Começar um projecto de vinhos é sempre muito oneroso e dá muitas dores de cabeça.…
A crónica que não queria escrever
O João partiu sem avisar
“Este vinho é uma categoria!”. Quando o João Canijo afirmava isto, já sabíamos que o vinho o tinha impressionado e seria mais um candidato à sua lista dos melhores do ano. Ele adorava fazer as listas e enviava-me sempre o ranking dos melhores, no assunto vinhos e no tema restaurantes. A de 2025 chegou-me logo no início de Janeiro. No ranking eram atribuídas classificações (nos vinhos) e estrelas (nos restaurantes). O gosto que tinha pela comida levou-o a dizer numa entrevista que o seu hobby, quando não estava trabalhar era ir a restaurantes. Por isso foi de propósito ao Peru para conhecer in loco os grandes chefes que despontavam como Gastón Acurio, mas também ao México e ao norte de Suécia, para conhecer a culinária de Magnus Nilsson, no restaurante Fäviken; ainda que em localização remota, este restaurante era famoso por mudar o menu quando mudava a estação do ano e era um tremando sucesso. João Canijo foi lá três vezes em três estações do ano e falhou a quarta… porque o restaurante fechou. Gostava imenso de cozinhar, tinha uma boa biblioteca sobre o tema e tive a felicidade de eu próprio ter ganho, sob a forma de prenda de anos, muita e diversificada literatura, alguma desconhecida dos gastrónomos portugueses. O meu primeiro contacto com ele foi, de resto à volta o fogão quando estava, em casa do produtor Paulo Branco a fazer as melhores perdizes à Convento de Alcântara que provei na vida (e já comi por várias vezes). O que é mais irónico (e me aperta o coração) é que ele morreu em frente ao fogão quando estava a cozinhar o prato que iria servir no dia seguinte no almoço que tínhamos combinado em sua casa. Seríamos três, eu já tinha preparado os vinhos para levar e já me tinha dito que seriam bochechas de vaca com puré, um prato que ele fazia com alguma regularidade e que gostava de dizer “este já me sai especialmente bem”, tal como afirmava o mesmo em relação a um prato indiano de que gostava muito, o balchão, e que me ofereceu uma caixa que lhe tinha sobrado, apenas 4 dias antes de morrer.
No seu refúgio em Vila Viçosa vivia em espaço amplo com as duas cadelas que lhe faziam companhia, “as meninas”, e para quem cozinhava com grande empenho; também chegou a pensar se não seria caso de plantar uma pequena vinha numa parte da quinta mas em boa hora desistiu face ao orçamento que lhe apresentaram. Lá passei muitos fins de semana, muito cinema se discutiu mas também era assunto a qualidade das laranjas (das muitas que tinha) ou do azeite que fazia das poucas oliveiras da quinta. No assunto dos vinhos, o seu gosto era exigente e apreciava os tintos com pelo menos 10 anos. Era grande fã dos vinhos do Dão, especialmente de Álvaro Castro e quinta da Passarella e tinha-se apaixonado pelo Gauvé, uma marca do grupo MOB. No topo da lista dos seus melhores de 2025 (e por região) lá estão: Torre 19 (Ans. Mendes), Urtiga 18, Pellada Primus 2010, Quinta da Vacariça Garrafeira 09, Enxarrama 14, Vinha do Utras 22 (Pico) e, nos vinhos do Porto, Fonseca Guimaraens vintage 1976 e o Kopke Colheita branco 1935. Em todas as situações gastronómicas sacava sempre do seu bloco onde tomava nota de tudo e onde voltava quando tinha dúvidas.
Partilhámos experiências, compras em conjunto de vinhos de fora, provas cegas e brincadeiras com vinhos velhos. De Vila Viçosa vinha de propósito a Lisboa para comer mão de vaca com grão e já tínhamos marcado o dia para a jornada anual de lampreia. De riso fácil e muito conversador, sempre a acabar um filme e a preparar outro, era um companheirão, um dos meus companheiros da vida que agora se foi sem avisar. Eu nunca quis admitir mas este desfecho era previsível, uma vez que o João pertencia àquele grupo de pessoas que não cuidam da saúde nem vão ao médico, “não vá ele dizer que eu tenho algum problema”. Tinha, mas creio que ele preferiu assim. Ficam muitas e boas memórias, foram muitos anos de partilha e amizade. Até já, João.

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