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Não lhe chamemos elevador da glória que seria de mau gosto…

Mas o caminho é (mesmo) tortuoso

Neste tema, mal comparado e sem fazer referência ao recente desastre, o vinho tem também um caminho, um percurso que, tanto pode ser da glória (muito raramente) como da desgraça (mais vulgar). Eu, que até estudei música no Bairro Alto, subi vezes sem conta naquele elevador; umas vezes nele e, outras, com ele, já que eu e mais uns quantos, em altura de fracas finanças, subíamos a calçada agarrados ao aparelho. O passo era estugado mas chegávamos lá acima sem ter de pagar bilhete. Sempre me lembro que, chegando lá acima, dávamos de frente com o Solar do Vinho do Porto, um dos locais onde me iniciei na apreciação do néctar. Sem que hoje tenha explicação plausível, lembro-me que, naquele ambiente meio cerimonioso, eu pedia um Porto branco. Apesar de pouco dinheiro para gastos extra, arranjavam-se sempre uns quantos comparsas para ir ao Porto do Solar. Voltemos ao tema da ascensão no sector.

O que temos assistido nos últimos anos é, no mínimo deprimente, ainda que inevitável. Tudo começa normalmente com um projecto individual ou de família, que se monta com tremenda dificuldade, com enorme investimento e com imensa ambição. Se montar o projecto já não é fácil, fazê-lo crescer é tarefa hercúlea. Fazer vinhos pode ser o mais simples se compararmos com as restantes tarefas: comunicar o produto, vendê-lo e receber o produto da venda. Vamos, no entanto, pelo lado optimista, e acreditemos que tudo corre pelo melhor – até se vende bem, conseguiram-se alguns mercados externos interessantes, a reacção da imprensa foi boa, há pedidos para aumentar a produção, tudo a correr sobre rodas; até parece que o céu é o limite e a glória está ali à mão de semear. Eis senão quando olha-se mais para dentro de casa e surge o desânimo: mas afinal quem é que vai continuar o meu projecto? A quem vou legar a tarefa de continuar a saga deste vinho? Recebi as vinhas do meu pai ou do meu avô e vou deixar isto a quem?

Noutros tempos as famílias tinham muitos filhos e, no meio da confusão haveria sempre alguém que agarrava as rédeas da corrida. No entanto a demografia mudou e nunca sabemos se um dos dois ou três filhos que tivemos, gosta suficientemente da aventura vínica para fazer disto vida. No meu caso só um dos elementos da equação foi cumprido: tenho muitos irmãos mas o meu pai não tinha nenhum projecto de empresa vinícola, tudo se limitava à feitura de uns mil litros por ano, a partir de uvas compradas, pisadas pela canalha miúda em lagar. Dava para um ano e, pronto, não era para fazer negócio. Acredito, no entanto, que será desesperante para um produtor perceber que não se vislumbra no horizonte quem continue o sonho. Sei de uns que venderam tudo em tempo útil por não terem filhos e de outros que, pelo facto dos filhos “estarem noutra” equacionam a venda das vinhas e adegas. A consequência é óbvia: a concentração de propriedade nos grandes grupos ou nas empresas, umas nacionais outras ligadas a fundos de investimento, que, lenta mas paulatinamente, vão tomado conta do sector do vinho em Portugal. Chegar lá acima, mesmo com os cabos intactos, já é difícil mas conservar a “máquina” em movimento sem descarrilar é osso duro de roer. Se calhar o meu pai é que tinha razão!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Casa de Santar Reserva branco 2023
Região: Dão
Produtor: Soc. Agr. Santar
Casta: Encruzado, Arinto e Malvasia Fina
Enologia: Paulo Prior
PVP: €16
Com cerca de 103 ha de vinhas, a marca existe no mercado há mais de 50 anos. Metade do mosto deste branco fermentou em barrica.
Dica: muita harmonia entre aroma e sabor, conserva-se a frescura mas consegue-se um branco texturado e com volume, tudo no ponto.

São Luiz Winemaker’s Collection rosé 2024
Região: Douro
Produtor: Kopke Group
Casta: Tinto Cão
Enologia: Ricardo Macedo
PVP: €22
Este é o topo de gama da empresa no tema dos rosés. A quinta fica entra a Régua e o Pinhão. A casta (clássica) continua enigmática e daí haver poucos varietais. Edição de 7350 garrafas.
Dica: um rosé requintado, um vinho bem elegante que requer bons copos e que pode ser perfeito companheiro de peixe e marisco. Ou, quem sabe, ser consumido a solo.

Quinta da Lagoalva Grande Reserva Alfrocheiro tinto 2023
Região: Tejo
Produtor: Quinta da Lagoalva
Casta: Alfrocheiro
Enologia: Pedro Pinhão
PVP: €30
A vinha tem 50 anos, localiza-se em terrenos arenosos e está em modo de produção bio desde 2020. Foram feitas 1400 garrafas.
Dica: aberto na cor, aroma fino com fruta de qualidade. Muito bem nos aromas de boca, é tinto acessível no estilo, bem desenhado e, seguramente, muito gastronómico.

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