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De repente estamos tramados

E à espera de melhores dias

Vender vinho é difícil e é também um negócio de oportunidade. Por vezes estamos no verde e tudo corre sobre rodas mas de repente parece que o céu desaba. Com a avalanche de turistas em Portugal, todos acreditámos que estava encontrado o maná que nos iria levar ao Céu; restaurantes foram abrindo como se não houvesse amanhã, os vinhos escorriam por entre pratos de fusão disto e daquilo, com pairings desconjuntados e abstrusos. É quando as coisas correm mal que afinal confirmamos aquilo que já se desconfiava: a restauração procurou ganhar “nos bebes” o que não conseguia ganhar “nos comes” e os preços apareciam nas cartas a preços, no mínimo, indecorosos, para não dizer pornográficos.

Isto vulgarizou-se de tal maneira que há três semanas até fiquei espantado quando, num restaurante de bairro (Benfica), onde se come muito bem e onde ao domingo o cozido atrai famílias inteiras, me pediram por uma garrafa de Esteva, “apenas” €14. Estamos tão habituados a observar preços escandalosos que nem nos apercebemos que, neste caso, o restaurante marcou cerca de 400% de margem sobre o preço que o Esteva lhe custou; é muito mas…é razoável, uma garrafa para dois e ninguém se sente roubado. Penso que há aqui dois equívocos que também ajudam a perceber porque fecharam mais de 1000 restaurantes em 2025: o equívoco do menu e o equívoco dos vinhos. No caso do menu, é óbvio que, se o restaurante quer servir apenas lombo de vaca e peixe de luxo (e com o desperdício que tem), não pode pedir barato. No entanto, quem, como eu, frequenta mercados mais de uma vez por semana, sabe que continua a haver peixe barato (ou a preço aceitável, pronto…), muito fresco e de excelente qualidade. E o mesmo se passa com a carne de capoeira, o pato é barato, o coelho também e mesmo a galinha do campo é muito acessível, tal como são, as codornizes e os miúdos de vários bichos.

A lista é grande o nosso receituário é rico mas é preciso assumir que devemos defender o nosso património gastronómico em vez de andarmos a inventar fusões que não são mais do que confusões. Todos os novos espaços que abrem têm um conceito que é sempre “muito original”, mas que depois se verifica que não tem a aceitação que se imaginava. E, se alguém pensou que ao cobrar caro pelos vinhos o negócio se salvava, deu-se mal com a ideia porque hoje bebe-se menos, para não dizer muito menos. Para reactivar o negócio o método tem de ser o contrário do que se pratica actualmente, em que, nos restaurantes que servem vinho a copo, se paga por um copo mais caro do que o preço da garrafa. Mesmo que se divida uma garrafa por 4 copos (o que é bem servido), se a casa cobrar €2 por copo já ganha, voltando ao Esteva, quase 3 vezes mais do que a garrafa custou.

Sabemos todos que os restaurantes estrelados, e que ficam nas zonas mais ricas e nobres da cidade, têm custos astronómicos, desde a renda ao pessoal altamente especializado. Mas também sabemos que, na maioria das cartas de vinhos dos “outros” restaurantes, se assume que o consumidor está disposto a pagar muito mais do que é aceitável por uma garrafa. E o que é ainda mais incompreensível é que, neste ambiente meio deprimente, existam produtores que “acham” que o seu vinho tem de custar €80 ou €100. Mas em que mundo é que estamos? Peguem no carro, atravessem a fronteira e vejam o que se passa do lado de lá. No mínimo, ficamos envergonhados…
Quem sabe, os acordos com o Mercosul e a Índia ainda vão salvar o negócio, facilitando transacções e diminuindo taxas alfandegárias. Quem sabe…

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta da Perdonda Talhões branco 2022
Região: Dão – Serra da Estrela
Produtor: Quinta da Perdonda
Castas: misturadas (Barcelo, Bical, Fernão Pires, Uva Cão, entre outras)
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €25
Vinha plantada em 1948 a 650 m altitude. Fermenta em cuba de cimento, estágio 18 meses (dois invernos) sobre borras. Feitas 2500 garrafas.
Dica: a quinta tem também um topo de gama, Branco da Estrela. Este mostra-se carregado na cor, resinoso no aroma, com perfil evoluído mas com excelente acidez. Claramente um branco de inverno.

Reserva do Comendador tinto 2020
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Adega Mayor
Castas: Alicante Bouschet, Touriga Nacional e Syrah
Enologia: Carlos Rodrigues
PVP: €25
A Adega Mayor integra o Grupo Nabeiro, que inclui o “gigante” Delta Cafés. As vinhas ficam em Campo Maior. Tem enoturismo.
Dica: combinação bem conseguida entre a concentração da cor, a estrutura robusta e a frescura da prova de boca, resultando muito atractivo e gastronómico.

Assobio tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Murças
Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa e Tinta Roriz
Enologia: equipa dirigida por J. Luís Moreira da Silva
PVP: €6,95
A quinta situa-se ente a Régua e o Pinhão. As vinhas de onde provêm estas uvas estão viradas a norte e a cotas altas, o que gera um vinho mais fresco.
Dica: ligeiro na cor, leve no aroma, preponderância da fruta fresca, sem retoques de madeira. Intensamente gastronómico, para beber já.

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