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Vinhas de família, champanhes de associados

Há que não deixar fugir as oportunidades

As três sugestões desta semana merecem conversa porque são projectos com identidade, característica que, diga-se, não tem necessariamente de ser um exclusivo familiar. Se começarmos pelo champanhe, a marca Mailly tem muita história: trata-se de uma associação de produtores (58) que assumiu o nome da aldeia, foi criada em 1929 e, de então para cá, apenas aceitou dois novos parceiros; controla 75 ha de vinhas Para o consumidor, orientar-se no universo Champagne é uma odisseia porque as marcas se contam aos milhares, desde os vinhos de pequenos produtores até às marcas mais famosas. A principal distinção de qualidade faz-se pela classificação que ostentam: Grand Cru ou Premier Cru, correspondendo estas designações a zonas (aldeias) específicas da enorme região champanhesa.

São 17 as que têm a designação Grand Cru; à falta de conhecimento sobre o produtor ou a marca, esta é já por si uma indicação de que estamos perante um produto de grande qualidade. Mais duas características a ter em conta: a grande maioria dos champanhes são comercializados sem data de colheita e resultam de um lote de vinhos de várias colheitas; só nos melhores anos sai com data, significando isso que se trata de um produto de superior qualidade, ainda que não seja, por isso, necessariamente melhor; a terceira característica tem a ver com as uvas que entram no lote: Blanc de Noirs indica-nos que foi feito com uvas tintas vinificadas em branco, e Blanc de Blancs feito apenas com uvas brancas, no caso, Chardonnay. Do portfólio Mailly escolhi um Blanc de Noir, de que gostei especialmente, com um preço que (atendendo a que se trata de um Grand Cru) se pode considerar ajustado.

A Herdade Grande é um “velho” clássico da Vidigueira, que contribuíu, desde os anos 90, para a valorização da Antão Vaz, a casta mais importante daquela zona alentejana. António Lança, agora com a ajuda da filha Mariana e o apoio técnico de Diogo Lopes, mantém viva a chama dos brancos da zona, dando com frequência à Antão Vaz o apoio de outras variedades, como aconteceu no vinho de hoje. A inovação também aqui chegou, com tintos de Sousão e Tinta Miúda. Durante anos foi um ganhador crónico dos prémios para vinhos brancos e hoje, apesar da concorrência, continua a mostrar uma enorme consistência de qualidade. Em prova recente voltei a provar a 1ª edição, de 1997, carregado na cor mas ainda com acidez perfeita e a dar muito boa conta de si. Nesse vinho entravam também castas como Assario (que voltou a ser plantada) e Rabo de Ovelha e Perrum, entretanto descartadas.

A casa de Ronfe fica em Lousada. No coração de um bosque cerrado, digno de classificação como património florestal, fica um palacete barroco que a família Rosas e Nicolau de Almeida soube preservar e melhorar, conservando o charme que só as velhas habitações têm. Ali, Fernando Nicolau de Almeida deu largas à sua veia artística, com desenhos e pinturas cheias de humor que a família conserva, digamos, religiosamente. A vinha, antiga mas restaurada, está hoje cheia de vida e ali se aposta, contra ventos e marés, na casta Trajadura, variedade ibérica à qual, durante anos e anos, apenas se reconheceu mérito para ser companheira, quer da Loureiro quer da Alvarinho, dizia-se, para amaciar a acidez das outras castas. Aqui tem, por teimosia de João Nicolau de Almeida e filhos, um protagonismo que já faltava na região. Recorde-se que Lousada fica no vale do Sousa, onde pontifica, como marca de relevo, a Arinto. Com bom gosto e sem alinhar em modernismos baratos, conservou-se aqui o rótulo que o vinho tinha quando a marca foi lançada em 1935.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Herdade Grande branco 2024
Região: Alentejo – Vidigueira
Produtor: António Lança
Casta: Antão Vaz, Roupeiro, Viosinho e Verdelho
Enologia: Diogo Lopes
PVP: €10,50
Deste branco fazem-se 25 000 garrafas mas o objectivo é chegar às 50 000. É um branco sem madeira, o que lhe mantém a vibração.
Dica: com este equilíbrio entre aroma e sabor, temos branco muito polivalente à mesa e seguramente muito consensual. Estival? Pois claro…

Ronfe branco 2025
Região: Reg. Minho
Produtor: Nicolau de Almeida
Casta: Trajadura
Enologia: Nicolau de Almeida
PVP: €16
Este é, para já, o único vinho que a quinta produz. O produtor tenciona fazer um tinto na próxima vindima. O rótulo é reprodução exacta do original da 1ª edição. Foram feitas 5604 garrafas.
Dica: este é um Verde intensamente gastronómico, com a acidez num patamar de bom equilíbrio com o corpo. Original, merece prova atenta.

Champagne Mailly Grand Cru Blanc de Noir
Região: França – Champagne
Produtor: Mailly (Importador: Ivin)
Casta: Pinot Noir
PVP: €75
A designação passará, no futuro próximo, a ser Blanc de Pinot Noir. A base é da colheita de 2019 e depois é feito o blend com Vins de Réserve (neste caso cerca de 30%).
Dica: um champanhe cheio de carácter, sério, com imensa qualidade e que será perfeito companheiro à mesa.

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