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Uma passagem rápida pelo céu

Pode esperar? Olhe que não…

Há umas semanas, no âmbito da Wine Paris, a nova VINEXPO que promete arrasar a concorrência, estive presente num jantar/prova para o qual fui convidado pela Symington, a “nossa” empresa que integra um conjunto de produtores que têm em comum serem projectos familiares. O grupo de 12 famílias dos vinhos chama-se Primum Familiae Vini – ver www.pfv.org – e costuma realizar um encontro anual que, desta vez teve lugar em Paris. Num grande salão, cada produtor tem uma banca onde dá a provar os seus vinhos e depois petisca-se en passant, sem grande cerimónia. A metodologia é boa e, como são muito vinhos – desta vez com grande proliferação de magnuns e double magnuns – cada convidado prova apenas o que quer, as vezes que quer. Assim fiz, eu e mais umas 100 pessoas que também foram convidadas.

É a oportunidade para degustar alguns vinhos realmente míticos e que não temos qualquer hipótese de adquirir porque, simplesmente, não se vendem no mercado, tal a reduzida produção. Relembro neste capítulo alguns dos vinhos do produtor alemão Egon Müller, o mais famoso produtor do Mosel, cujos Riesling atingem preços de ourivesaria, ou o branco do Château Haut-Brion, um vinho que consegue ser ainda mais caro que o “irmão” tinto. É muito difícil manter uma marca na família ao longo de séculos. Sim, é de séculos que falamos, que a família Hugel – que integra este grupo – está na Alsácia desde 1639. Aliás, a Alsácia é pródiga em marcas que estão na família há séculos, como Trimbach (1626) ou Zind-Humbrecht (1620), só para citar alguns exemplos. Tudo era mais fácil quando cada família tinha 5 e 6 filhos mas agora é bem mais complicado, quando a descendência não tem apetência vínica. A nova tendência demográfica é inimiga destes projectos. Há sempre a possibilidade de alargar a primos e sobrinhos, como muito bem fizeram os Symington. Destes 12 projectos, o que mais recentemente mudou de mãos está, desde 1935, na posse dos Domaines Clarence Dillon e incluem nomes que brilham no firmamento vínico, como Château Haut-Brion e La Mission Haut-Brion, ambos a sul de Bordéus.

Devo confessar que não provei todos, até porque cada produtor tinha uma meia dúzia de vinhos à disposição mas apontei muito para a Borgonha para os vinhos Joseph Drouhin. Aqui foi possível provar o branco mais famoso do mundo – Montrachet – servido em double magnum; não é o mais caro e não sei se é o melhor, mas é o mais famoso branco da região (e do mundo), e de há séculos a esta parte; provei o 2019 e 2020 (este merecedor da nota máxima, qualquer que seja a tabela usada) mas também um tinto arrebatador – Griotte-Chambertin 2003 – , para nos lembrar que um grande Borgonha tinto pouco ou nada tem a ver com as imitações a cheirar a drops que proliferam por todo o mundo.

Os dois tintos de Bordéus, ambos de 2000, mostraram-se a um nível incrível, pela riqueza, concentração, elegância e profundidade de aromas e sabores. Também o Château Mouton Rothschild mostrou aqui dois vinhos mais “abordáveis” mas de enorme valia, o Clerc Milon 2010 (€160) e o Petit Mouton de 2016 (€429 na Garraf. Nacional). Dá que pensar: vender uma segunda marca a mais de €400 não está seguramente ao alcance de todos. Dir-se-ia que não foi de um dia para o outro que se chegou lá e estas famílias são disso prova. O que não se percebe é como alguns produtores nacionais, grandes adeptos do “achismo”, acham que os seus vinhos são tão, mas tão especiais, que o povo está em fila para ir a correr pagar uma pipa de massa pelas garrafas. Para quem acreditar, está na altura do lamento: valha-me Deus!

Sugestões da semana:
(Os preços foram fornecidos pelos produtores)

Viosinho da Malhadinha Vinha do Olival branco 2024
Região: Reg. Alentejano
Produtor: Herdade da Malhadinha Nova
Castas: Viosinho
Enologia: Nuno Gonzalez
PVP: €22
A Malhadinha tem um conjunto muito interessante de vinhos varietais. Tem também o enoturismo mais sofisticado e caro do Alentejo, a merecer visita. Sustentabilidade e equilíbrio ambiental são aqui a regra. Deste branco foram feitas 3600 garrafas.
Dica: muito boa definição de fruta branca, polido, fino, muito atractivo. A elegância da boca e o óptimo balanço, tornam este branco uma tentação.

Menin Grande Reserva Arinto branco 2023
Região: Douro
Produtor: Menin Wine Company
Casta: Arinto
Enologia: Tiago Alves de Sousa
PVP: €50
Um dos arintos mais surpreendentes e originais que já provei em Portugal (com provas repetidas), com aromas de boca totalmente fora do habitual, com hortelã-pimenta e leve mentol. Barrica perfeitamente integrada. A conhecer.
Dica: no aroma até parece discreto mas explode na boca, com muita frescura e delicadeza. Para acepipes pouco temperados será perfeito.

Casa da Passarella O Fugitivo tinto 2021
Região: Dão
Produtor: Casa da Passarella
Casta: Tinta Carvalha
Enologia: Paulo Nunes
PVP: €31,80
Vinificado em lagares de granito, passou dois anos em barricas usadas. Esta variedade, que também existe no Douro, pertence à família de castas com pouca cor, pormenor muito valorizado actualmente. Este tem 12,5% de graduação.
Dica: cor ligeira, leve tonalidade quase acastanhada, intensamente vegetal, o verdadeiro tinto à moda antiga, muito gastronómico, fácil de gostar.

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