O João partiu sem avisar “Este vinho é uma categoria!”. Quando o João Canijo afirmava…
Quase custa a crer, mas é verdade!
Ainda há surpresas, e das boas
A história passou-se na quinta da família Pereira de Melo, cujo vinho, Primado, selecciono hoje. Já no ano passado fiz referência e este produtor beirão que aposta nas castas regionais para afirmar as características do lugar. As vinhas podem estar meio escondidas mas nesta quinta faz-se sentir aqui a influência da barragem da Agueira que não fica longe. Os projectos pequenos geram muitas dores de cabeça: não têm dimensão para serem rentáveis, para terem distribuidores, para estarem em muitos pontos de venda, terem equipa técnica alargada, contratar agências de comunicação, etc, etc.
Tudo é mais difícil mas tudo é possível, desde que se consiga ter a folha Excel com saldo positivo. Já se sabe que para ganhar uma pequena fortuna nos vinhos é preciso começar com uma grande fortuna mas, curiosamente, continua a haver quem se queira aventurar em projectos pequenos, sugerindo que o vinho continua a exercer um enorme fascínio que enfeitiça muita gente. Na quinta do Primado, Manuel Pereira de Melo deu-me a provar alguns vinhos muito antigos, descobertos por acaso num armário de uma propriedade de um amigo, vinhos brancos da região, bem velhos, de 1912 até 1936. A Primeira República em polvorosa e o pessoal do Dão a engarrafar vinhos que chegaram até hoje.
Segundo o produtor até hoje todas as garrafas abertas (12, 15, 17, 23, 26, 27, 36, 37) estavam com saúde. Na altura provei o 1917 e há pouco mais de uma semana, o 1936. Estavam vivos (o que poderá ser o mais surpreendente) e davam prazer a beber (o que é o mais inesperado). Um montão de dúvidas nos assaltam: como foi possível viverem tanto tempo? Será porque as garrafas estavam ao alto? Será porque eram brancos e a elevada acidez os segurou sem gerar muitas oxidações? Será pela forma como foram feitos? Resultarão de castas misturadas (o mais provável), serão todas brancas, haverá no meio uvas de mesa, sabidamente pouco interessantes para fazer vinho mas, em tempos, usadas para aumentar o volume? Serão provavelmente dúvidas eternas sem resposta mas a verdade é que, apesar das tonalidades laranja, dos aromas aparentemente mais caídos, eram vinhos com enorme presença na boca, daqueles que deveriam ser servidos em copos pretos para evitar que se fique condicionado pela cor. Uma experiência e tanto, a mostrar que os brancos têm com frequência muito mais capacidade para resistir à cave do que os tintos. Isso ficou também cabalmente demonstrado no mesmo momento de prova do 36, em que um Garrafeira Aliança de 1948 se revelou citrino e cheio de vida, um Francisco Ribeiro Fernão Pires de 1978 mostrou muita saúde e um Rigodeira 1987 deixou todos sem palavras.
De provas destas é fácil tirar conclusões: os brancos são vinhos aptos à cave, cada vez há mais brancos que beneficiam com alguns anos de garrafeira antes do consumo e tendem a gerar menos desgostos do que os tintos. Parece inverosímil, mas é verdade. Mas há aqui trabalho de sommelerie a fazer, porque é preciso ajudar o cliente do restaurante a não torcer o nariz porque o branco “já não é da última colheita”, e sugerir um paring que realce as qualidades dos brancos com mais idade. E, apesar do meu gosto por vinhos velhos, não me recordo de ter provado tintos tão velhos e com saúde, como estes brancos. Andava em Lisboa, nos idos de17, tudo aos gritos do Viva a República e Morte à República e no Dão, longe da confusão, faziam-se vinhos assim. Ámen.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Poças Fora da Série tinto 2022
Região: Douro
Produtor: Manoel Poças Júnior
Casta: Alicante Bouschet
Enologia: André Barbosa
PVP: €28
A colecção Fora da Série, iniciada em 2019, inclui vários vinhos experimentais, ensaios de castas ou métodos enológicos, sempre em edições limitadas. Neste caso foram 1800 garrafas. Moderada graduação de 12% de álcool.
Dica: a originalidade aqui decorre do facto desta casta ser conotada com vinhos densos, alcoólicos e também o facto de ter poucos representantes no Douro. Muito vegetal seco, musgo, leve nota de azeitona. Fino e com óptima acidez, taninos presentes. É uma nova interpretação da casta.
Primado Family Edition Encruzado branco 20124
Região: Dão
Produtor: Manuel Pereira de Melo
Casta: Encruzado
Enologia: Patrícia Santos
PVP: €75
Este é um projecto familiar. A propriedade fica em Santa Comba Dão, em terrenos graníticos e arenosos. O mosto fermentou em barrica, onde permaneceu por 9 meses. Edição Limitada de 570 garrafas.
Dica: perfeito balanço entre fruta e madeira, acidez fina, notável equilíbrio. Será mais bem apreciado bebido a 12º. Em copos largos e sem pressas.
Casa Ferreirinha Callabriga tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Sogrape Vinhos
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz
Enologia: equipa dirigida por Luís Sottomayor
PVP: €19
Em cada nova edição este tinto tem vindo a ganhar mais elegância de aroma, mais frescura de fruta e corpo mais ligeiro. Nesse sentido está mais de acordo com o sentido do gosto actual.
Dica: o tinto ganhou em carácter gastronómico o que poderá ter perdido em apetência pela cave. Muito bom para provar agora.
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