Eu e a Joana Marques
Há quem não goste de ser criticado…
Não conheço pessoalmente a Joana embora, quem sabe, possamos ser longinquamente parentes, uma vez que o meu pai também era Marques. Só quando o caso Joana/Anjos se tornou público é que fiquei a saber que tinha sido cantado o hino desafinado numa prova de motociclismo. Não ligo às motas e aos Anjos ainda menos; fico-me pelo Anjo da Guarda que, dizia a minha mãe, me iria proteger. A coisa não tem corrido mal, confesso.
Não sei também se a Joana é apreciadora de vinhos mas temos seguramente um ponto em comum: fomos ambos postos em tribunal por termos exercido a profissão: ela como humorista e eu como crítico de vinhos. Explico: durante muitos anos fiz um guia de vinhos com notas de prova que cobriam toda a produção do país. Ora a enóloga da Adega Cooperativa de Alcanhões não gostou do que escrevi sobre os vinhos que provei e assumiu que se tratava de difamação e atentado à honra. A edição em causa era o guia Vinhos de Portugal 1999 – notas de prova, saído em Setembro de 98. Vejamos o que lá vinha escrito: em relação ao vinho Frades Bentos 1998, dizia: “Tao novo e já oxidado, a cheirar a remédio, será que é normal? Quem é que bebe um vinho destes?” Já em relação ao vinho Cardeal D. Guilherme de 1995, provado em 99: “na prova do ano passado estava à beira da morte. Este ano já tem a certidão passada. Alguém nos explica porque é que se enviam vinhos destas para provas?” E, para terminar, fica o comentário ao Frades Bentos branco 1996: “completamente estragado no aroma, é um vinho perdido. O que se passará para os lados de Alcanhões?”
A queixa chegou à 1ª instância e aí foi considerada sem provimento. O recurso para o Tribunal da Relação teve um despacho datado de 31 de Maio de 2001, a meu favor. Na altura, recordo, correu alguma tinta na imprensa porque não havia muito histórico de críticos serem levados a tribunal por exercerem a crítica. Na conversa de café fica sempre a dúvida: e se se disser que o filme é mau ou um livro é uma desgraça, isso é motivo para quem exerce a crítica como profissão, responder em tribunal? A “falta de histórico” que referi colocava o caso num plano em que o desfecho não era óbvio, iria depender muito do entendimento do Tribunal da Relação. O longo Despacho foi claro, e cito, “O direito de crítica é susceptível de exercer-se em todos os casos em que se admite o direito de opinião, andando-lhe associado” e, mais à frente, “não parece (…) que o autor, ora arguido ultrapasse mais do que a crítica por aquela forma à qualidade dos vinhos remetidos previamente para classificação”.
A meu favor estava a crítica positiva a alguns vinhos da Cooperativa mostrando que nada me movia contra a pessoa da enóloga. Fica a dúvida: se fosse hoje como seria? A proliferação de críticos que as redes sociais promoveram, as prestações muito poucos isentas de uns quantos influencers que recebem dinheiro para dizer bem do que não conhecem, faria com que tudo fosse diferente. Hoje teria o assunto muito mais visibilidade e não faltariam estagiários das Tv’s a indagarem se eu tinha tido um ataque de caspa ou se a enóloga tinha tido afasia. Isto está cada vez mais perigoso com dizia o meu amigo David Lopes Ramos! Resta dizer que fui magistralmente defendido por Isabel Duarte, advogada de muitos jornalistas antes de mim, nomeadamente do Expresso.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Poças Branco da Ribeira branco 2022
Região: Douro
Produtor: Manoel Poças Júnior
Castas: Arinto (65%) e Códega
Enologia: André Pimentel Barbosa
PVP: €54
As castas, provenientes do Douro Superior, são vinificadas em separado, em barrica, e aí estagiam por 10 meses com batonnage. Tem uma graduação muito moderada (12% álcool).
Dica: branco de muita classe, com perfeita proporção entre os vários elementos, requerendo prova atenta. A prova melhora substancialmente com copos largos que permitam libertar aromas.
Vinha do Altar Reserva branco 2024
Região: Douro
Produtor: Wine & Soul
Castas: Viosinho, Gouveio e Arinto
Enologia: Wine & Soul
PVP: €12,95
Vinhas a 600 m de altitude, orientação Norte, o que facilita o lado mais fresco do vinho. Fermentação e estágio em inox.
Dica: vibrante no aroma e acidez crocante na boca, com muita elegância de conjunto e enorme capacidade de se mostrar bom parceiro de pratos leves de Verão.
Herdade do Rocim Vindima tinto 2024
Região: Alentejo – Vidigueira
Produtor: Rocim
Castas: Touriga Nacional, Aragonez e Alicante Bouschet
Enologia: Catarina Vieira e Pedro Ribeiro
PVP: €11,50
Mosto fermentou em balseiro e lagar. O vinho estagiou de seguida 6 meses em madeira. Este lançamento coincide com uma nova imagem que celebra os 18 anos da empresa.
Dica: grande frescura no aroma, com toda a carga de juventude que se espera. Polido, elegante, guloso e de boa acidez, um belo companheiro da mesa.
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