E com os olhos nos Açores Tencionava escrever apenas sobre dois dos vinhos desta semana,…
Quando o tempo é nosso amigo
Os brancos agradecem a paciência
Como se diz com frequência, “ainda sou do tempo” em que os vinhos brancos estavam destinados a serem consumidos jovens porque se lhes não reconhecia grande capacidade para evoluírem bem em cave. Não sei quem inventou esta “tese” mas desde a minha tenra idade que a noção de qualidade de vinhos com idade apenas se aplicava aos tintos. A parte inverosímil daquela ideia é que, quando se proporcionava a prova dos brancos com mais idade, a realidade contrariava a ideia-feita, ou seja, os brancos mostravam uma frescura surpreendente e desafiavam o tempo com brilhantismo. Relembro os brancos velhos do Centro de Estudos de Nelas, da Quinta da Aguieira e Caves Aliança, das Caves Dom Teodósio, de Colares ou de alguns vinhos de Alvarinho que nos davam muito prazer. A tal “tese” está hoje morta e enterrada e aqueles que têm com o vinho uma relação fiel e duradoura sabem que há sempre a possibilidade de sermos surpreendidos por bancos já idosos.
Menos habitual é, de uma forma explícita, apresentarem-se vinhos brancos no mercado que resultam do lote de várias colheitas. Hoje é assunto, digamos, na moda, mas a tal moda tem pouco mais de uma década. Creio que foi na quinta dos Carvalhais (Dão) que se elaborou um Branco Especial que surgiu no mercado em 2013. Era Especial porque juntava vinhos de oito colheitas diferentes, pacientemente guardados em barrica. Quando chegou a hora, os dois enólogos de serviço, Beatriz Cabral de Almeida e Manuel Vieira, fizeram um lote, seguindo o mesmo método de um blend de Porto tawny: este é a base, aquele é o tempero, este acrescenta fruta, aquele tem boas notas de madeira, ali há resinas que nos interessam, aqui há flores, este entra pouco porque lhe falta acidez e por aí fora. Recordo-me que o lançamento foi um pouco a medo porque não se sabia a reacção do mercado.
Conclui-se que foi um projecto ganhador e que o mercado apreciou o modelo, uma vez que o preço actual é o dobro do que era na altura. O apreço foi tal que não pararam de surgir, em várias regiões e com várias castas, vinhos que são lote de múltiplas colheitas. Também os há tintos mas os brancos têm sido em maior número. Entre Douro, Vinho Verde e Dão, temos várias escolhas e o tema está a interessar outras zonas do país. O que me parece ser mais surpreendente nestes vinhos, de que hoje sugiro três das muitas escolhas possíveis, é que o que nos surge no copo é muito mais do que um branco envelhecido, algo oxidado mas que “ainda se bebe”; o que temos são vinhos que receberam novo alento pelo facto de serem mais completos, mais ricos e mais entusiasmantes.
A ver pela primeira experiência do Dão, o facto de serem muitas as colheitas diferentes, surge como elemento diferenciador, acrescentando valor ao conjunto. Tenho provado vinhos deste tipo em várias regiões, sempre com óptimos resultados. Os brancos que nascem com boa acidez tendem a resistir muito bem à cave e é pena o que se passa na restauração: o cliente olha para a carta de vinhos e, se o branco não for da última colheita, a coisa corre mal. Mas, sejamos claros, a culpa não cai toda para o lado do cliente; na maioria dos restaurantes os vinhos são conservados em condições muito deficientes e o cliente, e bem, desconfia e prefere beber o que é mais novo. É preciso explicar e informar. A conversa do costume, portanto.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Herdade São Miguel Resumo de 20 Vindimas branco
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Casa Relvas
Castas: Antão Vaz e Arinto
Enologia: Nuno Franco
PVP: €50
Resulta de lote de 20 vindimas, os vinhos foram conservados em solera. É assim um vinho comemorativo e único que assinala as duas décadas da empresa.
Dica: ainda que muito carregado na cor, o vinho tem um aroma complexo e uma prova de boca de grande riqueza, com boa estrutura e acidez equilibrada. Uma surpresa.
PATRIAM Edição nº 2 branco
Região: Vinho Verde
Produtor: Quintas de Melgaço
Casta: Alvarinho
Enologia: Jorge Sousa Pinto
PVP: €55
Por resultar de um lote de várias colheitas não pode ter a denominação Monção e Melgaço (!). Aqui entram vinhos de 2018, 20, 21 e 22 em proporções variadas. Estágio parcial em barrica usada. Feitas 3323 garrafas.
Dica: ainda com imensa frescura citrina, complexo e rico, cheio de nuances. Notas de pederneira e fruta branca, acidez e corpo em perfeito diálogo. Um branco fabuloso.
Villa Oliveira 3ª edição branco
Região: Dão – Serra da Estrela
Produtor: Casa da Passarella
Casta: Encruzado
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €95
Inclui vinhos desde a colheita de 2020 até 24, inclusive. A metodologia é idêntica, início da fermentação com curtimenta e finalização em barrica usada.
Dica: surpreende pela tremenda frescura quer aromática quer de sabor, muito rico nas notas citrinas, um branco complexo e aristocrata com um equilíbrio perfeito que revela toda a classe da Encruzado. Se lhe dermos tempo.
This Post Has 0 Comments