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Gostamos mesmo é de beber…

E não estamos sozinhos

Já se sabe que somos grandes consumidores de vinho, mesmo dos maiores no consumo per capita a nível mundial. Estamos então a falar de um pouco mais de 52 litros/ano por pessoa acima dos 15 anos. Para nos defendermos da acusação de “bebedolas” costumamos avançar com o elevado número de turistas que nos visitam e que ficam encantados com os bons vinhos a baixo preço, consumindo litros e litros, como se não houvesse amanhã. Creio que é verdade mas, neste tema do consumo do vinho, ou generalizando, do consumo do álcool, não há santos de um lado e pecadores do outro. Por exemplo, recordo-me de noruegueses com quem em tempos falei deste tema, e que me disseram que, por lá, muita gente faz destilações em casa.

Qualquer fruta ou tubérculo que tenha açúcar é o suficiente para que se consiga fazer um destilado. É claro que nada disso entra nas estatísticas e o baixo consumo “oficial” é assim totalmente deturpado pela realidade. Por cá não estamos melhor. Quem se passear pelo campo, no Minho mas não só, vai encontrar parreiras que fazem sombra aos terraços e que são, não raramente, de uva morangueira, a tal que é a mais amiga do lavrador, já que não requer que com ela se gaste um tostão por ano. É deixá-la sossegada e depois vindimar. A lei – no caso o Dec. Lei 94/2012 – autoriza que cada lavrador possa produzir até 1000 (mil!!!) litros de vinho por campanha, sem que dele tenha de dar conta às entidades certificadoras ou outras, desde que se destine a autoconsumo; não tem de dizer que castas usou (aqui a morangueira é rainha…), como foi feito e se cumpre regras, é tudo à vontade do lavrador. Apenas a uma regra se obriga: não pode vender, não pode colocar esse vinho no mercado, apesar de ser “do lavrador”.

O legislador esqueceu-se que uma lei destas é perfeita para ser torneada e este é tema que não tem como ser científico: não sabemos quanto se faz, quem faz, como se consome, se é para dar ou para vender pela porta do cavalo em garrafões manhosos. A mil litros por produtor, qualquer coisa como 3 litros por dia, é caso para dizer que os 52 litros que nos cabem no consumo per capita dão vontade de rir. E se a polícia da operação stop tentar indagar de onde vêm aqueles garrafões que se levam no carro, é sempre a história de um amigo que deu, que ofereceu, que foi generoso. O consumidor lá vai, todo contente para casa com o vinho “do lavrador”, alimentando assim esse que é um dos maiores “mitos rurais” que temos em Portugal: o produto genuíno, não contaminado pela ciência e pela modernidade e que nos faz regressar a um passado rural que, em gerações anteriores, quase todos tivemos.

A fórmula é “ir à terra”, buscar batatas, umas couvitas, uns limões e uns garrafões de “pinga do melhor”. Ficamos de bem com a nossa consciência, sem qualquer preocupação com o que levamos na bagageira. Também é verdade que uns litros de morangueiro não nos farão mal algum mas, a distância entre “aquilo” e um grande vinho é enorme. Acontece então que o tal consumidor, depois, não consegue entender que lhe queiram fazer passar um vinho de €8 como sendo uma coisa boa, quando ele comprou um garrafão de 5 litros por €5, sem papel, sem factura, só com o prazer de ter uma referência rural para consumir no dia a dia. Este é um fenómeno português? Nem pensar! Recentemente na Bulgária, a autora do guia de vinhos local disse-me que por lá a produção para autoconsumo é brutal e distorce todas as estatísticas. Entre os dados oficiais e a realidade há assim uma grande distância.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Costa Boal Chardonnay branco 2023
Região: IGP Duriense
Produtor: Costa Boal Family Estates
Casta: Chardonnay
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €25
Este branco, feito com uvas de altitude, fermenta em inox e termina depois nas barricas onde permanece por 8 meses. Foram produzidas 2000 garrafas. Moderado no grau alcoólico (12,5%).
Dica: com os aromas de barrica em evidência, destacam-se também as notas de maçã verde e leve floral. Gordo no palato mas com boa acidez. Para pratos com molho de natas ou maionese.

Churchill Estates Grafite Grande Reserva branco 2023
Região: Douro
Produtor: Churchill Graham
Castas: Rabigato, Viosinho e Gouveio
Enologia: Ricardo Nunes
PVP: €41,50
As uvas vêm de cotas altas, gerando mostos com mais acidez. Fermentou em barricas de 500 litros onde ficou um ano com batonnage.
Dica: grande pureza de fruta, madeira superiormente inserida no conjunto; resulta brilhante, requintado, a revelar trabalho muito profissional de vinha e adega. Para apreciadores de grandes brancos (que cada vez temos mais).

Musgo branco 2024
Região: Dão
Produtor: João Cabral Almeida Vinhos
Casta: Encruzado
Enologia: João Cabral Almeida
PVP: €15
Após a fermentação em inox estagia sobre borras finas em barrica nova e usada.
Dica: muito citrino e verde nos aromas, jovem e para beber novo. Pela harmonia que revela também na boca será um sucesso à mesa.

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