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Das ilhas à Califórnia

O que temos para caminhar…

Regressamos hoje, tal como prometido há semanas, a falar dos vinhos brancos dos Açores, mais importantes que os tintos. A tradição local em tintos remonta ao período pós-filoxera (último terço do séc. XIX), quando foi possível replantar vinhas com cepas americanas imunes ao insecto. Essas cepas, passíveis de serem plantadas em pé-franco, originam vinhos tintos, que genericamente ganharam o nome de vinhos morangueiros. Surgem assim nomes de castas como Isabella, Jaquet, entre muitos outros, e o “vinho de cheiro”, como é conhecido nos Açores, virou elemento de celebração religiosa e culinária.

A fama, no entanto, só chegou com os brancos feitos de castas locais como Verdelho, Arinto dos Açores e Terrantez do Pico. A história dos vinhos do Pico dá um romance, uma aventura colectiva que mobilizou esforços e vontades, nascido com dinheiro dos faialenses e mão de obra dos Picarotos, produzindo uvas em terras secas, sempre com a ameaça atlântica à porta. Hoje ainda se encontram vinhas a pouco mais de 20 metros do mar, implantadas em solos vulcânicos. Quem acreditar em milagres tem aqui material de estudo! Quem não conhece, tem de ir ver para crer. E, ao visitar, vai perceber melhor o conceito de viticultura heróica, termo aplicável a algumas regiões do mundo onde mal se compreende como é possível ali produzir vinhos, como a Ribeira Sacra, na Galiza, pela inclinação do terreno, ou aqui nos Açores, onde olhando o solo, apenas se vê lava seca. A elevada acidez que estes vinhos sempre têm ajudam à longevidade e isso é nítido no vinho “sur lies” que selecciono hoje, incluído no portefólio alargado que a empresa tem no mercado. Juntar vinhos de várias colheitas tem sido um dos novos “achados” dos brancos portugueses e pressinto que ainda estamos na fase do deslumbramento, e que muitos mais virão a surgir. Isso poderá ser mais um bom argumento em defesa dos brancos nacionais, aqui e lá fora.E, a propósito de lá fora, terminou na semana passada a nova versão da Vinexpo, agora em Paris.

Originalmente esteve em Bordéus, onde fui nos anos 90 mas, realizava-se em pleno Verão, era um absurdo de calor, impróprio para vinhos. Depois ganhou prestígio a Prowein, em Düsseldorf, mas Paris vai, naturalmente, destronar a feira alemã. Este ano a representação portuguesa era enorme e um expositor confessou-me que o custo do stand era em linha com o que se paga por cá. Registado. O gigantismo do certame, com expositores distribuídos por vários andares, as centenas de produtores que ali buscam novos negócios, novos importadores e aproveitam para reuniões de trabalho, diz-nos também que, quando alguém fala na quebra do consumo, na necessidade de diminuir a produção, arrancar vinha e outras tarefas urgentes e visita uma feira destas, dificilmente acredita em tanta urgência.

Que o negócio não está assim tão famoso pode concluir-se quando vemos grandes e famosas marcas, da Califórnia por exemplo, a darem os seus melhores vinhos a provar aos passantes. Mas, um sinal que a crise (a sério) ainda não se abateu por lá, é quando nos dizem, por o termos indagado, que o topo de gama que nos estavam a dar a provar, custava em retail price, 340 dólares ou quando nos sugerem um tinto do Oregon, de Pinot Noir, bem simples por acaso, e que o próprio disse com alguma displicência “este é uma entrada de gama”, que afinal custava “só” 22 dólares. O caminho (também o da glória) faz-se caminhando, mas é mais lento do que muitos pensam.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Loureiro do Tiago branco 2020
Região: Vinho Verde
Produtor: Anselmo Mendes
Casta: Loureiro
Enologia: Tiago Mendes
PVP: €25 (na Garraf. Tio Pepe, Porto)
Experiência do filho de Anselmo com uvas do vale do Lima. Fermentação em barrica e estágio de 4 anos em garrafa. 1730 garrafas.
Dica: ganhou muita complexidade com o tempo em garrafa, sem ter perdido a acidez e o brilho da fruta verde. Está aqui para durar. Grande Loureiro.

Arcos Vulcânicos branco 2021
Região: Pico (Açores)
Produtor: Coop. Vitivin. da ilha do Pico
Casta: Verdelho
Enologia: Bernardo Cabral
PVP: €50
O ano foi de produção baixíssima mas a qualidade foi excelente. Uvas da zona dos Arcos de Santa Luzia. Produzidas 1200 garrafas.
Dica: resinoso e mineral no aroma, ambiente marítimo, notas de fruta branca. Misterioso e delicado.

Arinto dos Açores sur lies 3 Colheitas branco
Região: Pico (Açores)
Produtor: A. Wine Company
Casta: Arinto dos Açores
Enologia: António Maçanita/Joana Pinto
PVP: €40
O vinho inclui lote de três colheitas: 2022, 23 e 24 (esta representa 60%). Estagiou sobre borras (lies). Foram produzidas 5000 garrafas.
Dica: austero na fruta, mais vegetal que frutado, toques salinos evidentes, complexo e com excelente acidez. Um branco enigmático e de grande qualidade.

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