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Arménia primeiro, Douro a seguir

E tudo terá começado aqui

Parte desta crónica foi escrita em Yerevan, capital da Arménia, onde decorreu a sessão de brancos e tintos do Concurso Mundial de Bruxelas. Foram três dias de provas em que mais de 320 provadores de 56 nacionalidades avaliaram 6 700 vinhos. A este número há que acrescentar os 1000 espumantes, provados em concurso autónomo que também teve aqui lugar. As amostras chegaram de 51 países. A Arménia, antiga república soviética, é um pequeno país e arménios são cerca de 10 milhões, sendo que 7 milhões são emigrantes. A capital tem cerca de um milhão. O país é agrícola, produz sobretudo três frutas: uvas, alperces e romãs. A produção de alperce é de tal maneira importante que a cor do fruto está presente na bandeira tricolor do país.

Este Estado está “entalado” entre a Turquia, a Geórgia, o Azerbeijão (com quem mantém diferendo não resolvido) e, a sul, o Irão. As montanhas marcam a paisagem e foi em grutas destas montanhas que se descobriu aquela que é considerada a mais antiga adega pensada para a produção e conservação de vinho em potes de barro. Estamos então a falar de, entre 4500 e 5500 anos, conforme as fontes. Na mesma zona montanhosa, onde no horizonte se destaca o famosíssimo monte Ararat que, do alto dos seus mais de 5000 metros, há ainda tantas grutas por explorar que, dizem-nos, é provável que mais achados se venham a revelar interessantes. País vinícola, 13 000 ha de vinhedos em altitude (dos 400 aos 1800 m), e cerca de 400 castas autónomas, “todas por conhecer, por trabalhar, por investigar”, como nos informaram, e todas as castas em pé-franco que “aqui não houve filoxera”. Deste manancial, são usadas cerca de 55 variedades. Em época recente foi reavivada a produção de brandy, muito antiga na região (desde 1887). A visita à adega onde há barricas com brandy a envelhecer, mostra-nos também que mesmo para este tipo de produto (mal-amado em época de fúria anti álcool), é possível ter instalações com grande intenção didáctica: as aduelas e as suas diferentes queimas, as tonalidades do destilado de acordo com o estágio, os produtos de diferentes idades, até aos 20 anos. Foi-nos dado a provar um com 7 anos, muito limpo, muito bem trabalhado e, para a idade, muito bom. Ali estavam, como seria de esperar, as fotos da visita à adega de Charles Aznavour, ele próprio arménio. Não encontrámos, falha nossa de certeza, referências a Gulbenkian, um arménio que nos fez tão bem.

Um concurso deste tipo traz sempre boas surpresas e alguns desgostos. Desde o grupo de brancos que faziam lembrar Vinhos Verdes e que afinal eram Chardonnay Vin de France (sem Denominação de Origem), até tintos xaroposos e pesados, a recordar-nos que no México ainda se fazem coisas destas tão pouco interessantes. Num dos painéis calhou-me uma série de tintos portugueses, entre eles uns quatro Verdes tintos, a que o painel de 5 provadores achou graça e pontuou bem; estavam bem-feitos e o ligeiro gás foi compreendido por todos, o que ajudou. Com estadia marcada para o Douro em 2027, vamos seguir com atenção a organização, uma vez que estes mais de 300 provadores deverão ser cuidadosamente distribuídos em termos de programa social, que inclui visitas, provas temáticas e almoços em quintas. A experiência do concurso realizado em Guimarães, e que decorreu com demasiados altos e baixos, deverá servir de exemplo.

 

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta do Quetzal Arte branco 2024
Região: Alentejo (Vidigueira)
Produtor: Quinta do Quetzal
Castas: Antão Vaz, Arinto e Roupeiro
Enologia: José Portela
PVP: €19,60
Esta quinta, por gosto dos proprietários, tem uma ligação muito forte à arte contemporânea. Nesta edição foi introduzida a casta Roupeiro em substituição da Verdelho.
Dica: notas mentoladas, ligam-se à tosta da barrica, resultando gordo mas com excelente acidez. Um branco rico, cheio onde a elegância não se perde.

Irregular branco 2025
Região: Alentejo (Redondo)
Produtor: Pé de Vinha
Casta: Roupeiro, Rabo de Ovelha, Manteúdo e Perrum
Enologia: Joana Pedrosa
PVP: €17,50
É um projecto novo, familiar. Vinha antiga, de sequeiro. Estas são castas tradicionais e antigas, cada vez comais raras nos actuais lotes. Produção de 1160 garrafas.
Dica: branco com personalidade, sem facilitar, aroma contido mas rico na fruta. Palato confirma esta impressão, redondo, macio, com boa acidez. Tudo no ponto.

FSF tinto 2018
Região: Reg. Pen. Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Castas: Syrah (70%), Trincadeira (26%) e Tannat
Enologia: à época, Domingos Soares Franco
PVP: €38,90
Imagem renovada deste tinto de homenagem a Fernando Soares Franco. Feito em lagares e estágio de 9 meses em barrica.
Dica: Concentrado, rico na cor e nos taninos, um tinto para pratos de bom tempero mas também para a cave, onde continuará a evoluir.

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