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Não está bom? E agora?

Não há soluções mágicas mas…

Só quem não lida com garrafas de vinho poderá dizer que nunca abriu uma botelha com vinho defeituoso. Um dos problemas que costuma saltar mais ao nariz é o chamado “cheiro a rolha”, o resultado de uma contaminação da rolha com compostos desagradáveis, alguns deles fáceis de identificar, a que, abreviando, se chamam TCA (tricloroanisol), algo entre mofo e pano sujo encharcado. Memorável foi aquele momento em que um sujeito, com um ar muito entendido, disse que “este vinho cheira a TSF”! Adiante.

Este problema, sempre em vias de erradicação definitiva mas, infelizmente, ainda presente, tornou-se menos grave para a maioria dos vinhos do mercado, uma vez que se usam rolhas de aglomerado de cortiça (isentas daquele problema) e não rolhas de cortiça natural. Sabemos que quando a garrafa já tem muitos anos, a rolha tende a deteriorar-se muito e isso obriga a imensos cuidados no acto da abertura da mesma, mas, cheiro a rolha pode aparecer num vinho com um mês ou 20 anos, não é um problema que decorra da idade. Fica então a dúvida: que fazer quando um vinho se apresenta com este problema? O assunto pode tornar-se grave quando o vinho em causa é caro. Já tive experiências de variado tipo quando este problema se colocou. Recordo-me que há meia dúzia de anos abri um Borgonha branco, de um dos domaines mais conhecidos, famosos e caros da região – o Domaine Leroy. A garrafa tinha um nível insuportável de TCA; voltei a colocar a rolha na garrafa, cheia, e enviei-a directamente para o produtor, com uma carta em que lamentava o sucedido, me identificava e recordando que já tinha tido vários contactos perfeitos com outros vinhos do domaine; não referi sequer que gostaria de ter nova garrafa. Não passou mais de uma semana para receber em casa uma nova garrafa de um ano mais recente porque daquele já não havia. A carta era assinada por Mme. Lalou Bize-Leroy, a proprietária e ex-gerente do Domaine de la Romanée-Conti. Caso para dizer como os franceses: chapeau!

Menos sorte tive já este ano: em Janeiro abri uma garrafa de Carruades de Lafite de 2005, a 2ª marca daquele famoso château. Comprei várias a uma empresa de Bordéus – Millésima – com quem já fiz várias compras en primeur. Devolvi a garrafa e recebi a resposta que tinham analisado e que de facto tinha TCA (!). Ok, ainda bem que concluíram o óbvio. O que veio a seguir é que foi menos agradável: a empresa desculpou-se com o courtier – intermediário a quem o château vende os vinhos, e não quiseram devolver uma nova garrafa, procedendo a uma indemnização que é 4x inferior ao preço actual do vinho no mercado. Lamentável. Creio que qualquer outro consumidor pensará, como eu, que o que queria era uma garrafa e não o dinheiro.

Fica a sugestão: se lhe acontecer algo parecido (com vinhos estrangeiros), devolva directamente ao produtor e esqueça o intermediário. Se conservar a factura, deve recorrer ao comerciante que lhe vendeu a garrafa, sobretudo se se tratar de vinhos portugueses de custo elevado. No caso do Carruades era óbvio, porque eu tinha comprado à Millésima, e eles sabiam isso. Há muitos problemas que podem surgir nos vinhos com o longo estágio em garrafa e por isso se diz que “não há bons vinhos velhos, há boas garrafas de vinhos velhos”. De quase todos não se pode pedir responsabilidades ao produtor mas… cheiro a rolha é cheiro a rolha!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Espumante Real Companhia Velha Blanc de Blancs 2019
Região: IGP Duriense
Produtor: Real Companhia Velha
Casta: Chardonnay
Enologia: Jorge Moreira
PVP: €42
É a primeira edição deste vinho feito apenas de uvas brancas, daí o nome de branco de brancas. 1253 garrafas.
Dica: excelente no aroma, fino na fruta e muito proporcionado, a mostrar as virtudes da Chardonnay para este tipo de vinho. Preço muito convidativo.

Quinta de Ventozelo Essência branco 2019
Região: Douro
Produtor: Quinta de Ventozelo
Castas: Viosinho (70%) e Malvasia Fina
Enologia: José Manuel Soares
PVP: €38,50
Após selecção minuciosa das uvas à entrada da adega, a fermentação decorre em inox e termina nas barricas de 2º e 3º anos. Após 8 meses de estágio ficou 5 anos na garrafa. Produção de 3 000 garrafas.
Dica: citrino dourado na cor, aromas de fruta madura forrados com leves notas de madeira. Boa complexidade, um branco autêntico e polido. Um assunto muito sério. A conhecer.

Herdade M. B. tinto 2021
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade do Monte Branco
Casta: Petit Verdot
Enologia: António Ventura/José Figueiredo
PVP: €15
A propriedade situa-se em Vendas Novas. A casta, bordalesa de origem, ganhou mais protagonismo em climas mais quentes, amadurece bem e confere frescura.
Dica: medianamente concentrado na cor, aroma vivo, com fruta fresca, com bom balanço no palato, aqui com leve doçura de fruta. Muito gastronómico.

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