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Velhos e velhas

Mais as interrogações do que as certezas

Decorreu há uma semana um evento – Vinho da Casa – num dos hotéis com mais charme que existe em Lisboa, o Torel Palace hotel, localizado num ponto privilegiado (Torel) com uma vista panorâmica sobre a cidade. Ali, no fim de semana de todas as decisões, entre futebol, eurovisão e eleições, decorreu, organizado pela a empresa Out of Paper, um evento vínico que juntou boa parte da “nata” dos produtores nacionais, mais precisamente 20, com animação durante 3 dias. Foram vários os momentos, quer vínicos quer gastronómicos que ali tiveram lugar. Estive presente num deles, uma masterclass conduzida por Dirceu Viana, brasileiro residente em Londres e, até agora, o único Master of Wine de língua portuguesa e que terá, em breve, a companhia do “nosso” Tiago Macena.

O tema em análise eram as vinhas velhas e os vinhos velhos. Parece simples e óbvio mas é assunto onde a controvérsia está instalada e veio para ficar. Porquê? Porque, ainda que se assuma que é das vinhas velhas que vêm as uvas que originam os melhores vinhos, tal não é linear, como Dirceu bem exemplificou: uma das colheitas míticas em Bordéus e considerada uma das melhores do séc. XX – 1961 – resultou de vinhas que tinham sido plantadas meia dúzia de anos antes, em virtude da devastadora geada que, em meados de 50, matou praticamente todos os vinhedos da região. Ora, seguindo o nosso raciocínio, os tais vinhos não deveriam ser assim tão bons, já que as vinhas eram novas. No lado oposto da questão, uma vinha não é boa por ser velha; pode ser ou não. Então em que ficamos?

Vamos a um outro caso: actualmente em algumas regiões, como o Alentejo ou o Douro, valorizam-se as vinhas velhas que têm muitas castas plantadas, chegando a números astronómicos que ultrapassam as 50 variedades numa única parcela. Se voltarmos a Bordéus, por lá o que mais se usa nos tintos é Cabernet Sauvignon e Merlot, em combinações múltiplas, acrescidas depois com as castas de tempero, como Cabernet Franc, Malbec ou Petit Verdot. Ora isto vem complicar tudo: muitas ou poucas castas para incluir no lote? E será que os vinhos só chegam a velhos e com saúde se resultarem dessas vinhas velhas ou uma coisa não tem a ver com a outra? Pois é, o assunto não tem resposta única e, como se diz no meio, o que é mais importante é a localização da vinha e a sua interacção com o solo e o clima, ou seja, o tal conceito de terroir. Esse conceito é determinante em algumas regiões, como a Borgonha, onde parcelas que ficam a poucos metros de distância umas das outras originam vinhos diferentes, ainda que usando a mesma casta. Parece inverosímil mas é verdade.

Na sessão foram provados alguns vinhos velhos: brancos Redoma 1996 e Julian Reynolds Arinto 2007, e tintos CV 2015, Vallado Vinha da Granja 2015, Júlio B. Bastos Alicante Bouschet 2015, Legado 2012 e Porto Quinta do Noval Nacional 2003. Todos os vinhos estavam em excelente forma, alguns ainda novos (CV, Legado, Vallado, Julio Bastos), um surpreendente Arinto alentejano já com boa idade e dois vinhos desarmantes pela excelsa qualidade, o Redoma 96 – entre redução e aromas terpénicos, tudo notável – e o Noval Nacional 2003, com uma riqueza aromática desarmante. Estes ficarão na memória por muito tempo.

Voltando às vinhas velhas, e tomando como exemplo alguns dos extraordinários vinhos que temos entre nós, podemos concluir que, para além do terroir, é a forma como se cuidam e se tratam as (poucas) uvas dessas vinhas que podemos falar de grandes vinhos. E não estragar e fazer bem tem muito mais ciência do que se imagina.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Vinhas do Cardido branco 2024
Região: Vinho Verde
Produtor: J. Portugal Ramos
Castas: Loureiro e Alvarinho
Enologia: João Portugal Ramos
PVP: €8
Este vinho é o resultado de uma parceria entre J. P. Ramos e o Paço do Cardido, situado no vale do rio Lima, por excelência a região da casta Loureiro. Este duo de castas tem vindo a ganhar cada vez mais adeptos.
Dica: intensos aromas verdes e citrinos, muita frescura estival. Acidez marcada faz dele vinho para a mesa, a pedir marisco.

Quinta de Lemos Tinta Roriz tinto 2016
Região: Dão
Produtor: Quinta de Lemos
Casta: Tinta Roriz
Enologia: Hugo Chaves
PVP: €17,90
A casta é amada ou odiada no Dão. Segundo o enólogo, o local onde está a vinha é determinante; melhor em solos pobres e bem arejados.
Dica: tinto robusto, a lembrar a Ribera del Duero, especiado e com boa barrica. Muito prazer a beber agora mas aconselha-se a guarda de algumas garrafas em cave.

Quinta do Noval Reserva tinto 2022
Região: Douro
Produtor: Quinta do Noval
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa e field blend
Enologia: Carlos Agrellos
PVP: €62
A quinta situa-se no vale do Pinhão e é uma das propriedades emblemáticas da região. A empresa também adquiriu a quinta do Passadouro.
Dica: concentrado e rico de aromas e sabores, com uma inesperada tonalidade macia na boca, taninos guardados e boa acidez, o que facilita muito a prova desde já.

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