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E como não havia vinho…bebemos tinto!

Há mesmo brancos para o frio?

O título da crónica é provocador, eu sei, mas foi de propósito porque, nos dizeres populares é sempre o branco que é colocado em inferioridade face ao tinto. Até podemos aceitar que havia, nos idos de 60 ou 70 do século passado, alguma razão de ser na primazia dada aos tintos. Os vinhos “vermelhos”, nome atribuído aos tintos desde os tempos medievais, eram os vinhos do povo, aqueles que qualquer lavrador podia fazer em casa, bastando para isso pisar umas uvas em lagar e botar o mosto numa barrica para fermentar, com uma mecha de enxofre no topo para que a coisa azedasse o mais tarde possível. Não era complicado, ainda que se soubesse que o tempo era ingrato para os vinhos porque não lhes permitia viver muito.

Com alguma sorte, o vinho de uma colheita durava, com saúde, até à seguinte. Se a sorte fosse madrasta, lá se entornava o caldo e o vinho azedava. Daí a grande festa que era o “vinho novo”, o que reporia a alegria e a esperança em melhores dias. Já o branco era o vinho dos senhores, da classe alta, dos proprietários, era tido como produto mais nobre que o tinto. Só que esses tempos, digamos, medievais, passaram à história e, a partir do sec. XIX, o tinto vulgarizou-se e foi aí (não sei exactamente quando…) que terá nascido a célebre frase: como não havia vinho, bebemos branco!

As razões da preferência pelos tintos são quase sempre parvas, do tipo “o tinto entra vermelho e sai sem cor, algo lá fica” ou, a puxar ao sentimentalismo religioso, “é a cor do sangue de Cristo”, como se o sangue dos apóstolos fosse de outra cor ou o de Judas fosse o quê? Amarelo? Laranja? Adiante. Mudaram-se os tempos e o gosto também e os brancos viram a sua época dourada chegar. Algures nos anos 90, muitos dos produtores que tinham arrancado vinhas de uvas brancas para plantar tintas, deparam-se com a incapacidade de responder às solicitações do mercado que cada vez queria mais branco. Alargou-se assim, e muito, a área das vinhas de branco, em zonas inesperadas, como o Alentejo, por exemplo. Riem-se os ribatejanos que sempre produziram mais branco que tinto e regiões mais conhecidas pelos seus tintos, como Bairrada, viraram (como já em tempos aqui escrevi) uma zona de grandes brancos e, ocasionalmente, de grandes tintos.

O Inverno corre chuvoso e muito friorento, apetecem lareiras e confortos de uma casa aquecida. Fica, para os amantes do branco, a dúvida sobre que tipo de vinho será mais óbvio escolher. Os verdadeiramente obcecados por brancos, e que os consomem com qualquer petisco, têm de tomar decisões. O frio aponta para vinhos mais pesados, cabendo aí os brancos com estágio mais prolongado em barrica, sobretudo se se tratar de barrica nova (como uma das sugestões de hoje). Esse tipo de vinhos aponta para uma temperatura de consumo mais alta do que os brancos “normais”, sempre 12º, podendo mesmo chegar aos 14º.

A escolha das castas reveste-se aqui de maior dificuldade, até porque é possível com a mesma casta fazer vinhos de tipologia variada, dependendo da “mão” do enólogo. Por fim, os brancos com mais idade podem ser grandes companheiros do inverno. Quem os tiver em casa, é altura de apontar para os Alvarinho de Monção e Melgaço, de 2005 até 2014. São vinhos que ganham robustez com a idade e este frio pede brancos cheios e estruturados. Vamos a eles!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Espumante Impossível Brut Nature s/ data
Região: IG Minho
Produtor: Vinevinu
Casta: não comunicada
Enologia: Manuel & Luís Cerdeira
PVP: €30
Segundo o produtor, este é o primeiro espumante de Paredes de Coura, uma zona com pouca tradição de produção de vinho.
Dica: muita frescura aromática, traços minerais de pedra molhada, fruta branca. Muito envolvente na boca, perfeito para aperitivo, seco, boa austeridade.

Carole Encruzado branco 2018
Região: Dão (Serra da Estrela)
Produtor: Quinta do Isaac
Casta: Encruzado
Enologia: Pedro Sequeira
PVP: €90
Primeira incursão no Dão deste produtor do Douro. O vinho teve 2 anos de estágio em barrica e mais 5 em garrafa. Preço ousado para uma estreia na região.
Dica: volumoso, envolvente, cheio, com peso evidente da barrica. Acidez muito correcta mostra-nos um branco de Inverno, a precisar de pratos bem estruturados. a

Quinta de Camarate tinto 2022
Região: Reg. Pen. Setúbal
Produtor: José Maria da Fonseca
Casta: Touriga Nacional (maioritária), Castelão, Aragonez e Cabernet Sauvignon
Enologia: equipa de enologia da empresa
PVP: 14
A marca é muito antiga e tinha a designação de Camarate. Com o nome “quinta”, remonta a 1985. O vinho estagiou em barrica por 8 meses. Foram produzidas 12 050 garrafas. Também se edita em branco seco.
Dica: concentrado mas não pesado, com fruta negra e bom balanço entre corpo, acidez e madeira. Uma aposta segura para carnes de forno com bom tempero.

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