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Douro em versão casual chic..

Para momentos especiais, pois claro

para todas as bolsas. Ao lado da paisagem deslumbrante encontramos, na outra vertente, a miséria social que decorre do excesso de uvas face à procura, diminuindo assim o preço que se paga à lavoura. Por isso, o título Crise do Douro, ou mais genericamente “A Questão do Douro”, é assunto que tem quase 200 anos e que, desde então, não deixou de estar presente nas páginas dos jornais, nos panfletos incendiários das várias correntes de opinião, partidos, Associações e Federações.

Terá sido em 1850 que se começou a falar de crise, a propósito do oídio – doença da vinha nunca debelada até hoje e logo chegaram também a cólera e febre amarela (1856) e mais a filoxera, a partir de 1865, que gerou a mortandade de uma parte significativa dos vinhedos. É claro que com a crise na vinha veio, por arrastamento, a ruína dos lavradores, a venda ao desbarato de vinhas e quintas, etc. E até hoje, não tenho memória de se ter deixado de usar a frase Crise do Douro. Fatalidade? Não creio! Inoperância da tutela? Por certo! Falta de diálogo? Sem dúvida! Excessivo peso de irmandades e compadrios? Suspeito! E assim continuamos, chutando para canto, e assobiando.

Entretanto a região produz do melhor que o país vinhateiro tem para apresentar. Propositadamente não escrevi “o” melhor mas “do” melhor, porque é óbvio, para quem tem nariz e bom-gosto, que outras regiões também produzem grandes vinhos. O que outras regiões poderão lamentar é não terem a mesma visibilidade, nomeadamente em termos internacionais, que o Douro tem. À conta do Vinho do Porto? Sim, mas não só. A região, a partir dos anos 90, começou a trazer a público, em catadupa, vinhos extraordinários em todas as gamas e das mais desvairadas castas, até então desconhecidas. Com a fama veio, num percurso que se considera normal, a subida dos preços, nalguns casos colocando os vinhos do Douro num patamar onde apenas se perfilam alguns grandes vinhos do Mundo, ainda que difíceis de vender. Todos sabem trautear a frase “o mais difícil são os primeiros 200 anos!” mas, quando chega a hora da verdade, muitos esquecem-na.

Alguém falou que o vinho do Douro e do Porto são servidos em copos de cristal mas essa é uma aparente riqueza que não tem correspondência no quotidiano de quem trabalha a terra e produz uvas. É verdade, e todos gostariam de ver no Douro a mesma situação de Champagne, onde se diz que a distinção entre ricos e pobres é que os ricos mandam lavar o Mercedes e os pobres têm, eles próprios, de lavar o “seu” Mercedes! Como não devemos estar sempre a chorar à conta da crise, hoje proponho três tintos de luxo, dois a preço (vá lá…) moderado, e um a preço de ourivesaria. São grandes tintos que merecem boa companhia, bons copos, temperatura certa e, no final, a conta a dividir por todos. E não tenho qualquer rebuço em afirmar que o Memórias é dos melhores vinhos do Douro que já bebi; é caro mas justifica todos os euros. O Chryseia é já um clássico da região, cada vez mais afinado e o Quinta do Pessegueiro um tinto menos conhecido, mais discreto, mas excelente.

Esgotámos a lista? Nem pensar! Nem multiplicada por 20 a lista ficaria completa. Adaptando (livremente) a frase da canção, digo que até na noite mais triste há sempre uma boa garrafa do Douro para nos animar!

 

Sugestões da semana:            

(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Chryseia tinto 2024

Região: Douro

Produtor: Prats & Symington

Castas: Touriga Nacional, Touriga Francesa

Enologia: equipa da Symington e Bruno Prats

PVP: €85

O lote inclui uvas das quintas de Roriz, Perdiz e Vila Velha. Estagiou 15 meses em barrica de 400 litros. Este tinto combina uma grande concentração com um polimento notável, com grande frescura de boca. Elegância pura, a revelar com só com grande intervenção se conseguem resultados assim.

Dica: deve ser consumido agora para se perceber a riqueza que encerra, mas pode também ser guardado em cave.

 

Memórias Alves de Sousa tinto s/ data

Região: Douro

Produtor: Domingos Alves de Sousa

Castas: múltiplas castas, vinhas entre os 40 e 120 anos

Enologia: Tiago Alves de Sousa

PVP: €250

Não tem data porque é um lote de vinhos de 2010 a 2019. Só é editado uma vez por década. Ainda disponível no mercado. O próximo só no final da década…

Dica: aroma extraordinário, pela riqueza e complexidade, pelo perfil denso e especiado mas sempre elegante. Prova de boca notável pelo equilíbrio que revela. Vinhos que não se esquecem? Este é um deles!

 

Quinta do Pessegueiro Plenitude tinto 2023

Região: Douro

Produtor: Quinta do Pessegueiro

Castas: vinhas velhas

Enologia: João Cabral Nicolau de Almeida

PVP: €60

A quinta fica na margem sul, um pouco acima do Pinhão. Fermentação completa em lagar de granito e estágio do vinho em barricas de diferentes capacidades. Este já leva um ano de estágio em garrafa, o que só lhe fez bem.

Dica: aroma muito rico e profundo, apimentado e algo enigmático, com óptimo balanço na boca. Um grande, grande tinto.

 

 

 

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