Vinho a mais dá nisto Por dever de ofício, tenho sempre muitos vinhos para provar…

Por falar em petróleo…
Às vezes há vinhos assim
Um dos vinhos que selecciono hoje é feito com a casta Riesling, muito típica na Alemanha – sobretudo nas zonas do Reno e Mosela, dois rios que marcam a região – mas também na Alsácia. Entre nós tem pouca representatividade, ainda que exista em quase todas as regiões. A Alsácia é uma zona “tampão” entre a França e a Alemanha, outrora fruto de disputas acesas entre os dois países, hoje é francesa mas são muitas a palavras com sonoridade alemã, logo a começar pelos nomes das vilas, aldeias e parcelas de vinha.
Geologicamente a Alsácia é fruto do caos que há cerca de 35 milhões de anos fez colidir as montanhas do centro da Europa, e dessa colisão nasceu uma região, agora entre os Vosges e a Floresta Negra, com um mosaico incrível de solos que podem variar quase metro a metro, parcela a parcela. É assim que se percebe a proliferação de vinhedos classificados com Grand Cru; à primeira vista parece um exagero, uma vez que são 51 as parcelas classificadas. A região sempre privilegiou os vinhos de casta e, assim, com muito raras excepções, só as variedades Riesling, Gewürztraminer, Pinot Gris e Muscat têm acesso àquele patamar de excelência. Infelizmente para os produtores, a região está conotada com vinhos baratos e isso não cria valor.
Por esta razão é no mercado externo que muitos deles apostam. Na Alsácia, os Riesling resultam sempre com mais álcool do que no Mosela, são mais secos e, claramente, apontam para a mesa. Já na Alemanha (Mosela), faz-se com a mesma casta um vinho totalmente diferente: aqui falamos de um branco de muito baixa graduação alcoólica – vulgarmente entre os 8 e 9,5% de álcool – com uma acidez altíssima e, para a compensar, algum açúcar residual. Isto torna os vinhos mais apetecíveis fora da refeição, vulgarmente bebidos a solo, sem qualquer acompanhamento. Na região do Mosela, nome que até 2007 surgia grafado com os outros dois rios da região – Saar e Ruwer – é conhecida hoje apenas por Mosel, sendo que as outras duas zonas também produzem vinhos de excelente qualidade.
O trajecto sinuoso do rio, que frequentemente nos faz perder a noção do Norte e Sul, tem uma orografia variada: nas encostas íngremes viradas a sul é possível obter grandes vinhos, enquanto, por exemplo, na outra margem do rio e mesmo em frente, uma zona plana apenas produz vinhos abaixo de vulgares. Isto tudo à distância de uma centena de metros. Aqui manda o sol e, claro, a inclinação da parcela. A altíssima acidez e a doçura residual geram vinhos de enorme longevidade. infelizmente eles não existem nas caves porque, no final da 2ª Guerra Mundial, os vencedores “atacaram” as caves alemãs e não ficou nada para mostrar!
A casta precisa sempre de tempo em garrafa e por isso é de 2021 o vinho que hoje trago. Não substitui a prova de um grande branco alemão nem de um Grand Cru da Alsácia, mas já nos mostra aquele lado apetrolado e de querosene que tão apreciado é, quando se fala desta casta. É sempre possível, sobretudo nos grandes aeroportos franceses ou alemães, adquirir estes vinhos. No caso alemão, mesmo que não se conheça a marca ou o produtor, o símbolo VDP (Verband Deutscher Prädikatsweingüter) aposto na gargantilha e com a imagem da águia de asas abertas, identifica o produtor como um dos 200 que pertencem a esta organização que junta os mais famosos produtores alemães.
Nunca me saí mal com a escolha. Os vinhos do Reno são bem diferentes, tudo a confirmar que a mesma casta, neste caso a Riesling, tem comportamento diferente conforme o local. Lá está, sempre o local a ditar as suas leis.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Rocim Vinho de Talha tinto 2025
Região: Alentejo Vidigueira
Produtor: Rocim
Castas: Tinta Grossa, Alfrocheiro e Moreto
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €41,90
Fermentado e estagiado em barro, é um vinho que remete para as ancestrais técnicas de produção, usando também as castas tradicionais para este tipo de vinho. É o herdeiro do anterior Rocim Clay Aged.
Dica: um tinto que surpreende, texturado, com volume mas também com delicadeza aromática. Uma homenagem aos vinhos de outrora.
Casa Cadaval Riesling branco 2021
Região: Reg. Tejo
Produtor: Casa Cadaval
Casta: Riesling
Enologia: Pedro Sereno
PVP: €20
A ligação familiar à região do Reno, justifica a preferência por esta casta, que sempre precisa de tempo em garrafa para se mostrar no seu melhor. Desta forma, cinco anos é, digamos, o mínimo que se deve esperar por ela. Graduação moderada de 12%, ainda assim bem acima das suas congéneres alemãs. Está agora no seu melhor momento.
Dica: leves e excelentes notas apetroladas no aroma, muito boa frescura de boca, um branco diferente, cheio de personalidade.
Quinta do Cume Touriga Nacional tinto 2022
Região: Douro
Produtor: Quinta do Cume
Casta: Touriga Nacional
Enologia: Jean-Hughes Gros/Frederico Cudell Tenreiro
PVP: €32
Tem origem em Provesende, é feio em inox e estagiou um ano em barrica. Foram feitas 4800 garrafas.
Dica: bem perfumado, fino e elegante no aroma, tem muito boa prova de boca, com a barrica muito bem integrada. Aposta segura.
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