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O que se aprende nas provas

Aqui e lá fora

Há muitas coisas que se aprendem nas provas de vinhos, umas mais óbvias que outras. Aprendemos com os vinhos que estamos a provar porque ficamos a perceber como foram feitos, como espelham, ou não, a região de origem, como reflectem as tendências da moda e do consumo. Aprendemos também com quem está a provar e sobre quem está a provar: um nariz mais apurado capta este e aquele aroma que nos escapou, esta virtude ou aquele defeito que não eram assim tão óbvios, percebemos pelas reacções à prova quais os gostos e desgostos de quem prova. Mas nas provas percebemos também de que lado sopra o vento, se esse vento traz, em média, mais ou menos graduação dos vinhos, se eles nos chegam com madeira mais óbvia ou menos, se o perfil sugere que é tudo para beber já ou se é para guardar.

E, claro, uma prova alargada permite comparar os vinhos uns com os outros e é assim que no final dizemos, gostei mais deste e menos daquele. Vem tudo isto a propósito da prova dos tintos de Bordéus que teve lugar em Londres no passado dia 8, organizada pelo Instituto dos Masters of Wine. Em prova estavam os tintos do ano 2021; uma colheita difícil (desafiante, como agora se diz), muitos problemas na vinha, ano mais fresco. O “mais fresco” tem aqui uma consequência imediata: os vinhos apareceram em prova com um grau alcoólico médio bem mais simpático do que nos anos quentes: quase todos os vinhos provados, 83 no total, tinham uma graduação a rondar os 13%. Para o ano a conversa vai ser outra porque o ano de 22 foi mais quente e espera-se uma colheita de referência (leia-se: mais cara e mais alcoólica). Ainda que actualmente seja muito discutível que a qualidade venha com o álcool, por aqui uma coisa ainda está relacionada com a outra e todos andam a aplaudir as alterações climáticas. Pode parecer estranho mas a verdade é que tem havido muito menos oscilações de qualidade ano após ano à conta da subida das temperaturas e, 3 anos de grandes colheitas – 2018, 19 e 20 -, não era habitual por estas paragens.

Então o que é que a colheita de 21 tem? Os vinhos têm um corpo um pouco mais delgado, taninos mais presentes (o que lhes confere um tom mais clássico, a relembrar os Bordéus de antigamente), e uma boa acidez que equilibra o conjunto. Foram grandes os prejuízos para quem defende formas alternativas de viticultura porque a chuva e suas doenças correlativas não deixaram margem para brincadeiras. Quem quis ter uvas teve de penar, ou melhor, pulverizar… O mês de Outubro ajudou mas mesmo assim houve châteaux na zona de Sauternes que não fizeram qualquer vinho. Assisti também a uma masterclass sobre o ano de 2022 (que será objecto de prova para o ano), com provas de segundas marcas de grandes châteaux e fiquei a saber que, por exemplo, o Château Suduiraut (92 ha) vai abandonar uma das 3 marcas de Sauternes que tem porque…não consegue vende a €10 à porta da adega.

O negócio corre mal e as modas do consumo correm mal para quem trabalha vinhos doces, tal como o sector do Vinho do Porto já percebeu. No Douro, mesmo os mais ferozes opositores dos “vinhos de pasto” (nome pouco simpático como era tratados os DOC Douro), já estão hoje empenhados em fazer vinhos para além do Porto. É a vida! E estarem (as empresas do Porto) sentadas num cantinho, sem acções de promoção junto do público à espera que tudo melhore, também não leva a lado nenhum. Mas, a esta minha conversa chama-se pregar no deserto!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Villa Oliveira Vinha Centenária Pai D’Aviz tinto 2019
Região: Dão
Produtor: Casa da Passarella
Castas: lote de muitas castas na vinha, com elevada percentagem de Baga
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €55
Uvas fermentaram em lagar e o vinho estagiou em tonel por 3 anos. Graduação moderada de 12,5%. Produzidas 3300 garrafas.
Dica: notas de vegetal seco, pinheiro, tudo fino e elegante, num ambiente complexo, rico e enigmático. Um Dão ao estilo antigo mas requintado.

Venera Grande Reserva tinto 2023
Região: Douro
Produtor: Quinta dos Loivos
Castas: vinhas velhas e Sousão
Enologia: Adriana Covas/Jorge Alves
PVP: €40
Vinhas – Cima Corgo – com orientações diversas, tudo a cerca de 500 m de altitude. O investidor é brasileiro. O vinho teve estágio de 18 meses em barrica nova. 1500 garrafas. Graduação de 14,7%
Dica: muita estrutura mas sem perder o equilíbrio de conjunto, taninos finos e carácter mineral, com excelente acidez. Impressivo (assim a graduação não incomode).

Quinta da Fonte Souto branco 2023
Região: Alentejo
Produtor: Quinta da Fonte Souro
Castas: Arinto (65%) e Verdelho
Enologia: Charles Symington, Pedro Correia, Ricardo Constantino
PVP: €17,50
Vinhas na serra de São Mamede a uma altitude média de 500m; fermentação parcial em barrica e estágio em madeiras novas e usadas. Produzidas 24 000 garrafas.
Dica: Ainda um pouco fechado, aromas verdes de ameixas e leves citrinos de tangerina. Com a perfeita acidez que tem, o conjunto resulta muito equilibrado, fresco e bem atractivo.

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