O João partiu sem avisar “Este vinho é uma categoria!”. Quando o João Canijo afirmava…
Velhos mas gaiteiros
Prazeres não óbvios, precisam-se
Recordo-me de ouvir na minha infância o termo “velha gaiteira” aplicado a mulheres; de alguma idade mas ainda espevitadas. Não recordo se se aplicaria a homens mas também não interessa nada porque, aqui, é de vinhos que falamos. Com a periodicidade que o bom-gosto aconselha, levei a cabo mais uma prova de vinhos velhos. É verdade que uns estavam já “entrevados” mas outros, mais gaiteiros, quiseram dizer presente com todas as letras. Sendo um tema que já aqui falei algumas vezes, não é demais recordar alguma metodologia que uma prova destas deve seguir. A primeira atitude é de bonomia: temos de ter paciência para aceitar que alguns vinhos estão fora de forma por inúmeras razões e por isso não há que desesperar.
A qualidade da rolha, o local onde estiveram guardados, a temperatura a que estiveram sujeitos e a respectiva variação Verão/Inverno, tudo contribui para a saúde do líquido, seja ele branco, tinto ou generoso. Há que decidir com uns dias de antecedência quais os vinhos a seleccionar, colocando em pé as garrafas; de seguida, todos os vinhos deverão ser provados no dia da prova mas com antecedência de algumas horas para se detectarem problemas, como rolha, mofo ou qualquer desvio que impeça a prova. Os brancos não obrigam a decantação (mas pode fazê-la) e só depois de provados deverão ir para o frio. Os tintos, por norma geradores de mais depósito, deverão ser provados e decantados. Após a lavagem da garrafa pode voltar a colocar o vinho tinto na mesma. Chegado o momento, há que recorrer a todo o bom-senso armazenado: não ter expectativas muito altas, estar preparado para ser surpreendido e, se a brincadeira para aí apontar, servir os vinhos tapados (às cegas) para se fazer um exercício da nossa base de dados mental: de que país ou região será, que casta poderá ser, que idade terá? Por fim, não tirar conclusões apressadas: uma má garrafa não significa que outras idênticas estarão mal, nos vinhos velhos há boas e más garrafas. Depois é provar e aprender, uma vez que, nas provas cegas, é errando que se aprende (isto sem retirar a graça que é acertarmos no vinho…).
No meu caso voltou a acontecer o mesmo que em anteriores edições: os brancos portaram-se lindamente, desde um inesperado Colares branco de 1990, um Poço do Lobo Arinto de 1992, um Luis Pato Vinha Formal de 08, Foz de Arouce 09 e um arrebatador Maritávora Grande Reserva de 2011. Nenhum estava impróprio. Maravilha. Nos tintos, com dois deles decididamente mortos e enterrados, as alegrias foram menores mas os destaques foram para um Pellada Carrocel 06 e D’Avillez 01.
As velhas gaiteiras foram as garrafas de Caves Dom Teodósio Garrafeira 1960 (decantado em 68), Quinta da Aguieira 75, Tapada do Chaves 89 e C.R.&F. Garrafeira 78, todos tremelicantes mas ainda com vida. O repasto que se seguiu teve direito a tintos mais novos e generosos vários, de Porto a Carcavellos e acabando num Sauternes. A saúde dos brancos velhos pode espantar alguns, mas a verdade é que, à conta da boa acidez, a vida em garrafa é mais fácil nestes vinhos. Falta responder a uma questão: que fazer aos tintos passados e já impróprios? E, já agora, aos restos dos vinhos que não gostámos ou que sobram e não queremos voltar a beber? Vá juntando num garrafão para mais tarde tentar fazer um vinagre. Quando tiver aí uns 10 garrafões já podemos voltar a falar.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
L V Reserva branco 2022
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Lobo de Vasconcelos Wines
Castas: Verdelho e Arinto
Enologia: equipa dirigida por Manuel Lobo
PVP: €28
É a terceira edição deste vinho. A Herdade da Perescuma (543 ha, dos quais 37,9 de vinha) situa-se na Vendinha, sub-região de Reguengos. A totalidade do mosto fermenta em barrica.
Dica: muito citrino, notas de limão e folha de limoeiro. O grande equilíbrio que mostra na boca aponta-o para a mesa, desde já, com peixes em cozinhado curto. Muito bem conseguido.
Rose Pom-Pom rosé 2024
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Casa Relvas
Castas: Aragonez, Touriga Nacional e Syrah
Enologia: Nuno Franco
PVP: €15 (€25 em magnum)
Cerca de 10% do vinho estagiou 4 meses em barrica. Tem edição em magnum, algo que é agora frequente nos vinhos rosés.
Dica: salmonado na cor, aroma vivo e com agradáveis notas de framboesa. Fino, ligeiro e muito gastronómico. Perfeito para o Verão.
Quinta do Sobral Jaen tinto 2021
Região: Dão
Produtor: Quinta do Sobral
Casta: Jaen
Enologia: Patrícia Santos
PVP: €17
A casta é conhecida em Espanha como Tinta Mencia. A propriedade, situada em Santar, inclui 15 ha de vinhedos e 20 de floresta. Foram produzidas 2666 garrafas deste tinto que estagiou 6 meses em barricas. O portefólio inclui cinco tintos, seis brancos e um rosé.
Dica: com média concentração de cor, aroma fino, fruta vermelha e notas de vegetal seco. A boca confirma que temos aqui um tinto de intenso sentido gastronómico, com todos os elementos em bom equilíbrio, com apenas 11,5% de álcool.
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