante; a técnica de contagem de leveduras que ajuda à melhor definição da bolha do vinho; o fenómeno da autólise das leveduras – que ocorre quando as células da levedura morrem e as suas próprias enzimas começam a quebrar as estruturas celulares e a libertar compostos aromáticos. Tudo isto se passa sobretudo, quando o estágio em cave se prolonga por vários anos. Por esta razão, as grandes cuvées de champanhe são sempre vinhos com muitos anos de estágio. Continua sem conclusão óbvia a posição de conservação das garrafas, havendo quem defenda que se deveriam conservar ao alto. Para ser eficaz (rolha sem ser molhada pelo vinho), a garrafa nunca poderia ser deitada desde a saída da linha de engarrafamento até ao momento de consumo. Como não é essa a prática habitual de comercialização e conservação das garrafas, a ideia não vingou. Mais recentemente está em “lume brando” uma teoria (à espera de melhores dias…) que defende que a garrafa em estágio poderia estar sempre em pontas – gargalo para baixo – durante todo o tempo de estágio, dispensando assim a remuage. Esperar para ver.
Data também do séc. XX a delimitação de região de Champagne, necessária para evitar as fraudes, com uvas que chegavam à região vindas de todo o lado. A demarcação iniciou-se em 1911 e terminou em 1927. Basta observar o mapa da Appéllation d’Origine Contrôllée (AOC) para se compreender que é mesmo uma “manta de retalhos” e que gerou muita controvérsia entre quem ficou dentro e fora da AOC.
Na Raposeira estão uvas mumificadas, cachos de moscatel que se penduravam no tecto para ficarem em passa e se ofereciam no Natal. Ainda lá estão, com muito pó, talvez há uns 70 anos!
Lamego, Douro e Bairrada
As caves da Raposeira localizam-se em Lamego. A dimensão das instalações impressiona o visitante, que se depara com 8 milhões de garrafas em estágio ali à vista. Mas, também à vista, estão uvas mumificadas, cachos de moscatel que se penduravam no tecto para ficarem em passa e se ofereciam no Natal, envoltos em papel celofane, ao lado das garrafas empalhadas. Ainda lá estão, com muito pó, talvez há uns 70 anos, tendo resistido aos “excessos higiénicos” das autoridades sanitárias.
A zona, estando colada ao Douro, tem com ele uma grande cumplicidade de castas e métodos de produção, havendo assim uma proximidade entre os vinhos produzidos nestas terras altas. Já em 1532, Rui Fernandes, na sua Discrição do terreno ao redor de Lamego duas léguas, nos dá informações essenciais sobre os vinhos na época, na zona de Lamego mas também no Douro. Muitas das castas que hoje falamos já vêm aqui citadas, como bastardo, malvasia, castelão, verdelho, terrantez, donzelinho, samarrinho, mourisco, ferral e felgosão (que creio ser a que hoje chamamos Folgosão). Em torno de Lamego ficam terras de ordens religiosas e conventos, como S. João de Tarouca, da ordem de S. Bernardo, também chamada de Ordem de Cister, presente em Portugal desde o séc. XII, sediada no Mosteiro de Salzedas, ainda hoje visitável. É nesta zona (Ucanha) que hoje se localizam as Caves da Murganheira. Amândio Morais Barros, autor do Prefácio do livro de Rui Fernandes, reafirma o papel do rio desde essa época: “O Douro constituir-se-á essencialmente em torno do vinho. O vinho que, no séc. XVI, é já um produto vital neste sistema económico”.
Quando começou a laborar, a Raposeira assumiu um compromisso de honra que mantém até hoje: dali só saem espumantes feitos pelo método clássico, desde os vinhos de entrada de gama até ao topo. Logo na criação da empresa as castas francesas, Pinot Noir e Chardonnay, marcaram presença. No livro de balanços de 1920, existente na Raposeira, referem-se despesas com uvas compradas e lá encontramos, além de Pinot Noir, “Pinot Branco” – segundo Orlando Lourenço poderia ser então a designação de Chardonnay -, Touriga (sem outra designação), Bastardo e Alicante Bouschet. Mais recentemente outas variedades foram usadas: Tinta Roriz, Touriga Nacional, Pinot Blanc, Sauvignon Blanc, Gewürztraminer e Malvasia Fina. As primeiras uvas vinham da quinta da Recheca e, posteriormente, da quinta de Valprado que hoje ainda fornece 500 toneladas de uva à Raposeira. Outras quintas, como Cepões, Portelo e Passadiço (esta pertencente à família de Orlando Lourenço) são ainda actualmente fornecedoras de uvas. Além das castas francesas, “havia por aqui muita plantação de Bastardo, uma casta com pouca cor que lembrava o Pinot Noir e, no tema leveduras, começou-se por importar de Champagne mas depois já se fazia aqui a reprodução das mesmas”, relembra Lourenço e explica-nos que, da zona de Lamego houve muitos combatentes da 1ª Guerra Mundial que estiveram na região de Champagne e “vieram entusiasmados com aqueles vinhos e alguns ficaram admirados que por lá houvesse vinho, achavam que era só em Portugal!” Hoje são cerca 130 fornecedores (entre eles a família de Luís Montenegro), além da produção própria.
O grande salto em frente da empresa foi dado a seguir ao 25 de Abril, quando entrou na empresa José Gaspar, à data jovem licenciado em agronomia. Foi ele, enquanto Director de Produção, o autor do projecto de expansão da Raposeira, de 500 000 para 2 milhões de garrafas. “Foi um projecto que me deu muito gozo e que eu não podia recusar”, diz. Renovar processos, melhorar a higiene, criar sistemas mecânicos de remuage, assim se conseguiu aumentar a produção. Orlando Lourenço adquiriu a Murganheira em 1984 e, de então para cá, a produção passou de 150 000 para 1 200 000 garrafas, na quase totalidade da variedade Bruto. A Murganheira foi também, segundo o proprietário, a primeira empresa em Portugal a fazer Blanc de Blancs, Blanc de Noirs, Millesimé e Cuvée. Actualmente a enologia das duas empresas está a cargo de Marta Lourenço, sua nora.
Douro
As primeiras experiências de espumantização estão, no caso do Douro, feitas por Tavares da Silva que dirigiu a Estação Anti-filoxérica da Régua até 1888, data da fundação da Real Companhia Vinícola do Norte de Portugal, mais conhecida apenas como Real Vinícola (RV). Esta empresa foi, creio, se não a mais importante, seguramente das mais importantes empresas de vinhos a operar em Portugal até aos anos 60 do séc. XX, com instalações em Leixões, Pinhão e Vila Nova de Gaia, com “colossais armazéns para os vinhos do Porto e para os vinhos de pasto”, como se lê no livro da RV, hoje na posse da Real Companhia Velha (RCV). Foi contratado um técnico francês, “com o fim de nos preparar vinhos que, pelo menos, fossem eguais aos melhores do estrangeiro”. Criaram-se marcas, como Evel e Grandjó, e “na Sauterne só o Chateau Yquem poderá egualar o Grandjó”.
Nessa zona, em Gaia, funciona actualmente a sede da RCV e, num bloco independente, toda a operação de engarrafamento do grupo Fladgate Partnership. À data da criação da RV, assume a Direcção o Visconde de Villar d’Allen, enólogo e proprietário no Douro e considerado “o maior coleccionador português de vinhos velhos”, como se lê no livro da RV. Villar d’Allen transformou em capital os seus vinhos velhos que trouxe para a Companhia; eram vinhos que tinha herdado de firmas a que a família tinha estado ligada: John Allen (pai) com empresa fundada em 1786 e J. M. Rebello Valente (sogro), fundada em 1802. O mesmo fizeram os outros sócios e constituiu-se assim a frasqueira da empresa, muito famosa pela qualidade dos vinhos que incluía. A intenção inicial era que a RV criasse dois outros núcleos no país – Centro e Sul – mas o projecto acabou por não ter continuidade, ainda que tenha chegado a funcionar no Centro, de 1905 a 1916. Ainda que criada como negociante de Vinho do Porto, a RV expandiu o seu negócio aos espumantes e “vinhos de pasto”, com marcas muito fortes como Grandjó e Evel. Para estágio dos espumantes, a RV usou um túnel em Gaia, inicialmente pensado para a linha de comboio Lisboa-Porto, mas o desvio do traçado fez com que fosse alugado à empresa. O técnico francês que veio para Portugal para se encarregar da produção, ficou instalado bem perto da entrada do túnel.
Como nos disse Pedro Silva Reis, CEO da Real Companhia Velha, “chegámos a ter mais de 2 milhões de garrafas a estagiar no túnel; com a construção civil à volta, começou a haver infiltrações e abandonámos o túnel. Hoje serve de local de estágio dos vintages do grupo Fladgate”. A produção de espumantes manteve-se até ao ano 2000, isto já depois da Real Companhia Velha ter adquirido a RV em 1963. As marcas fortes eram Marquês de Soveral e Assis Brasil; não foi possível encontrar a razão deste nome e Silva Reis confirmou que poderia ser uma mera razão comercial, dada a importância da exportação para o Brasil. Entre 2000 e 2011 a RCV não produziu espumantes; a retoma, respondendo à solicitação do mercado, assentou exclusivamente nas castas tradicionais de Champagne, Pinot Noir e Chardonnay. Como os vinhos não são DOC Douro, são espumantizados na Bairrada. As Caves Transmontanas (marca Vértice) são hoje a principal referência dos espumantes do Douro mas novas marcas têm surgido na região.
Bairrada
O trabalho pioneiro de José Maria Tavares da Silva, que começou no Douro, estendeu-se à Bairrada onde, em 1889 e 90 fez a primeira experiência de espumantização, já como Director da Escola Prática de Viticultura e Pomologia da Bairrada; em 1893 é criada a primeira empresa bairradina, a Associação Vinícola da Bairrada, que junta quatro sócios, entre eles Justino Sampaio Alegre (mais tarde criou uma empresa familiar que só em 1956 se passou a chamar Caves do Monte Crasto). Tavares da Silva desliga-se da empresa em 1898, por discordância sobre o caminho a seguir.
A viragem do século e os primeiros anos do séc. XX vêem nascer muitas da empresa e caves bairradinas que chegaram até nós, quase sempre a partir de estruturas familiares, apoiadas por “enotécnicos”, os enólogos de então. Outras desapareceram há muito, como as Caves Lucien Beysecker, cujas antigas instalações pertencem hoje às Caves da Montanha, as caves Bernardo Morais & Companhia, Caves Vipal. Outras encerraram mais recentemente, como as Caves Fundação, Império e Valdarcos. A Academia do Vinho da Bairrada publicou uma obra muito completa sobre as caves da Bairrada, da autoria de António Dias Cardoso.
A supremacia do espumante natural, obtido pela segunda fermentação na garrafa não foi conquista fácil, uma vez que adicionar gás a um vinho já feito (a que agora chamamos espumoso) é muito mais fácil e barato do que fazer espumante pelo método conhecido como “clássico”. O método já teve vários nomes: começou por se usar no rótulo a palavra Champagne (ver rótulo), também já se designou “método champanhês” mas no cumprimento das regras das denominações de origem, nenhuma palavra que lembre “Champagne” pode ser usada. Em Portugal foi o Decreto do Ministério do Comércio e Indústria, de Junho de 1935, que fez a distinção entre Vinhos Espumantes Naturais e Vinhos Gasificados. O texto legislativo, curiosamente, dá como sinónimo as designações Espumante Natural e Espumoso; aos outros fica reservada a designação Vinho Espumoso Gasificado.
Enquanto região, a Bairrada é hoje, a principal zona produtora de espumantes feitos pelo método clássico, representando cerca de 60% da produção nacional. Dos cerca de 7 milhões de garrafas, apenas cerca de 2 milhões têm Denominação de Origem. Algumas marcas clássicas sobreviveram, nomeadamente de algumas caves: S. João, Primavera, Aliança Messias, Solar de São Domingos, Primavera, Montanha. Têm surgido também vários pequenos produtores que animam este mercado, espevitado pela criação da designação Baga-Bairrada. No caso da Raposeira os vinhos também não têm Denominação de Origem porque usam uvas quer do Douro quer da região Távora-Varosa mas Orlando Lourenço é peremptório: “o nome Raposeira ultrapassa a legislação e vale por si!”
(…) da zona de Lamego houve muitos combatentes da 1ª Guerra Mundial que estiveram na região de Champagne e vieram entusiasmados com aqueles vinhos e alguns ficaram admirados que por lá houvesse vinho, achavam que era só em Portugal!
Nota Final:
A vida do champanhe não foi fácil ao longo do séc. XX: 1ª guerra mundial com a consequente destruição de Reims e das vinhas em volta; Lei Seca nos EUA; movimento de temperança e Grande Depressão em nada ajudaram o negócio. Foi em ambiente de retracção que surgiram nos anos 30 do séc. XX as primeiras Cooperativas em Champagne; hoje são cerca de 130. Ainda que, em média, as vendas anuais de Champagne se situem nos 300 milhões de garrafas/ano, de 2022 a 2025 houve uma quebra de vendas de 27 milhões. (JPM)





Comments (0)