E com os olhos nos Açores Tencionava escrever apenas sobre dois dos vinhos desta semana,…
O carrinho do chá e o marasquinho
E o que fazer com as relíquias?
A história passou-se em Ovar. E não foi há mais de dois meses. A cidade faz-se bem a pé, até porque a distância entre as várias casas que produzem o celebérrimo pão-de-ló (é a parte mais interessante) é muito curta. Fim de semana em casa de amigos, casa antiga, com o charme da velhice e os problemas inerentes à degradação dos equipamentos. Adiante. Garrafeira? Nem pensar, vinhos escondidos também não mas…e há sempre um mas, o carrinho de chá da sala tinha várias garrafas de vinhos licorosos. Tudo material antigo, nomes desconhecidos, garrafas a meio, algumas delas nem permitiam que se tirasse a rolha, de tal forma ela estava colada ao gargalo. Fica então a dúvida: isto está aqui a fazer o quê? E será que alguém vai beber estes restos? Decisão drástica: abre-se tudo, a bem ou a mal, empurram-se as rolhas para dentro, seja de que forma for, filtra-se se for preciso. Trabalho feito. Segunda etapa: juntar tudo, sem critério de escolha, num único recipiente.
A ideia era fazer, a partir de uma base de chalotas ligeiramente refogadas num tacho, uma redução destes “xaropes”, muitos deles com elevado teor de açúcar. Assim se fez e, já com o preparado adiantado (a que poderemos chamar compota de cebola), juntou-se uma pequena quantidade de vinagre de boa qualidade. Depois foi-se provando de cinco em cinco minutos para averiguar a consistência, a acidez e o teor de açúcar. Ficou muito bem, confesso, mas é importante encontrar o ponto certo em que se termina o processo porque, arrefecendo, aquele líquido pode virar quase sólido e há que desligar o lume a tempo e horas. Não posso dar a receita porque foi feito sem critério ou regra, mas esta ideia pode ser interessante para dar “uso final” a muita garrafa que era do tio e da avó e que já ninguém imagina que vai beber. Será que actualmente alguém sabe o que é marasquinho (licor de cereja), genebra (o gin português) ou licor de ouro? Os licores, muito vulgares no séc. XIX, quer aqui quer no Brasil, perderam prestígio e as garrafas hoje são, se cheias, objecto de colecção. Já as que estão a meio e vão morrendo nos carrinhos de chá, merecem um fim digno. Não é seguro que o resultado seja sempre brilhante mas pode-se tentar. Um preparado destes pode ligar bem com um paté de pato ou mesmo com um “diz que é uma espécie de foie-gras” daqueles que se vendem nas grandes superfícies; não é bom nem mau, antes pelo contrário…
Deixando de lado o carrinho do chá, pode também acontecer que, no final da festança, sobrem muitas garrafas ainda com vinho. Se a festa foi mesmo grande, o número de botelhas abertas pode assustar. E agora? Que fazer com isto tudo? Para os mais obcecados, a ideia é juntar tudo e guardar para fazer vinagre. Não aconselho, uma vez que há uma enorme distância entre vinho azedo e vinagre. Deixar azedar é rápido, fazer vinagre é desesperadamente lento. Uma boa solução é, nomeadamente nos tintos, juntar restos numa panela, com pau de canela e até um pouco de açúcar amarelo e ali estufar umas pêras. Depois delas estarem macias (aconselho pêra-rocha), pode retirar a fruta e reduzir um pouco mais o caldo até um ponto mais xaroposo. Acompanha na perfeição com umas bolas de gelado de nata ou baunilha. Pode ligar tudo isso com um Porto LBV já com alguns anos ou um dos outros licorosos que existem em várias regiões, como o Alentejo, Lisboa ou Bairrada e que estejam ainda em garrafa fechada. O importante mesmo é não estragar nada.
Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)
Murças Minas tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Murças
Castas: várias, onde se incluem Touriga Nacional, Touriga Francesa, Tinto Cão e Tinta Francisca
Enologia: equipa dirigida por José Luís Moreira da Silva
PVP: €10
A quinta localiza-se entre a Régua e o Pinhão. Vinhas bio, uvas pisadas em lagar, estágio em barrica usada e também betão.
Dica: fino na fruta, elegante no corpo, temos tinto muito polivalente à mesa e já pronto a ser apreciado. E com muito boa relação qualidade/preço.
Palácio dos Távoras Vinhas Velhas Grande Reserva tinto 2020
Região: Trás-os-Montes
Produtor: Costa Boal Family Estates
Castas: variadas em vinha velha
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €22
Aroma concentrado, sério no perfil, sugere ter havido intenção de extrair o que as uvas (as mesmas da região do Douro) tinham de melhor.
Dica: maduro e taninoso, é um tinto que merece alguma guarda em cave. Mas não deixe de o provar agora, associando-o a carnes de bom tempero.
Monte Branco tinto 2021
Região: Alentejo
Produtor: Adega Monte Branco
Castas: Alicante Bouschet, Aragonez e Trincadeira
Enologia: Inês Capão, Luís Louro
PVP: €45
Este é o tinto de topo (fora as edições especiais) deste produtor. As vinhas estão em Estremoz. Fizeram-se 4800 garrafas. É um vinho de parcela.
Dica: duas castas em co-fermentação e a Trincadeira a temperar depois o lote. Vinificação muito cuidada, está muito bem quer no aroma quer no palato, com muito sabor e final macio.
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