A magia das duas letrinhas Decorreu há duas semanas a 11ª edição do Tomate Coração…

Boa qualidade e bom preço será um sonho?
Conversa em tempo de feiras
Estamos a chegar à época das feiras de vinhos. Já não têm hoje a importância que tiveram nos anos 90, quando havia produtores que até esperavam pelo momento da feira para lançar os vinhos novos, mas continuam a ser momentos dignos de registo. O que se pode esperar dos vinhos das feiras? Creio que será razoável esperar bons vinhos a preço módico. Sobre o tema dos preços não devemos esquecer que um vinho caro tem de ser muito bom mas um vinho bom pode não ser caro.
Quase todos os consumidores perseguem o segundo postulado. Há muito vinho de boa qualidade que, por falta de história, de reconhecimento público ou de boas classificações dos gurus internacionais, se queda por preços modestos quando poderia chegar a patamares mais elevados. Também os há com muita história e mesmo assim com preços modestos – como a maioria esmagadora dos moscatéis – e muitos dos vinhos do Porto. Como é que alguém pode aceitar que um tinto do Douro com 2 anos de vida possa custar (ou que se peça por ele) tanto como um Porto tawny 20 anos? E os preços do Porto são ridículos, quase ofensivos, se comparados com o champanhe. O champanhe é mais difícil de fazer? Não é verdade! As uvas em Champagne são muito mais caras? Sim! Essa diferença de preço justifica a diferença do preço final? Não senhor! A diferença do preço é justificada pelo reconhecimento internacional, pela relação oferta-procura, muito mais favorável ao champanhe. Mas o reconhecimento conquista-se e custa dinheiro, não cai do céu.
Os vinhos caros, ao contrário do que se poderá pensar, são indispensáveis e seria bom que fossem muitos e que se vendessem; seria sinal que, quer os consumidores portugueses quer os estrangeiros, reconheciam a qualidade, a região, o produtor e se sentiam confortáveis a pagar os altos preços. Mas os preços caros têm de ser reflexo de qualquer coisa, de qualquer trabalho específico do autor e de uma qualidade excepcional da colheita e não apenas um delírio momentâneo do produtor que “achou” que o seu vinho deve ser vendido caro. Temos cada vez mais adeptos do verbo achar e por isso lá continuam a surgir no mercado vinhos próximos dos €100 com marcas que ninguém conhece. “É uma questão de posicionamento”, dirá o produtor que sabe que se vender 100 garrafas é uma sorte, mas fica todo contente por fazer parte da elite. E há vinhos caros cujo preço tem de ser explicado e contextualizado, para que se perceba melhor o terroir de onde vem, a produção ridiculamente baixa da vinha onde nasceram as uvas ou outra razão válida.
É também por requererem esse enquadramento que não devem ser enviados para provas cegas ou concursos. Voltando às nossas feiras, o momento deve ser aproveitado para repor os stocks, completamente em baixo após os consumos desenfreados do Verão que, imaginamos, acabaram com os rosés, os Verdes e os brancos mais ligeiros. Vamos também assumir que não andamos muito folgados de cartão de crédito e, ainda que tenhamos de colocar um tecto para os nossos gastos, abaixo dos €25 por garrafa já conseguimos juntar um conjunto de vinhos muito interessantes. Em França estamos na época do frenesim das feiras e dos preços convenientes, não só nos hiper como também nas garrafeiras. Quer Borgonha abaixo de €10? Pois claro! E champanhe abaixo de €20? Arranja-se. É assim, tudo a querer apostar no good value for money. Não sempre dá bom resultado mas há que tentar.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Conde Vimioso Sommelier Edition rosé 2025
Região: Reg. Tejo
Produtor: Falua
Casta: Castelão
Enologia: Antonina Barbosa
PVP: €8,99
O lote foi feito em colaboração com alguns sommeliers. Existe também em branco e tinto. Parte do mosto fermentou e estagiou em barrica.
Dica: muito fino de aroma, leve nota de frutos vermelhos como framboesa. Bem atractivo na boca, seco, claramente vocacionado para a mesa. Boa aposta.
Pingolé Vinhas Velhas tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Glad Wine
Castas: misturadas em vinha velha
Enologia: Décio Coutinho/Paulo Amaral
PVP: €40
A empresa Glad Wine é recente, juntou dois amigos enólogos e tem também um conjunto de vinhos com essa marca. Este vinho estagiou em barrica durante 18 meses. Produzidas 1866 garrafas.
Dica: excelente impacto olfactivo com fruta e madeira a revelarem um trabalho de vinha e adega muito bem conseguido. Polido, elegante mas com estrutura.
Kopke Porto vintage 2024
Região: Douro
Produtor: Kopke Group
Castas: várias
Enologia: Carlos Alves
PVP: €90
Produzidas 11 964 garrafas e 600 magnuns. Também foi declarado o vintage Burmester em quantidade ligeiramente menor. Deste grupo fazem ainda parte as marcas Cálem, Barros, Qta. Boavista, São Luiz e Velhotes.
Dica: aroma muito atraente, pleno de notas de especiarias e cacau amargo. Um vintage de grande estrutura mas também de raro equilíbrio e definição. Um valor seguro, a beber agora e a guardar para o futuro.
Comments (0)