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Alentejo alinha com a Patek Philippe

E acerta o passo com 2031 no horizonte

A frase publicitária da famosa marca de relógios, que diz “nunca somos verdadeiramente donos de um Patek Philippe, apenas nos limitamos a cuidar dele para as gerações seguintes”, aplica-se também às vinhas velhas, um património que se pretende preservar e legar. O conceito, usado e abusado durante muito tempo e com pouco critério, está agora regulamentado no Alentejo. Para isso acaba de ser aprovado unanimemente no Conselho Geral da Comissão Vitivinícola Regional (CVR), onde estão representados todos os operadores da produção e do comércio, uma nova directiva, com a qual se pretende estabelecer regras para três designações, passíveis de surgir nos rótulos das garrafas: Vinhas Velhas, Vinhas Velhas Centenárias e Vinho de Talha.

Sobre a valia dos velhos vinhedos já muito se escreveu e tem-se por certa a ideia que as vinhas velhas geram melhores vinhos. É verdade, mas não é regra, nem uma afirmação que se possa ter por definitiva; é que algumas vinhas velhas são boas mas outras más. O grande exemplo que se dá veio de Bordéus onde, em 1961, nasceu uma das mais míticas safras do séc. XX, de vinhas que vinham entre 3 e 4 anos; em 1956, as geadas dizimaram a quase totalidade das vinhas que, assim, tiveram de ser replantadas; tivemos então vinhos grandiosos de vinhas novas. A estatística, no entanto, não engana e a lista dos mais famosos vinhos do mundo, seja feita por quem for, mostrará que na sua origem estiveram…vinhas velhas! As regras agora são claras no Alentejo: têm direito ao designativo as vinhas, com registo na CVR, que correspondam a um bloco contínuo e em que, pelo menos, 75% das videiras tenham mais de 35 anos; os restantes 25% assume-se que podem ser cepas que substituíram outras, entretanto mortas. Estas vinhas corresponderão a cerca de 4,2% dos 23 277 ha da região, sendo Borba a zona onde existem em maior percentagem. O novo regulamento consagra ainda o conceito de Vinhas Velhas Centenárias, para vinhas com registo anterior a 1931. O documento estabelece de seguida todas as condições para que no rótulo possa surgir a palavra Vinhas Velhas. Relembremos que em Portugal este designativo terá surgido pela primeira vez em 1988. Por outro lado, na região do Douro exige-se a idade de 40 anos para as vinhas poderem ascender àquela categoria.

Também o Vinho de Talha tem agora novas regras que, no caso, passam pelos materiais usados (talhas de barro), métodos de produção e conservação e castas a serem usadas para a produção. No capítulo das castas, este regulamento pode ajudar a que não morram variedades antigas e tradicionais, como as brancas Perrum, Tamarez e Manteúdo e as tintas Moreto, Carignan e Cinsaut. Mais informação para o consumidor e mais justeza na preservação desta prática secular é o que se pretende.

Já o plano estratégico até 2031 vai procurar resolver um problema que se arrasta desde a criação das regiões demarcadas: o facto de nem todo o vinho que o Alentejo produz ter direito a Denominação de Origem (D.O.), algo que penaliza o Alentejo em relação a outras regiões, como o Dão, Douro ou Bairrada. E, quem sabe, à conta das alterações climáticas, foi abandonado (e bem) o limite de 700 m em altitude para um vinho ter direito a D.O. Enoturismo, uso acertado das vantagens da I.A., estratégias de marketing adequadas a uma época de quebra do consumo, o plano agora apresentado é ambicioso. Recorde-se que cerca de metade do vinho que se vende em Portugal é do Alentejo.

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

 

Local Terra Mãe branco 2022

Região: Açores (Pico)

Produtor: Curral Atlantis

Castas: Verdelho, Arinto dos Açores, Boal e Terrantez

Enologia: Paulo Laureano

PVP: €41

Este enólogo foi dos primeiros a iniciar-se na aventura açoriana. Este é um branco de graduação moderada (12,5%) e produção limitada a 665 garrafas.

Dica: dourado na cor, aroma salino, com evidências de barrica. A excelente acidez irá conservá-lo com saúde durante anos. Belíssimo conjunto.

 

Vale D. Maria Vinhas do Sabor Reserva tinto 2023

Região: Douro

Produtor: Aveleda

Castas: Touriga Nacional (70%) e Touriga Francesa

Enologia: Diogo Campilho

PVP: €18

Este é um tinto que faz 20 000 garrafas e tem estágio em barrica de 2ª e 3ª utilização, técnica usada para que os vinhos não fiquem muito marcados pela madeira, o que acontece quando se usa madeira nova.

Dica: maduro, ainda austero e com fruta negra. Muito bem na prova de boca, com volume e taninos finos. Muita qualidade a um preço ajustado.

 

Ramos Pinto Quinta de Ervamoira Porto vintage 2024

Região: Douro

Produtor: Ramos Pinto

Castas: Touriga Nacional (68%), Touriga Francesa, Sousão, Tinta Barroca e Tinto Cão

Enologia: Ana Rosas

PVP: €90

Esta quinta situa-se no Douro Superior. Foi pisado a pé em lagares, mantendo a tradição da região. No ano de 2024 a empresa declarou também o vintage Ramos Pinto.

Dica: aroma soberbo, pela intensidade, pela riqueza. A textura de boca impressiona pelo vigor, associado a uma elegância desarmante. Um grande vintage.

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