O João partiu sem avisar “Este vinho é uma categoria!”. Quando o João Canijo afirmava…
Variações com Champagne (e não só)
E uma surpresa alentejana
Com alguma frequência falamos a qui de champanhes (aqui aportuguesando a palavra) nascidos lá, no sítio certo, em Champagne. Por gosto pessoal mas também porque se vende em Portugal muito “vinho com bolhas”, como dizemos na gíria. A zona francesa responsável pela produção – Champagne – é terra de gente rica: são ricos os que produzem apenas uvas (pagas a €5, e mais, o quilo) e ricos também os que as transformam numa bebida de sucesso mundial. Nada, portanto, comparável com o que se passa na maioria das regiões portuguesas. Provavelmente, e sem falar nas regiões de nicho, apenas a zona de Monção e Melgaço se destaca, pagando as uvas a preço acima de €1/€1,50 por quilo e com boas produções por hectare. Vamos então falar de champanhe e sugiro hoje um Blanc de Blanc, querendo isso dizer que é exclusivamente feito com uvas brancas (Chardonnay). Relembremos que o mais comum é, na região, o vinho resultar de um lote de vinhos brancos e tintos.
Em Champagne existem hierarquias de qualidade, como Grand Cru (a categoria mais elevada) e Premier Cru, com muitos predicados mas num segundo nível. É a zona (parcela ou conjunto de parcelas) que se considera para a classificação e não uma propriedade em particular. Tudo, por isso, ao contrário de Bordéus, onde o que se classifica como Cru Classée é a propriedade (château) independentemente das variações parcelares que possam existir dentro do château. Veja-se o exemplo seguinte: Pauillac é uma região demarcada, mas, dentro dessa região, cabem muitas propriedades com diversas classificações, de 1er Grand Cru a 5 ième Grand Cru, e outras sem qualquer classificação. Em Champagne habituámo-nos a falar apenas de vinhos que são vinificados pelo método da segunda fermentação em garrafa. O nome “Champagne”, ou derivado, não pode ser usado em vinhos produzidos fora da região, seja em França ou qualquer outro país. Por isso usamos, entre nós, e para os que seguem a mesma metodologia, a designação “Método Clássico” e não “método champanhês” como já foi uso. A única excepção conhecida àquela proibição é a utilização do nome Champagne na região do rei dos destilados, o Cognac. Foi demarcada em 1909 e há seis zonas distintas de produção. A mais conceituada chama-se Grande Champagne; de seguida, um plano abaixo, vem a Petite Champagne e mais quatro; os cognacs que resultam de um lote das duas indicam no rótulo Fine Champagne. Numa loja de chocolates da Baixa lisboeta tive de dizer à empregada que estava a informar mal os clientes porque dizia que eram bombons com Fine Champanhe “que é um champanhe de melhor qualidade”. Enfim…
O que será menos conhecido dos consumidores é que na zona de Champagne se fazem vinhos tranquilos, como o que apresentamos hoje. Nesta Appellation Coteux Champenois, consagrada na lei apenas em 1974, fazem-se vinhos brancos, tintos e rosés, com as mesmas castas usadas para o “vinho com bolhas”. Trata-se de uma Appellation que é uma curiosidade, de produção diminuta, mas curiosidade é coisa que sempre se pede a um enófilo. O vinho de hoje, elaborado pelo produtor do champagne Bauget-Jouette é feito, naturalmente, de Pinot Noir, a casta rainha usada na região, a par da ubíqua Chardonnay.
Do Mouchão chega-nos um branco de Verdelho, uma casta ali referenciada no início do séc. XX. Actualmente é frequentemente confundida com Gouveio. Este, apesar dos anos de vida que leva, está em grande forma.
Sugestões da semana:
(Os preços referem-se à Garrafeira de Campo de Ourique, Lisboa)
Champagne Bauget-Jouette Blanc de Blanc 1er Cru 2018
Região: Champagne (França)
Produtor: Bauget-Jouette
Casta: Chardonnay
PVP: €59
Toda a gama de champanhes deste produtor está disponível na Garraf. C. Ourique, em geral com uma excelente relação qualidade/preço. É que encontrar bons champanhes a menos de €60 não é tarefa fácil.
Dica: muito bem conseguido, perfeito nos aromas, na bolha, na acidez. Deixa um rasto de enorme qualidade.
Coteaux Champegnois tinto 2021
Região: Champagne (França)
Produtor: Bauget-Jouette
Casta: Pinot Noir
PVP: €55
Com este tinto, creio, sem imitar um Borgonha, sugere-se que mesmo em Champagne é possível fazer brancos e tintos tranquilos.
Dica: muito ligeiro na cor, mais parecendo um rosé carregado, com um estilo leve de corpo e alma. Alguns aromas podem afastar alguns e não incomodar outros.
Mouchão Ponte branco 2021
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Mouchão e Cavaca Dourada
Casta: Verdelho
Enologia: Hamilton Reis
PVP: €22,50
A casta existe na herdade desde o início do séc. XX. O mosto inicia a fermentação na cuba e termina na barrica com estágio prolongado na madeira.
Dica: citrino carregado na cor, a mostrar excelente condição, ainda nervoso e com muito boa presença no palato. Está agora no seu melhor. A provar, sem hesitar.
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