Invernosos uns, ligeiros outros
E o tinto que virou cão
Na quinta feira da semana passada, cumpriram os franceses uma tradição que lhes diz muito: o lançamento, sempre na 3ª quinta-feira de Novembro, do Beaujolais Nouveau, o vinho da colheita deste ano, o tinto que é para beber jovem, preferencialmente até à Primavera de 2026. Como manda a tradição, daqui até ao fim do ano, muitos milhões de garrafas “voarão”, presentes em tudo quanto é bistrot. Este modelo de vinho teve em tempos alguns seguidores por cá que lançaram, por exemplo, o Dão Novo mas a moda não pegou.
Acho que foi pena porque era um excelente companheiro para as castanhas, o produto emblemático desta época. O Beaujolais – feito com a casta Gamay – é sempre um motivo de festa, ainda que com uma enorme “contradição interna”: é para ser consumido no Inverno mas com perfil estival, ligeiro na cor, leve na concentração e no corpo, muito aromático em resultado da técnica enológica empregue, é o verdadeiro vinho glu-glu. Enquanto noutros tempos os enófilos mais tradicionalistas entendiam que o Beaujolais não era coisa séria com que se devessem preocupar, agora, que agulha da moda mudou, este tipo de vinho está completamente in, alegrando a fileira dos que acham que agora tudo tem de ter pouca cor, pouco álcool e estrutura pelos mínimos. Coisas das modas!
Curiosamente um dos vinhos que sugiro hoje, da empresa familiar Vieira de Sousa, é feito com a casta Tinto Cão que, não tendo nada a ver com o Beaujolais, tem aqui e ali pontos de contacto. É uma casta mais presente no Douro do que noutras regiões e sempre foi uma variedade algo escondida e pouco mencionada. Sabia-se que tinha uma característica que a apontava para integrar o lote de um Porto Vintage: a sua lenta oxidação, facto importante num vinho a que se pede uma longa estadia em garrafa. O seu valor levou a que fosse integrada nas castas a plantar, aquando das renovações das vinhas levadas a cabo com o patrocínio do Banco Mundial. Estávamos nos anos 80 e as cinco castas escolhidas tinham um único objectivo: fazer Vinho do Porto. Foi então que, entre decisões acertadas e muitos erros, se conheceu um incrível incremento de vinhas no Douro, recorrendo à grande novidade da época, as vinhas ao alto. Foi quando os produtores se começaram a interessar mais pelos DOC Douro, nos princípios de 90, que se percebeu que, para fazer vinhos DOC, algumas das escolhidas eram boas e outras nem tanto. Houve uma que deixou de ser interessante, a Tinta Barroca, e outra que ficou “em banho Maria”, a Tinto Cão.
Lembro-me de ter provado, na casa Ramos Pinto, um varietal desta casta, da colheita de 1981, que o enólogo João Nicolau de Almeida exibia como troféu, ainda antes de nascer o Duas Quintas. A casta, sem os argumentos demolidores e eucaliptais (secam tudo à volta…) da Touriga Nacional e da Touriga Francesa, é uma variedade com que se consegue fazer um vinho fino, leve e pouco encorpado (é o caso da sugestão de hoje) mas que também permite, com mais maceração e mais extracção, fazer um vinho com mais estrutura. Creio que é com estas castas polivalentes, que os enólogos gostam de trabalhar. A verdade é que se contam pelos dedos os produtores que a têm abordado e, os que lidam com ela, têm apontado sobretudo para rosés ou para vinhos que poderíamos apelidar de experimentais, feitos em quantidade pequenas, como Alves de Sousa, Costa Boal, Vallado, Quinta do Noval, Real Companhia Velha e Casa da Passarella.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Esporão Reserva branco 2024
Região: Alentejo
Produtor: Esporão
Castas: Antão Vaz, Arinto e Roupeiro
Enologia: equipa dirigida por José Luís Moreira da Silva
PVP: €18,80
Este é um verdadeiro clássico já com décadas de história. As vinhas estão em modo de produção bio. Cerca de 25% do mosto fermentou em barrica. O estágio posterior decorreu em inox e barrica.
Dica: mantém o perfil a que nos habituou mas desta vez um pouco mais invernoso por via da maior presença da madeira, resultando com um pouco mais de peso. O frio natalício agradece.
Vieira de Sousa tinto 2024
Região: Douro
Produtor: Vieira de Sousa
Casta: Tinto Cão
Enologia: Luísa Vieira de Sousa
PVP: €20
Esta família, com antiga ligação à região, tem também uma gama diversificada de vinhos do Porto. Neste tinto foram 1412 as garrafas produzidas.
Dica: aberto na cor, aroma vivo com notas de lagar, de fruta vermelha e esteva. Macio na boca, leve no corpo, sente-se alguma doçura que facilita a prova. Para beber novo.
Touriga Nacional da Malhadinha tinto 2023
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herd. da Malhadinha Nova
Casta: Touriga Nacional
Enologia: Nuno Gonzalez/Luís Duarte
PVP: €35
Vinho bio, fermentação em lagar e estágio de um ano em barrica. Este tinto integra uma colecção alargada de tintos, muitos deles varietais. Tem 15% de álcool.
Dica: de médio porte, bem no aroma com fruta madura de recorte doce. Resulta pronto a ser consumido, envolvente, macio, bem conseguido.
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