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Menos vinha, mais problemas

E a vindima não vem longe…

1 – A Organização Internacional da Vinha e do Vinho (OIV) no relatório sobre a produção de vinho em 2024 revelou dados que mostram uma queda mundial do consumo. De 2023 a 2024 os números apontam para uma diminuição de 6% nos EUA, 4% em França, 3% na Alemanha, 6% no Canadá e 19% na China. Acresce ainda um decréscimo gigante da área de vinha, com a Espanha a cortar 33 000 ha, França 12 000 ha, Argentina 11 000 ha, Chile 16 000 ha e Portugal um pouco menos de 21 000 ha. Segundo a informação recolhida no Instituto da Vinha e do Vinho (IVV), a diminuição acentuada em Portugal não deriva unicamente do arranque de vinhas mas sim de métodos de medição mais fidedignos e mais precisos na actualização do cadastro vitícola. Assim os dados oficiais informam que em 2021 a área de vinha em Portugal era de 192.028,84 ha e, em 2024, baixou para 171.263,68 ha. Se a diminuição corresponder a um consumo de vinhos de melhor qualidade estaremos satisfeitos. Que vamos continuar a importar milhões de litros não restam dúvidas, apesar de haver regiões como o Alentejo que tem duas colheitas em casa para vender. Dá para perceber? Não dá mas…é o mercado a funcionar, diz-se!

2 – Com a entrada em funções de novo governo, passou-me pela cabeça que desta vez se irá resolver de vez a questão do poder no Instituto dos Vinhos do Porto e Douro (IVDP), herdeiro directo do outro Instituto de nome quase igual e criado pelo Estado Novo. Enquanto todas as outras regiões têm as suas Comissões Vitivinícolas eleitas localmente, no IVDP quem manda é o Estado, colocando lá alguém da sua confiança (política ou de irmandade), tenha mais ou menos capacidade para resolver “a questão do Douro”, a tal questão que há 150 anos alimenta polémicas, movimenta as forças vivas e as disputas políticas. Para tudo agravar, o Estado ainda vai ao IVDP buscar uma boa fatia dos milhões pagos pelos produtores, nomeadamente sob a forma de selos apostos nas garrafas, valores esses que seriam mais bem empregues na promoção e melhor divulgação do Vinho do Porto. As empresas fazem pouco pela promoção e o IVDP alinha pelo mesmo padrão. Todos os portugueses têm uma garrafa de Porto em casa, em alguns casos já herdada dos antepassados. Não é para beber, nem imaginam o que fazer com ela; talvez (na província) quando o senhor padre da aldeia fizer a visita pascoal se volte a beber um copinho. Não se passa disto porque não se promove o consumo com conta, peso e medida, não se explica o vinho, ninguém sabe a distinção entre vintage e tawny. O tema tem barbas, as denúncias são sem conta, mudam os governos mas não mudam as atitudes. Dizia-me um produtor do Douro que só em governos de ditadura (Marquês de Pombal, João Franco e Salazar) se conseguiu legislar e fazer cumprir as decisões. É triste.

Os pequenos lavradores não têm quem os defenda, não vão ter a quem vender a produção este ano, vão ficar com as uvas no colo e caem na tentação do “já agora”, ou seja, já agora que tenho uvas e não tenho a quem vendê-las embora lá fazer um tinto ou um branco, quem sabe, pode ser que seja um sucesso. Por razões como esta proliferam no Douro marcas às centenas, quase todas de quantidades ínfimas e com final triste: porque não se vendem, porque os retalhistas não querem nem ouvir falar em mais marcas, os distribuidores idem e os restaurantes “só se for na base do pago uma caixa mas recebo duas”. Tudo isto mudava com a passagem do IVDP a organização não governamental? Não, mas…tem de se começar por algum lado. É verdade, passou-me pela cabeça mas depois acho que acordei e, afinal, estava tudo preparado para não acontecer nada.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Monólogo Santa Teresa Arinto branco 2024
Região: Vinho Verde
Produtor: A&D Wines
Casta: Arinto
Enologia: Fernando Moura
PVP: €9
Vinho de agricultura bio. A quinta inclui 33 ha de vinha murada e situa-se em Baião, já na fronteira com a região do Douro. O produtor ainda tem mais duas propriedades na região: quinta dos Espinhosos e Casa do Arrabalde.
Dica: tudo o que é expectável de um Verde de verão está aqui bem exposto: alegria, acidez, vibração, frescura e óptima textura de boca.

Adega de Borba Grande Reserva tinto 2016
Região: Alentejo (Borba)
Produtor: Adega Coop. Borba
Castas: Trincadeira e Alicante Bouschet
Enologia: Óscar Gato
PVP: €16
Desde há décadas que a Coop. Borba apresenta os seus melhores vinhos com rótulos de cortiça. Este, já com algum tempo de vida no mercado, tem 15% de álcool.
Dica: média concentração de cor, aroma discreto mas com boas notas vegetais e flores secas. Dá boa prova na boca, sem pesar, a pedir mesa desde já com pratos de médio tempero.

Revelado tinto 2021
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Herdade do Peso
Castas: Alicante Bouschet (64%), Cabernet Sauvignon e Touriga Nacional
Enologia: Luís Cabral de Almeida
PVP: €15
Tem origem em solos diferenciados, exposições variadas e quatro sistemas de condução. Maturação em barricas mas tendencialmente no futuro serão toneis de 3000 litros. 89 000 garrafas produzidas.
Dica: muito atractivo no aroma, fino e muito polido na boca, um tinto consensual onde a frescura supera a opulência.

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