Os espumantes portugueses levantaram voo há quase 130 anos. Numa época - finais do séc…

Estão a chegar
Estamos em plena época em que se declaram os vintages, os topos de gama do sector do Vinho do Porto. É sempre assim. Passaram já dois invernos e os vinhos continuam a mostrar-se muito bem, tão bem que as principais empresas do sector vão declarar o ano 24 como vintage clássico. Para os menos familiarizados com esta terminologia, lembramos que se vulgarizou entre as empresas inglesas do sector do Vinho do Porto uma prática que consiste em declarar “clássico” quando o vintage é considerado excepcional, mas isso acontece só em alguns anos por década.
Quando, os mesmos ingleses, entendem que sendo bom, não é excepcional, é declarado um vintage “single quinta”, um conceito de significado estranho em português. Esta dicotomia clássico/single quinta (omissa na legislação) não é aceite por todos e irrita mesmo alguns produtores/empresas que declaram sempre que assim o entendem, sem se preocuparem se a declaração “clássica” é assumida por todos, como é o caso da Ramos Pinto, Noval, Niepoort, entre outros. Este ano, tudo se encaminha para que o 2024 seja considerado com vintage clássico, algo que já não acontecia desde 2017.
O Vinho do Porto é ingrato e por vezes os produtores enganam-se nas declarações: achavam que ia ser bom e afinal a coisa, para várias empresas, não correu assim tão bem, como o 75 ou o 94 e houve também anos que deveriam ter sido declarados clássicos e não foram porque não se percebeu a qualidade que traziam escondida, como o 87, 95 ou 2015. Desde 1993 que tenho acompanhado as declarações de Porto vintage. Nesse ano tive mesmo o meu “baptismo de fogo”, com a prova do vintage 1991, que era para ser clássico para todos mas, à ultima da hora, o grupo Fladgate (Taylor/Fonseca) roeu a corda e declarou o 92, em vez do 91. Na altura houve um grande bruá na imprensa internacional porque nunca tal tinha acontecido, um desacerto entre os ingleses do sector. Passados estes anos acho que a decisão da Fladgate foi correcta, até porque o vintage Taylor’s 1992 se revelou (na minha opinião) um dos melhores do séc. XX e, dos 91, ninguém guarda grande memória. Fazendo este flashback, de 2024 a 1991, é incrível a diferença de perfil, de qualidade e de pureza dos vintages actuais, se comparados com esses, com uma idade que se aproxima dos 40 anos.
Nessa minha prova “iniciática” dos 91, deparei-me com umas 40 amostras que me pareciam todas iguais. A prova foi feita por mim e pelo conhecido autor/winewriter James Suckling. Lembro-me que um dos então responsáveis da Cockburn’s passou por lá e deu-me a dica: nos vintages novos, disse, só há dois factores a ter em conta: cor (que se quer opaca) e taninos (que se querem bem presentes). Registei. À época, ainda se aconselhava o consumidor a só começar a provar os vintages 20 anos depois da colheita: havia menos controle sobre as uvas (hoje as empresas têm muito mais quintas do que tinham então), havia menos exigência na aguardente usada (hoje incomparavelmente melhor do que outrora) e todo o trabalho de viticultura e enologia é agora mais minucioso, mais preciso, originando vinhos que se bebem no ano em que são lançados com tremendo prazer. Os 24 que já provei serão seguramente grandes parceiros desde já. E não estou a ser tendencioso, uma vez que desde sempre fui, e continuo a ser, grande apreciador de vintages velhos. Nos anos não clássicos (em que os vinhos saem com melhor preço para o mercado) o mercado português é importante mas, dizem-me, nas declarações clássicas é o mercado americano e inglês que ficam com as maiores fatias do “bolo”. Uma coisa é certa: nos tais anos “clássicos” todos vendem mais rapidamente e a melhor preço. E o sector bem que precisa.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Vicentino Reserva branco 2022
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Adega Costa Atlântica
Castas: Arinto e Chardonnay
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €17,45
Vinhas quase à beira-mar, perto da Zambujeira. Metade do mosto fermentou em madeira. Posterior estágio de 8 meses sobre borras. Graduação moderada de 12,5% de teor de álcool.
Dica: boa combinação de castas, com a barrica a fazer-se sentir, no aroma e na textura de boca, ajudada depois por uma acidez crocante.
Duorum Reserva tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Duorum Vinhos
Castas: predominam Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinta Roriz e Sousão
Enologia: João Perry Vidal
PVP: €32
O ano ficou marcado por uma chuva intensa na segunda parte da vindima. Estas foram colhidas antes da chuva. O estágio (18 meses) decorreu em madeira, 70% barrica nova. Feitas 14 666 garrafas.
Dica: fresco de aroma, leve floral, taninos muito finos. Um tinto de raro equilíbrio que será absolutamente consensual.
Cartuxa Reserva tinto 2019
Região: Alentejo
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida
Castas: Alicante Bouschet, Aragonez e Cabernet Sauvignon
Enologia: Pedro Baptista/Duarte Lopes
PVP: €50
Nova cor de rótulo para se distinguir do outro Cartuxa. Leitura difícil do contra-rótulo; 15% álcool. Estágio 15 meses em barrica nova e 48 meses em garrafa. Este é o melhor Reserva de sempre.
Dica: vinho de grande estrutura, excelente densidade, com boa acidez. Apesar do álcool, temos aqui um enorme tinto do Alentejo.
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