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Notas soltas de Janeiro

E com os olhos nos Açores

 Tencionava escrever apenas sobre dois dos vinhos desta semana, uma vez que sobre eles há algo a dizer que pode ser interessante. No entanto, e face à prova de alguns vinhos dos Açores que tive a semana passada (António Maçanita) e uma outra esta semana (Picowines), os Açores de repente ficaram mais interessantes. Após uma série negra de más colheitas, desde 2019 até 2024, a colheita de 25 foi uma bênção, para repor stocks e dar algum ânimo aos (agora podemos dizer…) inúmeros produtores que têm marcas no mercado, sobretudo do Pico mas também da Terceira e com alguns apontamentos nas outras ilhas. Espera-se que esta relativa abundância não constitua apetite-extra para americanos alucinados que verão nas ilhas um território estratégico para combater chineses e russos. Enfim, a alucinação não está para acabar tão cedo. Sem saber se qualquer dia terão de cantar o hino “amaricano” os picarotos lá vão promovendo os vinhos que, em muitos casos, têm uma originalidade arrebatadora. Falamos de brancos, claro, que essa ideia de plantar Merlot no Pico é desajustada; não só não acrescenta nada ao Merlot que existe em todo o mundo, como não é por aí que os Açores poderão ganhar notoriedade. Das provas darei conta em futura crónica.

Do Tejo temos este branco que, ao lado do tinto com o mesmo nome, celebra os melhores lotes da quinta. Se recuarmos 50 ou mais anos, o Ribatejo era um mar de vinhas e um lago de vinhos: milhões, muitos milhões de litros aqui se produziam, para alimentar os mercados coloniais e as tascas de Lisboa, onde os vinhos chegavam a granel, ainda em pipas que eram colocadas bem à vista do cliente, atrás do balcão, e onde se petiscavam uns “pipis à base de moelas” ou umas bifanas a escorrer molho. Vidas de outrora. Mas esse Ribatejo reconverteu-se, reduziu drasticamente a produção, colocou as castas em sentido, ou seja, não as deixou produzir a loucura por hectare que elas queriam. A Fernão Pires e a Arinto, sem freios, podem atingir as 25/30 toneladas por hectare, quando, por exemplo, no Douro, se se chegar às 8 ton/ha já todos batem palmas. As grandes casas da região souberam reconverter-se e Casal Branco, Lagoalva, Cadaval, Enoport e Falua são hoje nomes de referência. E mesmo as grandes adegas cooperativas, como Almeirim ou Cartaxo, têm hoje no seu portefólio um conjunto de vinhos muito bons. A par dos topos de gama, de que este branco faz parte, a região tem um acervo enorme de marcas que apostam numa boa relação preço/prazer, com a Fernão Pires a funcionar como casta-bandeira da região. O Ribatejo, não nos esqueçamos, produz mais branco do que tinto, caso raro em Portugal.

Da empresa C. da Silva (uma casa tradicional do Vinho do Porto) provámos um Porto Colheita branco. Esta categoria só foi estabelecida em 2005 e obedece às mesmas regras dos tawnies (feitos a partir de vinhos tintos), com 7 anos de estágio mínimo em madeira antes do engarrafamento. A partir daí, por norma os vinhos são engarrafados à medida dos pedidos do mercado e, também por isso, é obrigatório indicar a data do engarrafamento. A regra a seguir é adquirir garrafas com engarrafamentos recentes. Isso dá muita segurança ao consumidor. Engarrafamentos muito antigos resultam sempre mais arriscados, sobretudo nestes vinhos que vão sendo engarrafados ao longo do tempo. Opção do consumidor.

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

 

Marquesa de Alorna Grande Reserva branco 2022

Região: DOC DoTejo

Produtor: Quinta da Alorna

Castas: lote de várias castas, dominando o Alvarinho. A composição pode variar em cada edição.

Enologia: Martta Simões

PVP: €32

O mosto fermenta em barricas novas e aí permanece por 10 meses. A Alorna tem um portefólio diversificado, onde encontramos algumas das melhores relações qualidade/preço do país. Este é um vinho de homenagem.

Dica: excelente equilíbrio entre futa e madeira, com acidez muito viva que o mantém num registo fresco e muito atraente.

 

Titan of Douro Ascensão Grande Reserva tinto 2022

Região: Douro

Produtor: Luís Leocádio

Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa e Sousão

Enologia: Luís Leocádio

PVP: 45

Este enólogo/produtor tem também no portefólio um branco de grande nível e um tinto que é um blend de vários anos, sempre debaixo do chapéu Titan of Douro.

Dica: concentrado e rico, com 32 meses de barrica, é um tinto sério, muito estruturado e que merece bons copos e melhor companhia.

 

Porto Dalva Colheita branco 2011

Região: Douro

Produtor: Granvinhos

Castas: várias

Enologia: José Manuel Sousa Soares

PVP: 35

Esta marca teve origem na empresa C. da Silva, hoje parte integrante da Granvinhos. Engarrafado em 2023 (informação do contra-rótulo).

Dica: Cor com tons acastanhados e reflexos alaranjados, notas de mel, caramelo, figos secos e leve nota de canela. Untuoso no palato, um Porto de muita qualidade, a preço bem conveniente.

 

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