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Caves São João, uma referência bairradina

Uma história com 106 anos

A história das caves bairradinas começou em finais do séc. XIX mas foi a partir da década de 20 do século passado que surgiram algumas caves que chegaram até nós, como as Caves Messias (1926), Aliança (1927), São Domingos (1937), Montanha (1943). Perderam-se no tempo, nas disputas, nas insolvências e na perda dos mercados coloniais, nomes importantes e históricos como Monte Crasto, Fundação, Valdarcos, Império. As caves nunca foram empresas produtoras de uva, antes compradoras de vinho feito, na sua região mas também no Dão.

Durante décadas as caves tinham no seu portefólio vinhos que resultavam de lote do Dão com Bairrada, com frequência apelidados de Garrafeira, ou nome semelhante. De nada se informava o consumidor, também ele pouco curioso. O importante era saber se o vinho era bom. O resto… As caves eram também produtoras de licores, eram exportadoras maciças para os mercados coloniais e, além delas, existiam também adegas cooperativas muito fortes como Vilarinho do Bairro, Mealhada e Mogofores, todas encerradas. Resta a cooperativa de Cantanhede. Neste ambiente, é de destacar a resiliência das Caves São João onde se destacou, desde finais dos anos 50, Luiz Costa, um homem que pensava à frente do seu tempo, um bairradino que tinha mundo, bom-gosto e foi inovador em muitos campos, desde os engarrafamentos em magnum, os rótulos de cortiça, o gosto pelas colecções (também de vinhos) e o gosto pelas polémicas que manteve com os seus pares até morrer. A quinta do Poço do Lobo foi (e continua a ser) a única propriedade da empresa, onde estão 40 ha plantados, havendo perspectivas de crescimento da área de vinha.

Além das clássicas castas da região, há por lá muitas castas estrangeiras, a gosto de Luiz Costa, ele próprio um grande amante de Bordéus. Actualmente na Bairrada a empresa compra uvas em vez de vinho feito e no Dão adquire vinho feito para as entradas de gama mas para as marcas Reserva a vinificação é orientada pelos seus enólogos. Com o nome da quinta produz-se branco, rosé, tinto, espumante e colheita tardia. Fecha o portefólio o azeite, com origem em oliveiras centenárias entretanto recuperadas. Tradição muito antiga da casa são os vinhos velhos conservados em cave. E são mesmo muitos, uma vez que anteriores a 2000, falamos de 400 000 garrafas, entre brancos e tintos, do Dão e Bairrada.

Célia Alves, actual administradora das Caves, informou-nos que o processo de rearrolhamento de todas as garrafas já se iniciou mas, como se imagina, irá demorar muito tempo: abrir todas as garrafas, provar para averiguar da saúde, atestar o nível e colocar nova rolha é tarefa morosa. Mas dá esperança aos consumidores que, no entretanto, podem adquirir estes vinhos velhos nas instalações das Caves. De uma lista infindável, que recua até finais dos anos 50, damos apenas alguns exemplos:  Dão Porta dos Cavaleiros Res. 1985 (€60) e branco (€60), Reserva (o lote Dão com Bairrada), 1978 (€90) ou Frei João Res. 85 (em magnun €150).

Em 2015 foi criada a designação Baga Bairrada para espumantes da região que usem a casta Baga, quer em branco quer em rosé. Actualmente são cerca de 20 os produtores que adoptaram aquela nova categoria. Desde o centenário (em 2020) que as Caves têm mantido a “chama comemorativa” e este ano foi mais um. Como a festa foi no verão, o menu substituiu o inevitável leitão pelas sardinhas na brasa. Boa opção!

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

 

Espumante Quinta do Poço do Lobo Baga Bairrada 2023

Região: Bairrada

Produtor: Caves São João

Casta: Baga

Enologia: António Carvalheira

PVP: €12,50

O vinho estagiou 20 meses em cave com remuage manual. Produziram-se 30 000 garrafas.

Dica: muita frescura no aroma, bolha fina e acidez marcante tornam a prova um prazer. É um Bruto Natural, ou seja, é muito seco e não teve qualquer adição de licor na expedição do vinho. Bom, por isso, para a mesa com peixes e marisco.

 

Quinta do Poço do Lobo Reserva branco 2023

Região: Bairrada

Produtor: Caves São João

Casta: Arinto

Enologia: António Carvalheira

PVP: €20

Após a fermentação, metade do vinho estagiou em barricas usadas. Fizeram-se 7000 garrafas em vários formatos. Teve 2 anos de estágio em garrafa.

Dica: a idade não lhe tirou a delicadeza, a fruta é madura e tem uma óptima prova de boca, envolvente e fresco. Pode durar muitos anos em cave.

 

Quinta do Poço do Lobo Reserva tinto 2021

Região: Bairrada

Produtor: Caves São João

Castas: Baga, Touriga Nacional e Cabernet Sauvignon

Enologia: António Carvalheira

PVP: €20

Neste lote o Cabernet entra apenas como apontamento. Estagiou 18 meses em barrica. Foram feitas 14 000 garrafas mas muitas ficam em reserva para venda futura.

Dica: bom desenho de fruta vermelha, boas notas vegetais, leve floral, tudo num registo que prima pela elegância.

 

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