Ainda há surpresas, e das boas A história passou-se na quinta da família Pereira de…
A chuva no molhado e o juízo que falta
Será que é desta, em 26?
Invariavelmente, quando o Dezembro se prepara para fechar as portas, temos tendência a fazer o balanço do ano que acaba e perspectivar o seguinte. É também a altura do ano em que sentimos que “temos que” beber espumante para celebrar. Quanto a este tema, a celebração (que em boa verdade se deveria estender ao ano todo) depende da folga do cartão de crédito, sendo certo que, sem sair da terrinha, temos muito por onde escolher. Aqui ao lado, nuestros hermanos também produzem muito cava mas nós, não senso português, preferimos o champanhe. Ficando na pátria, já se sabe que o mais fácil é escolher de entre os vinhos que têm melhor distribuição e fáceis de encontrar, e esses são das regiões clássicas, de Távora-Varosa, do Douro ou da Bairrada. É verdade que há espumante em tudo quanto é canto e até das ilhas eles nos chegam mas andam muitas vezes escondidos. O preço é um indicador de qualidade e os Vértice mais caros ou os Murganheira de topo são sempre vinhos de sucesso garantido. Há que não esquecer a regra de ouro: escolha em função do apreço (e do saber no assunto) dos convivas; se não ligam muito e querem beber porque sim, não sirva as melhores reservas, guarde-as para um petit comité!
Já quanto aos desejos para 2026, tudo o que se possa dizer não passa de uma ilusão, é chuva no molhado: seria preciso que o sector (chamam-lhe agora fileira…) acordasse e percebesse que, face à diminuição do consumo, não há outra saída que não seja promover, ensinar, e criar condições para que o vinho não seja um produto de luxo e seja consumido com moderação. Infelizmente, continuamos a ver vinhos na restauração com preços 500% acima do custo (e depois queixam-se que os clientes não bebem), continuamos a encontrar produtores que “acham” que o seu vinho, ainda que desconhecido, tem de ser vendido a 80 ou 100 euros, porque é vinha da família ou outra qualquer razão de igual valia. Já as empresas de Vinho do Porto preferem estar em Gaia a vender vinho a turistas, em vez de o promover, nomeadamente no Douro, onde os pequenos restaurantes não têm nem vinhos decentes para vender, nem copos apropriados, nem sobre o assunto sabem falar. Culpa deles? Claro que não! E quem diz no Douro diz na restauração em geral. Será que não há ninguém com juízo??? Será assim tão complicado ver o que se faz em Espanha quanto a este assunto?
O consumo baixou tremendamente, há regiões a arrancar vinha, e nós continuamos a assobiar para o lado, ficamos muito ofendidos com a entrada do vinho a granel vindo sobretudo de Espanha e que alimenta os vinhos bag-in-box, quando o país é excedentário em vinho. Falta fiscalização, mas falta também bom-senso: por um lado não há quem fiscalize se o camião vem com vinho de fora mas por outro somos óptimos a retirar a Denominação de Origem (D.O.) a um vinho porque a vinha fica de um lado da estrada e a adega no outro e a demarcação coincide com a estrada; somos óptimos no Alentejo a não considerar com direito a D.O. vinhas que não respeitam as delimitações feitas há 40 anos e que ninguém quer mudar; somo óptimos a recusar vinhos feitos com castas que não estão nos regulamentos quando o que não faltam são vinhos com castas estrangeiras que não são, nem portuguesas, nem típicas mas… já vêm nos regulamentos!
Para não nos irritarmos em excesso, aqui ficam três vinhos de luxo, daqueles que bebemos e não esquecemos. Caros? Deixa para lá que, se a conta for a dividir pelos convivas, não fica tanto assim a cada um. E boas entradas, com ânimo que para desgraça já basta assim…
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Quinta do Crasto Vinha Maria Teresa tinto 2020
Região: Douro
Produtor: Quinta do Crasto
Castas: 48 castas em vinha velha (com cerca de 120 anos); de algumas delas só há 4 pés mas de Tinta Amarela há mais de 5000 cepas.
Enologia: equipa dirigida por Manuel Lobo
PVP: €265
Esta é a 15ª edição deste vinho, também em magnum e double magnum. Tem estágio de 20 meses em barrica totalmente nova, com 10% de carvalho americano.
Dica: extremamente rico e concentrado de aroma e cor, a mostrar um fabuloso trabalho de barricas, o que originou um tinto de classe mundial. Num estilo clássico Crasto, sem ceder a modernismos pacóvios. Assim é que é!
Pêra-Manca branco 2023
Região: Alentejo
Produtor: Fundação Eugénio de Almeida
Castas: Arinto e Antão Vaz
Enologia: Pedro Baptista
PVP: €60
Está muito longe de ser o “vinho vulgar”, epíteto que Isaltino Morais lhe atribuiu. Fazem-se perto de 100 000 garrafas, quantidade que vai aumentar em 2024. O mosto de Antão Vaz fermenta em barrica e 30% do Arinto estagia também em madeira.
Dica: provavelmente o melhor de sempre, com um equilíbrio perfeito entre aroma e textura. Directo, com muito boa acidez, é um branco de referência e, com este preço e nestas quantidades, é caso para tirar o chapéu…
Porto Vasques de Carvalho branco 50 anos
Região: Douro
Produtor: Vasques de Carvalho
Castas: várias
Enologia: Jaime Costa
PVP: €600 (garrafa 0,500 ml)
Os vinhos do Porto brancos muito velhos estão agora a renascer e mostram que, tanto como os tintos, ganham com o tempo em casco. São sempre vinhos de celebração para saborear quase gota a gota. O preço não é caro, é justo!
Dica: elegância pura, textura aveludada, um branco untuoso que se enrola no palato. No final fica-nos uma lembrança que perdura na boca por muito tempo.
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