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Tempo de sardinhas

E, por que não, de novas ligações

Chegados ao mês de Setembro, estamos na melhor época das sardinhas. Mais gordas, mais saborosas, maiores e a proporcionarem intensos momentos de convívio, não à volta da fogueira mas do churrasco. Confesso também que, com frequência e sem paciência para churrascos de 2 ou 3 pessoas, acabo por usar um grelhador eléctrico, com resultados bem mais do que satisfatórios. Em relação aos vinhos as opções são muitas e são também as minhas sugestões da semana.

Comecemos pelo espumante tinto: é sempre um vinho difícil mas tem muitos apreciadores (recordo-me do grande sucesso que era o espumante tinto das Caves Aliança, por exemplo) e este é feito com Vinhão, a casta maldita que mais controvérsias gera. Ou gerava, melhor dizendo, porque agora a forma como são feitos os vinhos Verdes tintos – com melhores uvas e mais apurada tecnologia – conseguiu angariar novos consumidores que, há umas décadas, eram ferozes opositores. Tinham razão os do contra, digo eu, porque os vinhos de Vinhão eram ásperos, taninosos, com cor a mais e alma a menos e, dizia-se, era para serem bebidos na malga. Como se diz agora, “nunca foi a minha praia”, mas os tempos mudaram e os tintos de Vinhão são hoje mais bem feitos, mais acessíveis no perfil e mais macios. Os espumantes tintos beneficiaram também desse novo perfil e este que sugiro pode ser bom companheiro para as sardinhas assadas. Ainda assim, difícil e controverso? Pois claro!

Outro tipo de vinhos que podem ajudar nas sardinhadas são os Orange Wines, ou vinhos laranja. São vinhos de curtimenta, mais pesados, mais densos na cor e mais difíceis de contentar à mesa. Creio que com peixes gordos e de sabor forte, poderemos ter aqui um paring interessante. O de hoje não segue à risca a cartilha dos Orange Wines, ou seja, com a fermentação a ser feita com as películas das uvas brancas, mas conseguiu-se aqui um resultado bem original. Quem se chegar a ele de pé atrás terá uma grande surpresa. Os Orange Wines nasceram na longínqua Geórgia, feitos com uvas brancas que fermentavam com as películas em ânforas de barro enterradas na terra. O resultado era um vinho com muito mais cor (alaranjada), mais pesado e mais difícil; ganharam muitos adeptos nos últimos anos, ao lado de outros que se auto-apelidam de “vinhos de pouca intervenção”, os tais que precisam de imensa intervenção para ganharem aquele epíteto. Modas…

O vinho de Campolargo tem um nome curioso porque não associamos a palavra tanino a uvas brancas uma vez que, por norma, as películas são retiradas antes da fermentação. A utilização da Viognier com películas, diz-nos o produtor, levou-o ao nome Tanino Branco, resultando assim mais inesperado. O tanino é um dos compostos fenólicos que está na uva, sobretudo na película e também na grainha. Como por norma as uvas brancas são desengaçadas, o tanino está muito escondido. Os taninos da grainha são dispensáveis porque conferem ao vinho uma aspereza vegetal indesejada. Os da película são mais finos e os da barrica, sobretudo se for de madeira nova, são também muito apreciados. E, recordemos, o tanino juntamente com a acidez são dos elementos mais importantes na longevidade dos vinhos.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Espumante Adega Coop. Ponte da Barca tinto
Região: Vinho Verde
Produtor: Adega Coop. Ponte da Barca
Casta: Vinhão
Enologia: José Antas Oliveira
PVP: €8,50
A casta é tintureira e tem nesta zona uma forte presença. A casta está a ser cada vez mais bem trabalhada e já perdeu muita da rusticidade de outrora
Dica: combina frutos vermelhos com muitas notas vegetais secas; a mousse é boa e tem óptima acidez. Para os adeptos é um grande companheiro das sardinhadas.

Petrichor Single Vineyard Curtimenta 2022
Região: Alentejo
Produtor: J. Portugal Ramos
Castas: Arinto e Verdelho
Enologia: equipa J. Portugal Ramos
PVP: €32
Vinha bio em terras de xisto. Após desengace fermentou em ovos de cimento. A curtimenta resulta da longa maceração (7 meses) pós-fermentativa. Produção limitada de 1912 garrafas.
Dica: apesar da cor, que pode assustar alguns, o vinho não está nem evoluído nem oxidado. É uma grande experiência que mostra muita qualidade e dá grande prova. A repetir.

Campolargo Tanino Branco tinto 2024
Região: Bairrada
Produtor: M. S. Campolargo
Castas: Touriga Nacional (60%) e Viognier
Enologia: Raquel Carvalho
PVP: €12
Fermentou de início em lagar de inox e terminou depois em madeira já usada. Engarrafado em Maio deste ano. O nome liga-se com o carácter rijo das películas do Viognier que também conferem tanino ao vinho.
Dica: aberto na cor, muito jovem de perfil, directo e sem adereços. Algumas notas vegetais ao lado da fruta, dão-lhe carácter estival. A beber mais fresco do que o habitual.

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