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Um festim com duas quintas

E tudo começou há muitos anos

Corriam os anos 70, ainda durante a pasmaceira do marcelismo e, no Douro, um visionário trabalhava na Ramos Pinto. A casa, então quase centenária, dedicava-se exclusivamente à produção de vinhos do Porto. Até aqui nada de novo, uma vez que isso acontecia com quase todas as firmas do sector. Mas José Rosas sonhava com a expansão da empresa para nascente, para o Douro Superior, onde, talvez, fosse possível encontrar uma propriedade de boa dimensão e sem necessidade de fazer grandes movimentações de terras, ou patamares para plantar vinha. Depois de buscas semanais a olhar para mapas militares chegou à quinta que é hoje a Ervamoira. Aí, José Rosas pensou: é isto mesmo que eu quero.

A quinta, então plantada com cereais, tinha donos e os donos não a queriam vender. José, dizemos nós, deverá ter ficado deprimido com a recusa mas foi salvo pelo 25 de Abril: confusão para aqui, instabilidade para ali, empresas do Vinho do Porto a pensarem que fechariam portas ou seriam nacionalizadas e, José Rosas, contra a opinião de muitos, conseguiu comprar a quinta. Cereais não eram o seu tema e por isso alguém lhe chamou “cereal killer” quando acabou com a seara e resolveu plantar vinha. Com a descoberta das gravuras rupestres nas margens do rio, a quinta acabou por ser salva pelo governo de António Guterres que mandou suspender as obras da barragem do Côa que iriam submergir grande parte da propriedade. À época, os graçolas de serviço diziam à boca cheia que era o pessoal da Ramos Pinto que andava a rabiscar as rochas! Mais valia terem apoiado desde o início a paragem das obras…

Lucrámos todos e ficámos com uma quinta que tem hoje 223 ha, dos quais 178 de vinha, toda localizada a baixa altitude. A segunda propriedade, que gerou a marca Duas Quintas, é a dos Bons Ares, que fica nos altos e já em terrenos graníticos. A marca nasceu em 1990, inicialmente tinto, no ano seguinte Reserva tinto, depois veio o branco e, em 2008, Reserva branco. Chegou agora a altura de comemorar 35 anos da marca e a empresa promoveu uma prova vertical destes vinhos. Foram 40 as amostras provadas. Não todos os anos, mas os suficientes para se tirarem algumas conclusões que mais adiante falarei. À data – 1990 – os vinhos não generosos eram, no Douro, uma raridade. Salvo a Sogrape e a Real Companhia Velha (que incluía também a marca Real Vinícola), apenas um ou outro produtor – Constantino, Borges, Quinta do Côtto – e algumas adegas cooperativas colocavam no mercado vinhos brancos e tintos. Foi só a partir de 90 que começaram a nascer, como cogumelos, os produtores-engarrafadores. Estávamos, dizemos hoje, na pré-história dos DOC Douro: sabia-se pouco sobre as castas para DOC (e havia dezenas delas), as adegas não estavam preparadas para fazer outros vinhos que não Porto e quase ninguém tinha prática de lidar com barricas, se deviam ser novas ou usadas, de que madeira, de que capacidade.

A Ramos Pinto foi pioneira e o enólogo João Nicolau de Almeida teve um papel determinante para, com bases científicas, avançar na produção de brancos e tintos. Foi assim uma época de descoberta, uma aventura e tanto “por mares nunca dantes navegados”. Hoje sabemos quase tudo mas as ousadias ainda são possíveis, muitas castas continuam a requerer estudo, as práticas enológicas não estão totalmente tipificadas e o caminho continua livre para os aventureiros.
Após 40 amostras o que é possível reter: os brancos resistem de forma inesperada à cave e os tintos (o que não é propriamente uma surpresa) precisam de tempo em garrafa; o Reserva beneficia com uns bons 10 anos de espera para ser consumido e o normal tem mais graça com cinco anos de vida do que muito novo. Tendo sempre presente que “não há bons vinhos velhos, há apenas boas garrafas de vinhos velhos”, destaco, nos brancos, as colheitas de 2007, 09 e 16; nos Reserva branco as edições de 2009, 11, 14 e 20; tintos normais – estamos a falar de 500 000 garrafas – as colheitas de 2008, 11, 14 e 15. Finalmente nos Reserva tinto – média de 30 000 garrafas – as edições de 2001, 05, 08, 17, 18 e 21.

Vamos lá dar uma espreitada na cave a ver o que há???

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