Passando pela Austrália, claro À sombra da fama que os seus vinhos foram adquirindo, a…
Só para crentes
Parece que a ciência não explica tudo
A música faz bem à alma. Esta é uma certeza antiga ainda que este conceito tenha muitas leituras e os diferentes géneros agradem também a públicos diferenciados. Também sabemos que muitos animais são igualmente sensíveis a alguns tipos de música mas, inesperadamente, parece que com as plantas também poderá ser assim e, em especial, com a vinha. Expliquemo-nos: no sudoeste francês está em marcha um movimento que procura contrariar com música uma das doenças mais gravosas para a vinha, a esca. É uma doença de lenho, ou seja, o ataque é feito, não às uvas ou folhas, mas sim à parte lenhosa da videira. Planta infectada está condenada e só o arranque e queima resolve.
Para tudo agravar, percebeu-se que, no acto da poda, a tesoura que corta esta planta irá infectar a próxima. Um sarilho e tanto, como se imagina. O tal movimento, liderado por Guillaume Vaysse, instalou nas vinhas caixas que emitem sons melodiosos, em média, 20 minutos por dia. Resultado? Queda da mortalidade das plantas em 79%. Acredita-se que há frequências sonoras que interagem com os aminoácidos, ajudando ao seu fortalecimento e vigor e diminuindo a acção do minúsculo cogumelo infeccioso. Consta que há cada vez mais produtores da região a seguirem o método. Fézada, é o que se pede…
A utilização de ambientadores sonoros na vinha está também a ser usada para o combate em outras situações: o míldio e a flavescência dourada, duas desgraças muito presentes em todo o lado, Portugal incluído. No Domaine Petit Chaumont (Camargue), foram instaladas caixas que emitem sons três vezes por dia, 5 minutos de cada vez. Diz a produtora que a música estimula as defesas da planta. Para já, o site da empresa é omisso quanto a estas práticas. Consta que 150 produtores já terão instalado 300 caixas de música! Mais fézada.
Toda a viticultura assenta num conjunto de castas da família vitis vinifera; as espécies americanas, como vitis labrusca, vitis riparia ou vitis rupestres originam vinhos que, genericamente, se englobam na designação “vinho americano” ou “vinho de produtor directo”. As vinhas destas variedades têm uma vantagem enorme sobre as vinifera: são resistentes às doenças da vinha, não há míldio ou oídio que as ataque e, para o lavrador, é um sonho: poda-se e espera-se, sossegadamente, pela data da vindima. Custo? Zero! Percebe-se assim que tenha tantos adeptos. Mas, como “não há bela sem senão”, a uva americana gera vinhos com um nível de metanol que pode ser altamente prejudicial à saúde, podendo, no limite, gerar cegueira. Ora, vem isto a propósito das recentes investigações sobre hibridação que sugerem que, face à capacidade de resistência daquelas variedades de uva, há que estudá-las bem em vez de as demonizar. O facto de serem americanas alimentou os que achavam que daquele lado do mudo não viria nada de bom, como Rudolph Steiner, o fundador da biodinâmica.
O regresso a um melhor conhecimento e estudo das castas híbridas pode ser muito benéfico, uma vez que, em vinhas de vitis vinifera não raramente, o número de tratamentos fitossanitários ultrapassa a dezena. E há quem afirme que a “expressão do terroir” é bem mais evidente se se usarem castas não enxertadas. Discussão em cima da mesa, preconceitos e ideias-feitas de lado, o futuro da vinha ainda é um livro aberto.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Dona Maria Arinto Reserva branco 2022
Região: Alentejo
Produtor: Júlio Bastos
Casta: Arinto
Enologia: Sandra Gonçalves
PVP: €17,90
Tem origem em Estremoz, em terrenos argilo-calcários. O mosto fermentou em barricas novas. Graduação moderada de 12,5% de álcool.
Dica: citrino nos aromas, gordo na boca mas com boa vibração ácida. Pede pratos com molho de manteiga ou maionese. Sempre uma boa aposta.
Reguengos Garrafeira dos Sócios tinto 2021
Região: Alentejo
Produtor: CARMIM
Castas: Alicante Bouschet, Aragonez e Cabernet Sauvignon
Enologia: Rui Veladas
PVP: €29
O tinto Garrafeira dos Sócios teve a primeira edição em 1982. Está disponível em vários formatos. Teve estágio de 18 meses em barrica nova.
Dica: muito apelativo, excelente na qualidade e no perfil, denso mas sem perder a elegância. Uma edição muito conseguida.
Ramos Pinto Quinta Bom Retiro Porto Vintage 2023
Região: Douro
Produtor: Ramos Pinto
Castas: várias
Enologia: Ana Rosas
PVP: entre €75 e €85
Está agora a começar a ser comercializado. A edição do Vintage Bom Retiro pode, ou não, coincidir com o Vintage Ramos Pinto. Em 2023 este será o único lançado. 8600 garrafas produzidas.
Dica: fruta deliciosa no aroma e no sabor, textura gorda, é um vintage para mastigar mas com um fundo de grande afinação na frescura, cinzelado, aprimorado.
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