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Do Rhône para o mundo

Passando pela Austrália, claro

À sombra da fama que os seus vinhos foram adquirindo, a França viu as suas castas serem levadas para o Novo Mundo, onde o povoamento foi feito por emigrantes europeus, frequentemente em conflito com os que já lá estavam. Tanto podemos falar das américas (de norte a sul), da África ou da Austrália. Eram terras sem vinhas, exceptuando-se a costa norte da África onde a vinha existia desde o tempo dos romanos. Os colonos levaram consigo as varas das cepas europeias. Variedades locais também existiam na América do Norte e foi de lá que elas vieram para a Europa para combater a filoxera. Os colonos levavam o que havia nas vinhas do velho continente e dessa viagem há muitas estórias e peripécias. Por exemplo, para o Chile foram levadas cepas francesas que, nos inícios do séc. XIX, foram lá plantadas em pé-franco, que era o método usado antes da filoxera; essa prática ainda se mantém no Chile. O que se levou? O óbvio: Cabernet Sauvignon, Chardonnay, Merlot, Cabernet Franc, Sauvignon Blanc.

Foi preciso chegar aos anos 80 do século passado para se perceber que aquilo que os chilenos achavam que era Merlot, afinal era Carmenère (já residual em França), casta aparentada mas distinta, e que virou a “bandeira” do país. E, quanto a “bandeiras” da América do Sul, teremos sempre de referir a Malbec (Argentina) e Tannat (Uruguai). Para a África do Sul houve viagem idêntica, tendo aí sobressaído a Chenin Blanc (casta do Loire); e para a Austrália/Nova Zelândia, idem, idem, onde acabou por brilhar a Syrah, localmente grafada com Shiraz, casta nascida nas Côtes-du-Rhône e hoje espalhada por todo o mundo. Em quase todos os novos destinos, as castas portaram-se melhor do que no país de origem. Ora, como se imagina, a mesma casta (e os seus múltiplos clones) em solos e climas diversos originam vinhos distintos. Foi também o que aconteceu em Portugal, sobretudo nas regiões que mais replantios tiveram a partir dos anos 80, como Alentejo, Tejo, Setúbal e Lisboa. E foi assim que variedades como a Petit Verdot ou a Syrah ganharam muitos adeptos no sul do país, de que é bom exemplo vinho que hoje sugiro.

Ora, se Portugal tem cerca de 250 castas autóctones, pode-se questionar o que fazem cá as castas estrangeiras. Será que precisamos delas? A resposta é nim! Com tanta escolha, é verdade que não precisamos, mas, dizem os produtores, castas como a Syrah mostraram uma boa adaptação ao nosso solo e clima, gerando, consistentemente, vinhos de boa qualidade; ora, boa qualidade ano após ano é o sonho de qualquer produtor e, acresce outro pormenor, são vinhos mais bem aceites, sobretudo nos mercados externos. Esta é a realidade e, ao lado da Syrah “navegam” a Viognier, a Sauvignon Blanc, só para citar alguns exemplos. De resto, a mesma questão se pode colocar na expansão enorme da Touriga Nacional que, do norte, se estendeu a todo o país. Cada região deveria cultivar o que mandava a tradição e apenas isso? Talvez, mas as castas são por natureza viajantes e a boa vontade nem sempre liga bem com o negócio. Se a Syrah é um bom argumento de venda, o que se vai fazer?

O bom-senso indica que, ao lado destes vinhos (que são os que pagam as contas), o produtor consciente/tradicionalista, deverá continuar a fazer vinhos com as velhas castas que herdou. Vendem pouco? Há pouca procura? São difíceis de comunicar? É tudo verdade, mas temos de ter a coragem de prosseguir com o que nos distingue. Não para pagar contas, mas para celebrar a história.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Quinta da Fonte Souto Syrah tinto 2021
Região: Alentejo
Produtor: Quinta da Fonte Souto
Casta: Syrah
Enologia: Charles Symington/Pedro Correia/ José Daniel Soares
PVP: €28,50
A quinta fica na serra de São Mamede (Portalegre). Este foi o primeiro projecto Symington fora do Douro. O vinho estagiou um ano em barrica de segunda utilização. 6000 garrafas produzidas.
Dica: austero e ainda fechado, tem, no entanto, um carácter intensamente gastronómico. A prova é fácil, o polimento no palato é muito atractivo.

Quinta de Santo André Reserva tinto 2021
Região: Reg. Tejo
Produtor: M. Veiga Teixeira
Castas: Petit Verdot, Syrah e Cabernet Sauvignon
Enologia: Rui Reguinga
PVP: €7,95
A quinta está na posse da família desde o séc. XIX. Após algum brilho durante a década de 90, os vinhos estão agora a ressurgir, por iniciativa da 5ª geração. Vinhas nas margens do rio Sorraia.
Dica: os clássicos aromas apimentados do Cabernet dão ao vinho muito carácter. Este é fácil de adivinhar e ainda mais fácil de gostar. Preço muito conveniente.

Bons Ares branco 2024
Região: Reg. Duriense
Produtor: Ramos Pinto
Castas: Sauvignon Blanc, Rabigato e Viosinho
Enologia: João Luís Baptista
PVP: €11,30
Vinhas no Douro Superior a 600 metros de altitude. Este vinho criou um estilo e ganhou imensos adeptos, fiéis até hoje. Caso invulgar de branco absolutamente consensual.
Dica: combinação de grande nível entre as notas mais verdes do Sauvignon Blanc e a fruta citrina, bem enquadrada pela madeira onde cerca de 10% do vinho fermentou. Excelente trabalho de precisão, da vinha à garrafa.

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