Conversa em tempo de feiras Estamos a chegar à época das feiras de vinhos. Já…

A questão Principal a recordar
E os designativos que é melhor esquecer…
Um dos vinhos que selecciono hoje – Principal – tem origem na Bairrada, na freguesia de S. Lourenço do Bairro. A empresa – Ideal Drinks – foi propriedade de Carlos Dias, português que fez fortuna na Suíça, na indústria relojoeira. Quando apostou na viticultura adquiriu várias propriedades na Bairrada, Dão e Vinhos Verdes. O gosto pelas castas internacionais levou-o a apostar também nas variedades francesas, quer para vinhos tranquilos, quer para espumantes. Assim se percebe que por ali tanto se ouça falar em Cabernet Sauvignon e em Merlot, mais Pinot Noir e Chardonnay, acrescidas de Touriga Nacional.
Em 2023 Carlos Dias acabou por vender toda aquelas propriedades ao grupo Fladgate, tradicionalmente apostado unicamente em Vinho do Porto. Mas como as tradições são para quebrar, a hora dos vinhos não generosos chegou e tocou alto e bom som. A Fladgate é agora a responsável pela quinta Bella, no Dão, pela Quinta da Pedra, na zona de Monção, onde pontifica a Alvarinho e o Paço de Palmeira, onde domina a casta Loureiro, tendo-se acrescentado uma outra propriedade do Douro, a quinta do Portal. A continuidade do trabalho enológico foi conseguida porque Pascal Chatonnet já era o enólogo da Ideal Drinks e continua esse trabalho actualmente. Os vinhos têm clara influência francesa, começando logo nos espumantes, onde brilha a Pinot Noir e a Chardonnay, as clássicas castas de Champagne, e acabando nos tintos, de inspiração bordalesa. Os espumantes, de altíssimo nível, são comercializados com a marca Colinas.
O que me parece interessante, e aplaudo, é que os ventos pseudo-modernistas não sopram para estes lados: por aqui, e isto é a questão principal, o que deve ter extracção, tem extracção, o que precisa de mais álcool para ter o equilíbrio, tem a graduação devida, a barrica é a que for necessária, tudo em função de um estilo próprio onde não faltam, aqui e ali, alguns fenóis voláteis, tão ao jeito de Bordéus. A oferta de vinhos no mercado é suficientemente ampla para que se possa escolher hoje um tipo, amanhã outro, com perfis completamente diferentes, tudo sem regras, sem obediências a conceitos estanques, sempre com liberdade de escolha. Os vinhos de Cabernet e Merlot, ainda por cima acrescidos de Touriga Nacional, tendem, para que se faça jus às castas, a gerar tintos com muita estrutura, a que a barrica acrescenta valor. Desvirtuar isso, à conta de uma tendência que defende que os vinhos têm de ter sempre o mesmo perfil, seria erro infantil para alegrar incautos. Voltando aos tintos, uma prova recente de várias colheitas mostrou que são vinhos da longa duração, que crescem muito em cave e que deixam sempre um rasto de enorme prazer. Para carpaccios de lombo? Não senhor! Para chanfana e afins? Pois claro! Para leitão à Bairrada? Para muitos sim, para mim prefiro o espumante.
O irónico dos vinhos seleccionados esta semana é que um tem o designativo de Grande Escolha e custa €6,50 e outro é Grande Reserva e aponta para €110. Inevitavelmente surge a dúvida: que valor têm estes designativos de qualidade? Servem para quê? Sem haver uma indexação ao tempo de estágio ou (o que seria um pouco mais radical) ao preço final, os designativos não servem para nada. O consumidor começa a estar cansado de Reservas, Escolhas do Enólogo, Reservas da Família e afins, quando há vinhos destes a menos de €5. O Vinha da Migalha assume-se como tinto de inspiração borgonhesa, é o topo de gama de um produtor cujo portefólio não tem falhas. É o que se chama um valor seguro. Felizmente que ainda os há!
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Casa de Vilacetinho Grande Escolha branco 2024
Região: Vinho Verde
Produtor: Casa de Vilacetinho
Castas: cinco castas regionais
Enologia: José Manuel Antunes /Fernando Moura/António Sousa
PVP: €6,50
Esta casa, outrora pertença de monges beneditinos, está localizada perto do rio Douro, tem marca própria desde os anos 50, época em que eram poucos os produtores-engarrafadores.
Dica: começa agora a aproximar-se do seu melhor: estruturado, sem gás, gordo e com excelente acidez, tudo intensamente gastronómico. Óptimo para o preço.
Principal Grande Reserva tinto 2014
Região: Bairrada
Produtor: Colinas de S. Lourenço
Castas: Cabernet Sauvignon, Touriga Nacional e Merlot
Enologia: Pascal Chatonnet
PVP: €110
Deste tinto fizeram-se 21 000 garrafas. A colheita de 2015 estará disponível em 2027. O vinho passa em média 14 meses em barrica, 30% nova.
Dica: a beber em “petit comité”, com bons copos e temperatura nos 16º. Um tinto longo, muito estruturado e que não nos deixa indiferentes. Com a conta a dividir pelo comité, não fica caro e vale cada euro…
Vinha da Migalha by Palato do Côa tinto 2017
Região: Douro
Produtor: 5 Bagos Soc. Agr.
Castas: Parcela de vinhas velhas com mais de 60 anos
Enologia: Carlos Magalhães/ Paulo Schreck
PVP: €99,50
Fizeram-se 1220 garrafas. Fermenta em barrica e aí estagia por mais 3 anos; acrescem 2 anos em garrafa antes da comercialização. Também existe, do mesmo ano, uma versão em branco.
Dica: é um tinto cheio de carácter, muito polido, rico mas em que domina a elegância, com moderada extracção. Muito prazer na prova de boca, um verdadeiro topo de gama.
Comments (0)