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Não há como fugir

E as escolhas são difíceis

Com a aproximação das festas natalícias regressam as angústias do enófilo: o que vou servir, quantos serão os convivas, será que vão apreciar as minhas escolhas? são tantas as dúvidas para as quais não há, evidentemente, uma fórmula que responda a todas. No entanto, e correndo o risco de me repetir, deixo aqui sugestões de muito bom nível. Vejamos: temos dois champanhes e um Porto Colheita.

O champanhe Mailly há alguns anos que se encontra em Portugal, distribuído pela Ivin. Mailly é uma empresa que funciona como associação de produtores; foi criada em 1929 e desde então só entraram dois novos associados. Em conjunto representam 75 ha de vinhas o que, em Champagne, pode dizer-se que é brutal. A empresa trata de todas as vinhas dos associados e, diz-se, “os donos das parcelas não precisam de sujar os sapatos na vinha”. Apenas, dizemos nós, ficam à porta da adega a contar notas. Nada mal! A legislação da região autoriza a substituição de “Blanc de Noirs” – vinho branco feito de uvas tintas – por “Blanc de Pinot Noir”. Não apresentando data de colheita, o champanhe resulta do lote de vinhos de várias safras, cuidadosamente guardados nas adegas como “vin de réserve”, e que permitem reproduzir, todos os anos, o chamado “estilo da casa” que, assim, varia de empresa para empresa. Nesta categoria incluem-se a maioria dos vinhos feitos na região. Nos melhores anos temos um vinho datado, sempre mais raro e mais caro. Tem-se vindo a generalizar a indicação da data em que o vinho for rolhado (dégorgement) algo muito importante, sobretudo nos vinhos não datados.

Já no caso do Krug, estamos a falar do Rolls-Royce dos champanhes. No portefólio também os há datados, mas a empresa faz questão, desde sempre, de fazer um vinho de superior qualidade ainda que sem data; apenas indica o número da edição, o que já por si ajuda. Para se ter uma ideia da originalidade e riqueza deste champanhe, diga-se que, para elaborar a cuvée – vinho-base a champanhizar – esta edição teve por base a colheita de 2017 e o lote integra vinhos de 13 anos diferentes, o mais antigo de 2001, vinhos oriundos de 150 parcelas diferentes. Imagine uma sala de provas com 150 vinhos diferentes em cima da mesa, com o objectivo de criar um lote final. Dizer que é tarefa difícil, é pouco. Por esta razão o Krug não datado é bem mais caro que outros, de outras empresas, que têm data de colheita.

O Natal, quem sabe, pode ser o momento para beber vinhos destes. Mas a época é também fértil em doçaria, normalmente de barra pesada, com ovos, açúcar, amêndoas e outras gulodices. É verdade que nem sempre um vinho doce, como o Vinho do Porto, é a melhor companhia para as sobremesas doces mas, caso insista nesse ponto, o vinho que sugiro hoje cumpre bem a função: não é excessivamente doce, tem ainda muita frescura e elegância. O sector tem também colocado no mercado vinhos do Porto muito velhos – 50, 80 anos e Very Very Old – e são sempre excelentes: Vasques de Carvalho, Vallado, Graham, S. Leonardo (quinta do Mourão), Sandeman, Real Companhia Velha são apenas alguns dos que já foram provados e aprovados. Estes vinhos não são caros, são raros, e a raridade, até para que o prestígio da região não se perca, tem de ser paga. Junte 7 ou 8 convivas e divida a factura por todos. É sabido que vai correr bem. O Natal não é a melhor época para estas aventuras? Talvez sim ou talvez não, depende. E quando chegarmos ao final do ano falaremos dos espumantes portugueses.

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores/importadores)

Mailly Champagne Grand Cru Blanc de Pinot Noir
Região: Champagne (França)
Importador: Ivin
PVP: €75
A base para este vinho (sem data) vem da colheita de 2019; foi degorjado em Outubro de 2024, informação cada vez mais necessária para se aferir a durabilidade do vinho em garrafa. Grand Cru identifica uma zona (comuna) reconhecida como produtora das melhores uvas. Há 17 comunas Grand Cru na região, correspondendo a 9% da área de vinha de Champagne.
Dica: um champanhe pensado para a mesa, sério, com excelente austeridade, perfeito na acidez, resultando muito atractivo.

Krug Champagne Grande Cuvée 173ème Edition
Região: Champagne (França)
Importador: Moët Hennessy Portugal
PVP: €349 (Locais de venda: Corte Inglés, Superm. Apolónia, entre outros)
Lançado agora em Portugal, juntamente com o rosé mas esse é sempre uma edição muito mais pequena (a actual é a 29ème Edition) e também muito mais cara, €535 cada garrafa.
Dica: classe pura, com enorme complexidade. Fica-nos na memória. Não é exigente: apenas requer copos da melhor qualidade, um grupo de bons apreciadores e (se for possível) caviar por perto. Conta a dividir? É uma hipótese…

Porto Quinta do Pessegueiro Colheita 2012
Região: Douro
Produtor: Quinta do Pessegueiro
Castas: misturadas em vinhas velhas
Enologia: João Nicolau de Almeida/Hugo Helena
PVP: €46,50
É o primeiro Porto Colheita feito na quinta, uma edição quase simbólica de 730 garrafas. A quinta, propriedade dos Domaines Zannier, fica na margem sul do Douro, um pouco acima do Pinhão.
Dica: muito rico de aromas, com notável delicadeza de fruta caramelizada. Suave e delicado no palato, dá muito prazer a beber.

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