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A ponte e o caminho da glória

Do Douro ao Alentejo sem dar por isso

Um dos vinhos que selecciono esta semana – Quinta do Crasto Vinha da Ponte – é um ícone do Douro e um dos tintos que melhor representa um certo estilo de vinhos portugueses. Digo “um certo estilo” porque, felizmente, o perfil dos tintos que hoje se faz no país é bem diverso: alguns, como este, apostam na concentração, no vigor, na forte mas boa presença da madeira e que, por isso, deixam qualquer painel de prova à toa; depois há todo um leque de novas tendências que apontam para tintos mais abertos de cor, menos macerados ou baseados em castas com pouca intensidade corante e mais fáceis de beber, seguramente mais gastronómicos.

Não há que escolher um em detrimento do outro, os dois estilos têm lugar à mesa, se a ligação com a comida for bem feita, algo que temos tendência a menorizar. Este Ponte 2019 representa a 12ª edição (em 21 anos), depois de ter “nascido” em 1998, no mesmo ano que viu nascer o outro ícone do Crasto, o Vinha Maria Teresa. Área pequena, vinha muito velha, orientação sul e muitas castas misturadas são os ingredientes do novo Ponte. No entanto, tal como um Chef se pode distinguir de outro usando os mesmos ingredientes, também este tinto se distingue de muitos outros douros, feitos igualmente com uvas de vinhas velhas e castas misturadas. Este será mais caro e tem mais procura, o que é o sonho de qualquer produtor.

Mas o sonho pode não ser tão ambicioso mas mesmo assim originar grandes lucros. Fiquei a saber recentemente que o tinto alentejano Cartuxa faz 600 000 garrafas/ano e, o Reserva, 70 000, com preços e mercado de €22 e €30 respectivamente. Se estes números impressionam temos de entender também que tal se deve a um percurso que levou 30 anos a fazer, criando uma relação de confiança do consumidor na marca e no produtor. E tal confiança não deve ser quebrada ao sabor das modas e manias. Tal como o Cartuxa não deve apresentar-se agora com uma cor deslavada e sem grau, também o Vinha da Ponte não pode enganar os seus apreciadores, alterando o estilo para ser “moderno”. Vem isto a propósito de um tinto bairradino – dos mais caros da região – que também provei há dias e que desiludiu completamente. Vinha plantada em pé-franco, sem recurso a porta-enxertos, o vinho sempre teve, desde os meados dos anos 90 quando nasceu, um perfil próprio, sempre muito mentolado. Original sem dúvida, com carácter diferenciador. A mais recente colheita altera tudo isso, ao sabor de uma pretensa modernidade. Não gostei – um tinto sem alma e sem estrutura – que deita por terra o caminho feito.

Entendo que qualquer produtor pode aventurar-se por novos caminhos mas para isso há que criar novas marcas, sem pôr em causa valores que estão estabelecidos e que criaram seguidores no mercado. Até porque as modas vão e vêm e estragar é muito mais rápido do que construir.
Do Domínio do Açor, projecto ambicioso do Dão, escolhi um branco, (4456 garrafas) provavelmente mais fácil de encontrar que os ícones da casa que se “evaporam” numa semana, sujeitos a alocações. No seu conjunto os vinhos revelam muita atenção ao detalhe, beneficiando dos conselhos dos melhores técnicos em cada sector. Os investidores são brasileiros, apaixonados pela Borgonha e que encontraram no Dão o local certo para expressar os seus apetites vínicos. Acho que acertaram.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Domínio do Açor Vila Romana branco 2023
Região: Dão
Produtor: Horizonte Ilimitado
Castas: Encruzado, Cerceal-Branco e Bical
Enologia: Luis Lopes e João Costa
PVP: €23,50
As vinhas estão em Carregal do Sal. No portfólio contam-se vários vinhos varietais, branco e tintos. Vinha em processo de certificação bio.
Dica: leve redução no aroma, fino na fruta citrina, muita alegria ácida na boca, numa tonalidade quase salgada. Conjunto bem interessante.

Quinta do Crasto Vinha da Ponte tinto 2019
Região: Douro
Produtor: Quinta do Crasto
Castas: várias em vinha velha
Enologia: Manuel Lobo
PVP: €280
A vinha, velha com 1,9 ha, está a ser classificada cepa a cepa, é um projecto para 2 anos. Produzidas 4900 garrafas e algumas magnuns. Em 2019 também se editou o tinto Vinha Maria Teresa, coincidência pouco frequente.
Dica: fechado e muito novo, notas químicas e balsâmicas. Tudo de luxo, os taninos, a madeira, a estrutura de boca. Vai valer a pena esperar.

Ravasqueira Vinha das Romãs Blanc de Noirs 2024
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Ravasqueira Vinhos
Castas: Touriga Francesa e Syrah
Enologia: equipa dirigida por David Baverstock
PVP: €19,90
O mosto das castas tintas foi vinificado sem películas e originou um vinho branco, daí o nome. Produzidas 9600 garrafas.
Dica: Contrariando uma certa tendência de gerar vinhos “deslavados”, a técnica do branco de tintas foi aqui muito bem conseguida e o vinho tem muita garra e frescura. Uma boa escolha para o Verão, sem hesitar.

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