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Com o sol a despontar

Está na hora de fazer planos

É verdade. Passado o tal comboio de tempestades, já chegaram alguns dias de excelente temperatura, a convidar a alguns almoços no exterior, desde que não se prolonguem muito tarde dentro porque, quando o sol se vai, fica uma temperatura menos agradável. De qualquer maneira, é sinal que alguns vinhos têm agora mais espaço nas escolhas. Começa então a ser tempo dos brancos mais leves, dos espumantes refrescantes e dos rosés.

Pegando no assunto rosé, verificamos que são muitos os produtores que lhe dão atenção, mas não é seguro que se venda na mesma proporção. Há uma explicação técnica para isso mas há também uma deficiente análise do mercado. Vejamos: muitos produtores queixam-se que é difícil vender vinhos brancos de entrada de gama, ou mesmo gama média, que não sejam da colheita mais recente. Na restauração, os clientes só se interessam pela novidade, parece (de acordo com as queixas que me chegaram) que torcem o nariz a brancos com alguns anos de vida. Ora, se isto se passa com os brancos, imagine-se com os rosés, vinhos estivais por excelência, que toda a gente gosta quando o calor aperta e a esplanada nos chama.

Seguindo esta ideia, por esta altura (Março), já os rosés de 2025 deveriam estar em fase de engarrafamento e a encaminhar-se para a distribuição e, por via dela, para a restauração. Duvido muito que seja o que se passa nestes dias. É que continuam a chegar-me para provas vinhos rosés de 2023, 24 e até de 2021 (como a escolha de hoje). É caso para perguntar: mas quem (fora os winefreaks) vai comprar estes vinhos rosados? É verdade que há rosés que duram bem uns anos mas esses são vinhos que têm de ser bem explicados. Lembro-me de um produtor da Rioja – López de Heredia – que vende rosés com 10 anos e são mesmo muito bons. Para durarem assim tanto, os rosés requerem uma forma própria de produção, estágios em barrica e muita paciência, tudo factores que encarecem o produto. Aqui tocamos noutro ponto-chave: qual é o consumidor que, sem uma explicação e prova convincentes, se dispõe a dar 30 ou 40 euros por um rosé?

As boas práticas aconselham que o produtor tenha um rosé “de combate”, fresco, jovem, e a sair agora entre Março e Junho e, eventualmente, um outro, mais cuidado, em quantidade reduzida e mais oneroso, que poderá sair mais tarde, destinando-se a consumidores mais esclarecidos. Parece, no entanto, que isto não acontece, não porque o produtor não queira que assim seja, mas porque a colheita anterior ainda não se vendeu toda e o distribuidor só aceita a nova edição quando a anterior se esgotar.

E, podemos perguntar, se só se esgotar em Outubro? É nessa altura que vamos a correr para a esplanada? Ou vamos usar o rosé para acompanhar as castanhas? Este é um problema recorrente, uma espécie de pescadinha de rabo na boca: devia-se vender novo, mas “o mercado” não deixa! Há sempre o recurso a SALDOS – LIQUIDAÇÃO TOTAL – não por mudança de ramo, mas por necessidade imperiosa de colocar a nova colheita no mercado, vendendo os restos da anterior, ao desbarato. E a produção nacional já é bem significativa e, só no Alentejo, haverá (não há números exactos) perto de 500 rótulos de rosé. Outras regiões estão na mesma onda. Longe vão os tempos em que o rosé era chato, com açúcar e sem graça.

Lembro-me bem do primeiro rosé seco que a Sogrape lançou na Bairrada e que, nos anos 90, fez furor, pela novidade. De então para cá tem sido sempre em crescendo. Mas temos de fazer mais por ele, surfando a onda dos vinhos mais leves, ligeiros e com menos álcool. Bora lá!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta da Romeyra Espumante Arinto Bruto 2023
Região: Bucelas
Produtor: Sogrape Vinhos
Casta: Arinto
Enologia: equipa de enologia da Sogrape
PVP: €11,50
Nesta região, onde só os brancos têm direito à Denominação de Origem, sobressai a Arinto, casta ubíqua que ali nasceu e se espalhou por todo o país. 30 000 garrafas produzidas.
Dica: Muito apelativo na fruta, com excelente acidez, envolvente na boca, pronto para a mesa, onde irá brilhar. Muito bem para o preço.

Dalva Metamorfose rosé 2021
Região: Douro
Produtor: Granvinhos
Casta: Tinta Roriz
Enologia: José Manuel Sousa Soares
PVP: €35
Fermentou e estagiou numa única barrica durante 3 anos e meio. Graduação muito ajustada de 11,5% de álcool. Produção limitada a 465 garrafas.
Dica: leve na fruta, bom perfil mineral, muito austero no palato, com um toque amargo. Um rosé muito diferente, a pedir consumo à mesa.

Grande Rocim Reserva tinto 2024
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Herdade do Rocim
Casta: Alicante Bouschet
Enologia: Catarina Vieira/Pedro Ribeiro
PVP: €80
Tem origem numa única parcela de 1,8 ha. É assumidamente o topo de gama da empresa, um tinto varietal só editado nos anos especiais. 16 meses estágio em barrica.
Dica: boa expressão da casta, com tudo o que tem de rústico (notas de musgo e azeitonas) mas depois com um polimento final que resulta muito bem. Intensamente gastronómico.

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