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Casta internacional? É esta mesma…

De Bordéus e do Loire para o mundo

Quando se usa o termo “castas internacionais” há meia dúzia delas que saltam para a ribalta. Nos brancos falamos sobretudo de Chardonnay e Sauvignon Blanc. A internacionalização chegou quando os países do Novo Mundo, pelo facto de não terem castas próprias ou por quererem afirmar-se no panorama internacional, optaram por importar as castas do Velho Mundo. Nessa avalanche “voaram” as brancas citadas e mais algumas de seguida, como a Viognier e a Riesling.

No que toca à Sauvignon Blanc, a viagem fez-lhe muito bem porque, por exemplo, a Nova Zelândia só a começou a plantar em 1973 e é hoje um colosso, exportando para todo o planeta. O sucesso foi tal que o próprio Concurso Mundial de Bruxelas (CMB) com a próxima edição, em Junho, na China, criou, em 2010, um certame – Sauvignon Selection – só dedicado a ela. Foi daqui (em Burgas, Bulgária) que esta crónica foi escrita, no final do terceiro e último dia de provas. E após mais de 120 vinhos provados (só no meu júri de 5 pessoas) foi fácil perceber por onde “andam as modas”. As tendências apontam para dois perfis muito diferenciados: os brancos novos (quase todos da última colheita) que se apresentam muito frescos, normalmente sem madeira e onde sobressaem os aromas típicos da casta, todos eles carregados de notas verdes. Nos novos temos espargos, relva cortada, pimento verde, por vezes hortelã e urtigas; quando a fruta se consegue chegar à frente temos então notas onde surgem as frutas tropicais, como maracujá ou ananás. Este lado tropical muitas vezes é conseguido com artifícios enológicos (sobretudo para as castas pouco aromáticas que proliferam no mundo), dizendo-se então que o vinho (venha de que região for) está sauvignoné.

Em Portugal há vários. Mas a casta não tem só notas verdes; com alguns anos pode adquirir uma excelente complexidade e volume e (tive sorte) couberam-me alguns em prova, como da Itália (Alto Ádige), Vale do Loire e Áustria. Diz-me um enólogo do Douro que a casta é muito exigente na vinha e por vezes tem de ser vindimada em várias passagens para se conseguir obter melhores resultados. Com as alterações climáticas a casta apresenta-se agora cada vez menos vegetal, tendo adquirido mais riqueza. Dito por outras palavras, agora é mais fácil provar e menos cansativo do que já foi. Aqui estiveram mais de 1000 amostras em prova (cerca de 56 da Bulgária), oriundas de 26 países; provadores eram 60, de 20 países diferentes, apenas um de Portugal.

Além deste certame, o CMB criou também vários outros concursos temáticos: um só para vinhos rosés, um outro para espumantes. Existe outro ainda para generosos e destilados, o que na gíria apelidamos de “prova hardcore”, uma vez que só se provam aguardentes, tequilas, rum, mescal, vodca, gim, grapas (bagaceira) e mais os generosos. É obra e requer um bom fígado! Como já em tempos referi, um produtor pode sair beneficiado se obtiver bons resultados nestes concursos. E quantas mais amostras enviar, mais possibilidade há de ter medalhas. Como curiosidade diga-se que a Casa Santos Lima é, a nível mundial, quem mais medalhas já obteve no concurso geral. Não sai barato (inscrição a cento e tal euros por amostra) e mais a aquisição dos selos para apor nas garrafas. E valerá a pena? Pois claro! É que na hora de vender para fora, o importador prefere comprar vinhos muito premiados. E fazem-se vinhos a pensar nos concursos? Obviamente!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta do Cume Gouveio branco 2022
Região: Douro
Produtor: Quinta do Cume
Casta: Gouveio
Enologia: Jean-Hugues Gros/Frederico Cudell Tenreiro
PVP: €30
Projecto familiar em Provesende (para muitos a aldeia mais bonita do Douro) e que inclui enoturismo. A vinha de Gouveio ocupa uma área de 0,5 ha e fizeram-se 2000 garrafas. Parcialmente fermentado e estagiado em barrica.
Dica: muito boa frescura de aroma, citrinos maduros e furta amarela, com uma boa envolvência na boca, acidez muito equilibrada. Bem conseguido.

Altas Quintas Vinho de Talha tinto 2022
Região: Alentejo Portalegre
Produtor: Altas Quintas
Castas: Alicante Bouschet, Aragonez
Enologia: António Ventura
PVP: €30,80
Feito em talha de barro, revestida a cera de pez, ganhando com isso um perfil próprio que remete para os alentejanos de outrora. Cada talha pode ter pequenas diferenças e por isso o blend é muito importante.
Dica: predomina no aroma o lado rústico, com moderadas notas de barro, tudo muito tradicional. Muito gastronómico, bom equilíbrio de todos os elementos. A provar um pouco mais fresco que os outros tintos.

Vallado Reserva Field Blend tinto 2022
Região: Douro
Produtor: Quinta do Vallado
Castas: vinhas velhas entre 60 e 100 anos
Enologia: Francisco Olazabal e Francisco Ferreira
PVP: €31
Foi durante muito tempo o topo de gama da quinta. Continua a ser uma aposta muito segura. Polido de aroma, fino, com fruta negra e boa barrica. Deste tinto fizeram-se 27 030 garrafas e 800 magnuns.
Dica: muito polivalente à mesa, os taninos são macios e a acidez está no ponto. A beber agora e a guardar.

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